No dia 10 de junho, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, subiu ao púlpito na base naval de Guantánamo, em Cuba, e anunciou que Washington está “retomando o controle do hemisfério”. A linguagem não deixou margem para dúvidas: os EUA estão transferindo para a América Latina os mesmos métodos, as mesmas redes de inteligência e a mesma força militar usados contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio.
“Estamos caçando vocês assim como caçamos a Al-Qaeda e o ISIS no Oriente Médio, com as mesmas redes e a mesma inteligência”, disse Hegseth às tropas reunidas na base. Ele invocou a Doutrina Monroe do século XIX e o que chamou de “Corolário Trump”, uma atualização do Corolário Roosevelt que trata o hemisfério ocidental como “terreno estratégico” para a segurança nacional americana.
Brasil
No Brasil, essa nova arquitetura deixou de ser abstração em 5 de junho, quando os Estados Unidos designaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como “Organizações Terroristas Estrangeiras” e “Terroristas Globais Especialmente Designados”, as mesmas categorias jurídicas aplicadas à Al-Qaeda e ao ISIS.
A medida foi adotada pelo OFAC, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro americano. Com a designação, qualquer pessoa física, banco, empresa ou instituição, dentro ou fora dos EUA, que tenha qualquer vínculo com essas organizações fica sujeita a sanções secundárias e persecução criminal. Isso significa que empresas, instituições e cidadãos brasileiros passam a ser potencialmente alcançados pelas sanções americanas mesmo operando em território nacional.
A campanha de designações não começou agora. Em fevereiro de 2025, oito organizações latino-americanas foram enquadradas na mesma categoria em um único ato, incluindo o Tren de Aragua, a MS-13, o Cartel de Sinaloa e o CJNG. Em outubro de 2025, o OFAC foi ainda mais longe e incluiu diretamente na lista de sanções o presidente colombiano Gustavo Petro, um chefe de Estado eleito em exercício.
Lula no alvo
Não é por acaso que a família Bolsonaro tenta desde 2022 vincular Lula e o PT ao PCC, uma falsidade que levou o TSE a ordenar a remoção das publicações e a multar Jair Bolsonaro. Agora, Flávio Bolsonaro reativa a mesma estratégia em escala internacional, tentando transformar a oposição política em suspeita criminal e abrir caminho para a criminalização de adversários, incluindo o próprio Lula, em ano eleitoral.
Guerra ao terror
O que Hegseth descreve não é retórica. É a transposição literal da doutrina do pós-11 de Setembro para o que o governo Trump chama de guerra contra o “extremismo violento de esquerda”. Essa nova arquitetura foi formalizada pela Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026, assinada por Trump em 6 de maio.
O documento fusionou, pela primeira vez na história americana, três categorias distintas de ameaça terrorista em uma só: “narco-terroristas e gangues transnacionais”, “terroristas islâmicos tradicionais” e, inédito, “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.
O precedente mais imediato foi a Venezuela. Em novembro de 2025, Hegseth designou o Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira e afirmou publicamente que Maduro era “o líder desse cartel”. O problema: o Cartel de los Soles não existe. O próprio Departamento de Justiça americano admitiu em tribunal que a organização não existe. A designação, no entanto, foi suficiente para abrir o caminho jurídico para a invasão do país.
Arquitetura militar
A estrutura não é apenas jurídica. Em paralelo às designações, os EUA vêm montando uma rede de bases e acordos militares na região.
No Paraguai, o Congresso aprovou em março um acordo de Status de Forças (SOFA) que permite a presença de militares e civis americanos no país com imunidade criminal equivalente à de pessoal diplomático. O presidente Lula expressou preocupação com a possibilidade de soldados americanos sendo posicionados na fronteira com o Brasil.
No Equador, os EUA inauguraram em março o primeiro escritório permanente do FBI no país, coroando uma série de acordos de segurança que incluem operações militares conjuntas lideradas pelo Comando Sul americano.
Na Argentina, o presidente Javier Milei assinou em abril o Decreto 264/2026, autorizando a entrada de tropas e equipamentos americanos para o exercício “Daga Atlántica”, realizado entre abril e junho de 2026 em bases militares argentinas, em paralelo ao deslocamento do porta-aviões nuclear USS Nimitz para o Atlântico Sul.
Desde setembro de 2025, os EUA realizaram pelo menos 44 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, em operações que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. Em março de 2026, um oficial de defesa confirmou ao Congresso americano que 47 embarcações haviam sido atacadas e ao menos 157 pessoas mortas, entre elas pescadores de Trinidad e Tobago e da Colômbia.
Dimensão tecnológica
O componente tecnológico da arquitetura chegou com Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies, empresa especializada em integração de dados, análise de inteligência e contratos governamentais. Em abril de 2026, Thiel desembarcou em Buenos Aires e foi recebido por Milei na Casa Rosada.
A Palantir fornece tecnologia a agências de segurança israelenses e, segundo relatório da relatora especial da ONU Francesca Albanese, há “bases razoáveis” para acreditar que a empresa forneceu a plataforma de inteligência artificial que alimenta os sistemas “Lavender”, “Gospel” e “Where’s Daddy?”, sistemas que geraram automaticamente listas de dezenas de milhares de alvos em Gaza.
No Brasil, a Palantir avança por meio de conexões com o apresentador Luciano Huck e o ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso.
Ruptura histórica
O que o governo Trump está construindo vai muito além do expansionismo americano tradicional. Pela primeira vez, uma estratégia oficial de contraterrorismo equipara protestos pró-palestinos ao terrorismo, trata governos eleitos como organizações criminosas e funde a repressão interna à projeção militar externa em uma doutrina coerente e documentada.
O nível de agressividade não tem precedente nas últimas quatro décadas, desde a Operação Condor, a Guerra dos Contras e os golpes no Chile, na Argentina, no Brasil e em outros países da região. Desta vez, porém, a arquitetura é jurídica, militar e tecnológica ao mesmo tempo, e está sendo construída à vista de todos.
*Com informações do Morning Star Online.
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