A ética protestante e o espírito das milícias, por Vitor Souza

Boa parte das igrejas evangélicas fazem discurso de “defesa da família”, machista, homofóbico, de combate ao demônio, que estaria entre nós o tempo todo. Isso casa perfeitamente com o discurso “cristão” de Bolsonaro.

Edir Marcedo fala aos seus fieis

A ética protestante e o espírito das milícias, por Vitor Souza

O título acima é uma referência ao clássico das ciências sociais, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, do sociólogo alemão Max Weber, escrito em 1904, que faz uma relação entre a ética protestante desenvolvida  desde a reforma protestante do século XVI e o espírito do capitalismo, onde se aponta o culto ao trabalho como melhor forma de operar a obra de Deus na Terra, associado a uma vida ascética, como tendo ajudado a criar, “sem querer”, a lógica de acumulação capitalista.

Weber argumenta que o protestantismo liberou o homem moralmente para a busca pelo lucro, que era condenado pela Igreja Católica, tendo então, papel fundamental no desenvolvimento do capitalismo.

E o que o protestantismo tem a ver com as milícias?

Na verdade, me refiro não aos protestantes como um todo, mas principalmente aos neopentecostais, como a Igreja Universal, a Igreja Internacional da Graça de Deus, etc.

O discurso da guerra entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, o foco num Deus vingativo e justiceiro, se associa à justificativa moral das milícias, de “limpar e moralizar” a área dominada por eles.

Os paralelos entre a ética dos neopentecostais e a justificativa moral das milícias são muitos.

Nenhum poder se sustenta só pela força. Precisa produzir um discurso de legitimação. A legitimação das milícias se dá pela “pacificação” e “limpeza” do local- entendido como combater o tráfico, os criminosos comuns e eliminar ou castigar severamente quem “suja” a área. Mas para além do quesito “segurança pública”, as milícias agem “moralizando” o local. Proíbem brigas dentro dos bairros/comunidades, proíbem o uso de entorpecentes e em muitos casos agem como “polícia da moral”, proibindo manifestações homossexuais e hábitos inadequados.

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Quem é da zona oeste do Rio de Janeiro, já deve ter ouvido casos em que a milícia “deu um sacode” num garoto gay, ou agrediu casais de homossexuais.

Boa parte dessa “moralização” está associada aos valores difundidos por setores do protestantismo, particularmente os neopentecostais.

O discurso de ódio aos LGBTQIA+, feitos por Malafaia e cia, os chamando de “lixo moral”, justifica moralmente a “coça” que o miliciano dá no garoto afeminado do bairro.

O discurso de luta de Deus contra o Diabo, onde esse deve ser eliminado como fonte de todo o mal, se associa, de certo modo, ao discurso de “vagabundo tem que morrer” e se expressa na execução de um ladrão que roube uma moto no bairro.

O ladrão expressa o Diabo, o mal encarnado. E o que fazemos como o mal, o Diabo? Oferecemos a eles direitos humanos? Não! O eliminamos!

Quem não está convertido ao senhor, está no mundo, sem o “selo moral” que a Igreja oferece, está com o mal, está em pecado, mais vulnerável portanto ao justiçamento dos homens do “governo local”, exercido pelos milicianos. Sua vida, na prática, tem menos valor. O que não significa que esse discurso religioso cometeu a violência física, mas que produziu de algum modo parte de sua legitimação.

O fato de os evangélicos serem a principal sustentação do governo Bolsonaro não é aleatória. Há uma confluência de valores. Bolsonaro defende a tortura, milícias, execução de criminosos, é homofóbico, machista, etc. e se define como cristão, “cidadão de bem”, que era o nome do jornal da ku klux Klan. O discurso de “defesa da família”, se resume a machismo e homofobia clássicos, na prática.

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Boa parte das igrejas evangélicas fazem discurso de “defesa da família”, machista, homofóbico, de combate ao demônio, que estaria entre nós o tempo todo. Isso casa perfeitamente com o discurso “cristão” de Bolsonaro.

O pastor combate a “erva do capiroto”, colocada pelo demônio para destruir a família. Quem é viciado é visto como alguém imoral, criminoso. Então porque o miliciano, que é o governo local estaria errado ao dar uma “coça” no viciado? Ele seria apenas a expressão violenta do discurso moralizante já vigente naquele contexto, com um discurso de luta de Deus contra o Diabo, onde o Diabo deve ser eliminado. O miliciano representa, nesse caso, a luta contra o mal.

Na zona oeste do Rio de Janeiro, quase toda governada pelas milícias, se costuma perguntar: na sua área é “milícia ou bandido?”. O que mostra que as milícias não são vistas como máfias ou bandidos por parte importante da população, mostrando sua ainda forte legitimação.

Não estou dizendo com isso que “evangélicos” apoiam as milícias, nem que todos os evangélicos fazem esse discurso, que culmina na legitimação das milícias e do justiçamento, mas que há, a meu ver, clara associação entre o discurso moralizante desses grupos religiosos com a legitimação das milícias, como agentes moralizadores.

Sem Malafaias, Felicianos, e Edir Macedos, e seu discurso “moralizante”, Bolsonaro perderia muito apoio.

E esse discurso de defesa da tortura, execução de criminosos, machismo, homofobia, etc. não é contraditório com os ensinamentos de Jesus? E quem disse que esses grupos religiosos se baseiam de fato, em Jesus? O velho testamento e os levídicos da vida são muito mais populares que o coitado do Jesus…