A direita não sabe governar, por Gustavo Conde

Essa lição amarga de que o poder público significa coisas tão diferentes para direita e esquerda promete fritar os nossos neurônios pela próxima década.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, discursa na solenidade de transmissão de cargo.

A direita não sabe governar, por Gustavo Conde

A direita não sabe governar. A direta tinha de saber que ela já é o sistema, já é a espontaneidade do comportamento humano predatório que grassa em quase todo o lugar. Institucionalizada em um governo ela só pode gerar o fascismo, pois é uma overdose (o sistema já é de direita, os empresários já são de direita, a elite já é de direita, os jornais já são de direita, a justiça já é de direita).

Por isso o Brasil deu tão certo com um governo de esquerda: pelo equilíbrio.

A direta deveria ser pragmática. Para quê se responsabilizar pelo abacaxi que é fazer o gerenciamento da democracia? Isso é coisa para esquerdistas idealistas, que não ligam para o enriquecimento privado.

A direita tem de se preocupar em ganhar dinheiro, em enriquecer, em comprar deputados e senadores, não em “ser” os deputados e senadores.

Tem um erro de conceito nisso tudo.

Bolsonaro tirou a direita da sua caixinha, da sua zona de operacionalidade histórica: o submundo.

Ele levou o submundo para o governo e o resultado disso é a inviabilidade do governo.

A direita não tem projeto, não tem vocação para a gestão pública, não tem paciência para negociação política.

A direita no poder é um contrassenso. Ela já é e sempre será o poder. Até para que a democracia tenha razão de ser. Para que a existência de democracia se as pessoas já são boas e honestas?

Tudo não passa, a rigor, de um problema semântico. Aliás, estamos diante de uma imensa nova onda de crises históricas e subjetivas (e todas serão semânticas).

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A democracia existe, a rigor e retomando o raciocínio, para controlar o espírito desvairado da direita, dos acumuladores compulsivos de capital, dos herdeiros profissionais, dos sem-ideia.

Direita no governo só funciona razoavelmente bem em países que já deram um salto educacional como França, Reino Unido e EUA. No resto, é desastre certo.

E há direitas e direitas. A direita europeia não fascista tem um nível mínimo de cultura que permite um debate público quase digno.

Na alternância carinhosa de democracias adolescentes, a direita até poderia fingir que governa, como no Chile de turno. Mas tome dois mandatos seguidos de direita e a pobreza explode como uma bomba de efeito imoral.

Direita sabe criar pobreza, nisso eles são bons.

Essa lição amarga de que o poder público significa coisas tão diferentes para direita e esquerda promete fritar os nossos neurônios pela próxima década.

É uma chance e tanto para que se produza uma nova maneira de ver o mundo associada a uma nova maneira de se gerenciar esse mundo.

A política possível hoje, diante do colapso dos sentidos consagrados pela sua narrativa histórica, é a política da ressignificação. É preciso explorar os sentidos e o léxico a fim de buscar a libertação semântica dos vícios e das práticas obsoletas.

No Brasil, tem uma pessoa que tem todas as qualidades para encarar esse desafio, até porque essa pessoa praticou durante toda a sua vida justamente a ressignificação das práticas e dos gestos, alheio a rótulos e a nichos ideológicos.

Essa pessoa, neste momento, está presa. Politicamente presa.

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