A letra de Chico, por Ana Laura Prates Pacheco

E o mais engraçado é que esse homem jamais saberá quantas vezes me emprestou suas palavras pra expressar o que em mim se calava, quantas vezes suas letras me embalaram, me explicaram a vida, enquadraram minha angústia

A letra de Chico

por Ana Laura Prates Pacheco

Quando Chico Buarque fez 70 anos, escrevi um texto para homenageá-lo e agradecer. Chico, com sua obra, transcende sua pessoa. Daqui a alguns dias, Chico fará 75 e merecidamente foi o vencedor do prêmio Camões, o mais importante prêmio literário em língua portuguesa. De fato, sua relação com a maternidade da letra é extraordinária e transcende seu inegável talento musical. Ou, talvez sua obra seja a prova de que a letra é a prevalência do som grávido da explosão de sentidos vindouros. Aí vai, então, minha homenagem renovada:

Já faz muito tempo que não tenho ídolos, às vezes sinto até um pouco de saudade dos tempos em que os tinha. Mas hoje, sem idolatria, parece que tenho um pouco mais de condição de perceber o valor de algumas pessoas na minha vida. Uma dessas pessoas é Francisco Buarque de Hollanda (ou Chico, para os íntimos, como eu).

Quando nasci ele tinha apenas 23 anos e era um jovem talentoso e lindo. Eu adorava ouvir suas canções desde o berço, graças a meus pais, a quem agradeço esse bom gosto musical.  Quando comecei a andar, dançava e pulava embalada por sua música, tocada na vitrola. Aos três anos, minha avó Lygia Bicalho, que também o adorava, me levou, em companhia da tia Adail Bicalho, para pedir um autógrafo do jovem Chico em sua casa no Pacaembu. Reza a lenda que fomos muito bem recebidas por sua mãe (ele não estava) e enquanto as distintas senhoras tomavam um chá, fiquei brincando com Bebel Gilberto! Infelizmente não me lembro de nada, mas tenho o disco com o autógrafo guardado. Essa foi minha primeira história com o Chico. Vieram outras, e outras, e outras, histórias para cada momento da vida.  Quando eu era pequena, achava seus olhos iguais aos do meu pai, e ainda acho.

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A trilha sonora de uma vida. As tardes de domingo escaldantes e angustiadas da infância, ao som de ‘Olé olá’ e ‘Roda Viva’. O clima da ditadura tão denso e presente na nossa casa. A saudade do meu pai, ao som do Chico. Desvendar as mensagens secretas das letras políticas. Entender a letra de ‘Cálice’.

Até o aquecimento das aulas de ballet era ao som de Chico cantando ‘Pedaço de mim’ como se fosse uma mulher. Um dia a professora percebeu que eu estava com lágrimas nos olhos. Perguntou o que havia acontecido. Não era nada, era a música, era Chico.

Outras tantas tardes adolescentes ouvindo ‘As vitrines’ até furar o disco. Entrever mensagens secretas nas letras de amor. Aprender sobre o amor com ‘Eu te amo’ e ‘Choro Bandido’. Intuir algo sobre a mulher, pela pena de um homem…  Cantar Chico, cantar e cantar suas canções, a vida inteira, sem nunca ter conseguido tocá-las no violão, pois são difíceis e elaboradas, embora pareçam simples. Depois, noites e noites assistindo aos DVDs sobre Chico. Cantando em dueto ‘Sem fantasia’ e ‘Noite dos mascarados’. Com os filhos, vê-los domando o medo com a história da ‘Chapeuzinho Amarelo’ e se deliciando com ‘Saltimbancos’, peça da qual assisti a primeira montagem, no Tuca.

E o mais engraçado é que esse homem jamais saberá quantas vezes me emprestou suas palavras pra expressar o que em mim se calava, quantas vezes suas letras me embalaram, me explicaram a vida, enquadraram minha angústia, me ajudaram a amar e me salvaram da dor, simplesmente por nomeá-la e transforma-la em canção.

