A farsa do hambúrguer e da volta por cima da economia, por Álvaro Miranda

Bolsonaro trabalha com o básico da fome concreta e a fome do imaginário das pessoas. Tenta convencer que a crise econômica é fruto da pandemia e da irresponsabilidade dos políticos – e não do desastre do seu governo.

A farsa do hambúrguer e da volta por cima da economia, por Álvaro Miranda

A perplexidade do empresário bolsonarista Junior Durski, dono do Madero, poderia ser a inscrição daquelas embalagens de refeição para viagem que levam ao consumidor o combo das mentiras. É o sanduíche que mistura ilusão, ganância, fakenews e outros ingredientes e temperos sórdidos do ultraliberalismo fascistóide que tomou conta do Brasil.

Quem digere esse troço, como se fosse normal a ganância de alcateias em forma de empresários (com todo o respeito aos lobos naturais) – que não estão nem aí para a vida dos brasileiros –, embalado pelas falas tresloucadas de Jair Bolsonaro, fica apaziguado com o embuste segundo o qual, uma vez flexibilizadas as medidas de isolamento, a economia voltará a funcionar.

Vitimados pela pirotecnia simbólica que joga fumaça à inépcia do desgoverno, só ingênuos sem paladar cognitivo (que não percebem a congestão do momento atual) não entenderam que Bolsonaro continua esticando a corda contra governadores e prefeitos. Não percebem que seu objetivo é ganhar pontos nas pesquisas de opinião e reforçar e/ou aumentar seus apoios de base truculenta. E também, claro, mantendo o ataque como defesa contra seu afastamento a fim de salvar os filhos dos tribunais.

Na verdade, vida que, indigestamente, segue do povo enganado. Com todo o respeito aos leitores e aos que acreditaram sinceramente e foram enganados nas eleições de 2018, eu ia falar gado, mas me contive para não fazer a terrível associação escatológica entre morte, carne e hambúrguer.

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Mesmo que a pandemia se estabilize, por diminuição da taxa de contaminação das pessoas, tão cedo a economia não voltará ao “normal”. Bolsonaro trabalha com o básico da fome concreta e a fome do imaginário das pessoas. Tenta convencer que a crise econômica é fruto da pandemia e da irresponsabilidade dos políticos – e não do desastre do seu governo.

Conforme noticiou o DCM, a loja do Madero que recebia 400 pessoas por dia agora recebe no máximo 30, informou o empresário, depois que a reabertura do comércio em Curitiba foi liberada no dia 15 de abril. Segundo Durski, mesmo com medidas de distanciamento das mesas no recinto, de 1,5 a 3 metros, além do uso de máscaras, a população ainda está com medo de sair de casa.

Não só estão com medo de sair de casa – mas as pessoas, provavelmente, tenderão a mudar seus hábitos de consumo e lazer daqui para frente. Muitos não verão mais graça alguma ficar correndo risco em aglomerações desnecessárias de ambientes fechados que oferecem serviços caros e substituíveis.

Outros devem estar descobrindo que o refúgio do lar, em família, também pode propiciar mais prazeres e criatividade, além de segurança, do que os riscos oferecidos pelas ruas de adoecer e morrer na fila de um hospital.

Outros ainda devem estar descobrindo a própria solidão produtiva para se proteger da violência e da disenteria simbólica, com acesso a diferentes plataformas do ambiente comunicacional para curtir literatura, cinema, música, teatro e outras coisas, cada um ao seu gosto e maneira. Muitos vão se perguntar se vale a pena continuar indo ao Madero para comer um hambúrguer por 40 reais.

Mais ainda, embora de maneira distante, por meio digital (virtual), o debate político se intensifica, bem como as contradições e conflitos para, dentre outras coisas, denunciar e neutralizar as chamadas “fakenews”, que, obviamente, tendem também a crescer.

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Apesar destas, parece que as notícias diárias do Jornal Nacional estão sendo mais fortes e convincentes em diversos segmentos da sociedade. Todo dia tem sido nitroglicerina pura o aumento do número de mortes pela Covid-19.

Recolhidos em casa, passamos a conhecer ou a ver com mais frequência, pela televisão e pelas redes sociais, pessoas públicas, entre educadores, cientistas, artistas e políticos que não víamos corriqueiramente – ampliando, assim, nossas possibilidades e/ou formas de fruição e uma diversidade maior de fontes de informação, lazer e cultura.

Se muitos empresários aproveitaram para demitir, como fez o dono do Madero, todos sabemos que a produção de qualquer coisa nunca prescindirá do trabalho humano. Mesmo que nos iludamos com a ideia de que as máquinas possam substituir o trabalho das pessoas, somente o ser humano pode projetar e construir máquinas. E que consumidores só existem com poder aquisitivo. Impossível pensar, óbvio, uma economia sem trabalhadores e sem consumidores.

A questão mais flagrante da falta de um projeto sólido para a economia brasileira é Bolsonaro reclamar que o isolamento afeta 38 milhões de trabalhadores informais. É a denúncia de si mesmo. Ao lado dela, a outra questão que salta aos olhos é que quem não está seguindo as recomendações de isolamento – como muitos segmentos das camadas mais pobres – vai continuar não seguindo, a não ser por medidas coercitivas.

Entretanto, só o reconhecimento da existência de um contingente gigantesco de trabalhadores informais revela, embora o governo tente esconder, que os problemas da economia são outros e bem anteriores à pandemia da Covid-19.

As duas questões sintetizam uma situação maior, terrível e mais do que indigesta: simplesmente não há projeto algum para o país, a não ser o grande hambúrguer de mentiras – aliás, incluído em currículo de candidato à carreira diplomática –, cujos ingredientes têm asteriscos em sua embalagem. Estes nos remetem aos recados arrogantes e descabidos de um ministro da economia entreguista e destruidor do estado. Estamos completamente à deriva, cada vez mais à deriva, essa é a verdade.