17 de agosto de 2026

O PNL 2050 e a logística da desigualdade, por Augusto Rocha

PNL 2050 é o instrumento de política pública que norteará a política de Estado do Brasil para a sua infraestrutura logística.
Reprodução

Foi apresentado o Plano Nacional de Logística 2050, focado em infraestrutura para 2024-2027, com sumário executivo disponível.
O plano prioriza investimentos em regiões mais desenvolvidas, ignorando a maioria dos estados do Norte do Brasil.
Único projeto relevante para o Norte é a melhoria da hidrovia do Rio Amazonas, que enfrenta críticas e oposição local.

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O PNL 2050 e a logística da desigualdade

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

              Foi apresentado na última semana o novo Plano Nacional de Logística 2050, que é o instrumento de política pública que norteará a política de Estado do Brasil para a sua infraestrutura logística. O documento total ainda não está disponível na internet. O que está acessível é um Sumário Executivo. Segundo o próprio site “é o primeiro instrumento de planejamento do ciclo 2024–2027 do Planejamento Integrado de Transportes – PIT, instituído pelo Decreto nº 12.022/2024”. Desde que tive acesso à metodologia do documento, ainda durante a sua elaboração, batizei-o como um instrumento da “tecnocracia da desigualdade”, pois a metodologia levaria a projetos apenas para as regiões mais desenvolvidas do Brasil.

              Como pontos positivos, o documento capturou muitos dos problemas de logística do sistema logístico nacional. Isso é inegável. O problema que critico começa na priorização de investimentos. No documento executivo que está disponível (https://pit.infrasa.gov.br/wp-content/uploads/2026/08/260812_Material-de-comunicacao-para-lancamento-do-PNL-2050.pdf) os Eixos de Transporte Rodoviário em prioridades de implantação até 2050 apresenta doze eixos: R001 Ligação rodoviária de São Paulo com a Região Sul, R002 Ligação rodoviária de Goiás e Minas Gerais com o Rio de Janeiro, R003 Ligação rodoviária Norte-Sul, R004 Ligação rodoviária da Bahia com a Região Sudeste, R005 Ligação rodoviária do interior ao litoral no Nordeste, R006 Ligação rodoviária de Fortaleza a Salvador, R007 Ligação rodoviária do Centro-Oeste à Região Sul, R008 Ligação rodoviária do Rio Grande do Sul aos portos, R009 Ligação rodoviária de Goiás aos portos da Bahia, R010 Ligação rodoviária entre o Maranhão e o Piauí, R011 Ligação rodoviária de Goiás, Minas Gerais e Bahia com o Espírito Santo e R012 Ligação rodoviária de Goiás e Mato Grosso do Sul com São Paulo.

              Destes todos, apenas um envolve o Norte do Brasil e se considera apenas o Pará e o Tocantins. Ou seja, o plano estratégico nacional para rodovias está desconsiderando como estratégicos todos os demais Estados do Norte do Brasil: Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá e Acre. Aqui está a evidência da Tecnocracia da desigualdade, pois cerca de 27% do país foi simplesmente ignorado. Não por acaso são Estados isolados. Seguirão isolados. Continuarão desiguais. O método, técnica e audiências levou a uma conclusão: investir nas regiões mais povoadas e ricas. O Pará só entrou na conta porque levaria a uma integração com o arco da soja e do agro do Centro-oeste. A infraestrutura reduz desigualdade se existir. Mas não é para isso que o documento olha, pois a palavra aparece apenas cinco vezes no documento, reconhecendo parcialmente o problema, mas não apresentando diagnóstico ou ação efetiva para a redução da desigualdade. Afinal, a assimetria só mudaria se as regiões isoladas fossem privilegiadas e o que documento apresenta é exatamente o oposto.

              Esperamos agora o documento final para constatar que mais uma vez a política pública nacional de infraestrutura é um dos instrumentos que agrava as desigualdades nacionais e segue a apoiar as regiões ricas a ficarem mais ricas. Provavelmente no documento final detalhado constataremos o que será a “melhoria da hidrovia do Rio Amazonas” (Id. 3019, p. 84). É o principal (e talvez único) projeto para o Norte. Esta hidrovia possui 1.646km, enquanto a bacia amazônica possui quase 7.000km. Desconfio que a obra será não fazer nada ou buscar um jeito de conceder a natureza, o que tem recebido grande oposição dos povos indígenas, dos setores produtivos e políticos regionais. O Estado segue a ignorar o Norte do Brasil, a maior bacia hidrográfica do mundo e a Amazônia. Espero estar errado ao ler o documento final, quando vier a público.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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