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Quando minha mãe morava em Paris, em 1993, fui visitá-la e, com minha avó, fomos a um show do Chico. Alguns franceses no show me perguntavam se as letras “também eram boas”.  Aí me dei conta que eles adoravam o Chico sem entender as letras. Justo as letras. As letras que pautaram tantos e tantos momentos inesquecíveis e sem as quais minha vida seria outra.

É incomensurável o lugar de uma artista na vida de uma mulher. Será que Chico tem a dimensão disso?

Sei muito pouco da vida de Chico, do homem Chico, do pai Chico, do amigo Chico. Do pouco que sei, o respeito e admiro, acho que deve ser um grande cara. Do homem Chico, o que mais gosto é sua posição discreta na vida pessoal e contundente quando se trata de assumir uma posição política. Um cara ponta firme, inteligente, do lado certo, sempre do lado certo. Tudo isso é verdade e é realmente admirável.

Mas o que ele faz com as palavras, com as letras, e como as combina em suas próprias canções, ou com os parceiros Edu Lobo, Francis Hime, e o indescritível Tom Jobim. Fico pensando o que seria da minha vida sem suas canções, sem suas letras. E não consigo nem imaginar.

O que eu queria então, hoje, dia em que Chico faz 70 anos, e que já se passaram 43 anos daquela tarde no Pacaembu, é agradecer. Agradecer à vida pela existência desse homem, e agradecer ao Chico por se virar tão bem com essa existência e nos acompanhar tão longe e tão perto com sua arte.

Parabéns, Chico. E muito, muito obrigada por tudo!

5 comentários

  1. De onde esse “bandido” tira inspiração não sei mas conseguir cantar o Brasil no tempo presente nos ajuda a suportar as tragédias humanitárias desse país que nos fazem doer a alma. Essa obra prima que é “Caravanas” retratando a indiferença da sociedade brasileira com a questão social e a sensibilidade para tratar os relacionamentos homoafetivos perseguidos e criminalizados só um grande poeta e extraordinário ser humano poderia fazer.
    Pra mim “Sol e Lua”, sobre a perseguição ao relacionamento de duas mulheres, é a segunda música mais linda do Chico, a primeira é “Todo o Sentimento”.
    Depois da eleição do Bolsonaro e com esse baixo astral do Brasil uma das minhas filhas resolveu ir trabalhar na Suiça. Só apaziguava minha alma ouvindo “Iracema Voou” e toca chorar para aliviar a dor da separação.
    Agora mais alegrinha o bom humor do “Blues para Bia” é a música que me pego cantando distraída.
    Mas não é só a musica do Chico que se faz presente nesses dias. O CD do Gil e Caetano “Dois Amigos, um Século de Música” também cantam o Brasil com primazia e refaz nossa história desde a Tropicália. A música “As Camélias do Quilombo do Leblon” sobre a questão periferia/negros é outra obra prima comparável a música “Caravanas” do Chico.

  2. Esta é para você Ana Laura (postado no DCM),

    Convenhamos meus queridos compatriotas, PARA O CHICO ESSE GRANDE PRÊMIO É MUITO POUCO!!!
    QUASE UM ACINTE.
    Uma única estrofe de uma das tantas músicas, com todos os temas que se possa imaginar, já valeria esse prêmio.

    “Olhos no olhos, quero ver o que você faz
    Ao sentir que sem você eu passo bem demais
    E que venho até remoçando
    Me pego cantando
    Sem mais nem porquê
    E tantas águas rolaram
    Quantos homens me amaram
    Bem mais e melhor que você.”

    Que machão sensível(sic) não iria a nocaute ouvindo esses versos???
    Não tenho ídolos, sou um iconoclasta convicto, nem deus tenho desde a pré-adolescência(felizmente dado que esses ignóbeis o usam a torto para justificar, inclusive, mortes), faz parte da galeria dos PRECURSORES na natureza da evolução humana.

    A (o) GENI, o supra sumo da evolução, está aí pra provar!
    Apurem a sensibilidade e vejam/ouçam MÚSICA e letra dessa versão:
    https://www.youtube.com/watch?v=jWHH4MlyXQQ

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