A tragédia de Sófocles, por Rômulo Moreira

A família imiscui-se nas coisas do Estado que, por sua vez, e nada obstante laico, ajoelha-se diante de um Deus que, afinal, estará sempre acima de todos!

A tragédia de Sófocles

por Rômulo Moreira

No Brasil, vez por outra (ou seria toda vez?) a família imiscui-se nas coisas do Estado que, por sua vez, e nada obstante laico, ajoelha-se diante de um Deus que, afinal, estará sempre acima de todos![1] Esta promiscuidade – Estado, Família, Religião – é própria da nossa tradição histórica e marca, indelevelmente, a nossa sociedade escravocrata.[2]

Afinal, “a moderna civilização ocidental percebeu no modelo familiar vigente a melhor forma de garantir paz social, ao produzir o que acredita ser a melhor forma de reduzir as tensões da competição pela reprodução.”[3]

Mas, em definitivo, estes temas não são (e nunca serão!) de agora. Sófocles já cuidara deles, em pelo menos nas três tragédias que compõem o chamado Ciclo Tebano ou a Trilogia Tebana: Antígona, Édipo Rei e Édipo em Colono.

Aliás, conforme notou Sérgio Buarque de Holanda, “ninguém exprimiu com mais intensidade do que Sófocles, a oposição, e mesmo a incompatibilidade fundamental”, entre família e Estado.[4]

Antígona, a filha de Édipo, e irmã de Ismênia, de Polinices e de Etéocles, todos filhos e filhas do casamento incestuoso de Édipo com Jocasta, vê-se diante de um dilema que, no fundo, é da humanidade: obedecer as ordens dos homens (Estado) ou dos deuses?

Na tragédia, Jocasta, após descobrir que o seu esposo (Édipo) era também o seu filho, suicida-se, “pendurando-se numa corda ignominiosa”, enquanto Édipo, expiando-se também do incesto, deu fim à sua visão, furando os seus próprios olhos com “os colchetes de ouro que ornavam as vestes” de Jocasta, que acabara de se enforcar no leito nupcial.

Antígona foi a única filha que não abandonou o seu pai, quando Édipo se retirou de Tebas – cego e amaldiçoado por Zeus – acompanhando-o em seu exílio no monte Citéron, até a sua morte. Quando finalmente ela retorna a Tebas, após a morte de Édipo, seus dois irmãos – Polinices e Etéocles – lutavam entre si pelo trono. Ambos haviam sido execrados pelo próprio pai, Édipo, a quem tinham antes rejeitado.

Amaldiçoados, foram destinados a se matarem. Polinices, lutando para herdar o poder que havia sido do seu pai, avançou contra Tebas, ao lado dos argivos[5], contrariando e enfurecendo o seu tio Creonte, irmão de Édipo.

Deu-se, então, o embate entre ambos os irmãos, culminando em um fratricídio recíproco: “É madrugada do dia em que os irmãos de Antígona, Etéocles e Polinices, morrem lutando às portas de Tebas. Tendo fugido os argivos, atacantes da cidade, Creonte, o rei, é o grande herói do dia.”

Polinices, quase menino, acreditava em Argos e morreu por ela”, lembraria Antígona. Já o outro, Etéocles, “ainda mais jovem, lutou até o fim, defendendo do próprio irmão a última porta de Tebas.”

Trocaram golpes fatais às portas da cidade”, diria depois Ismênia a Antígona.

Então, Creonte, “como parente mais próximo dos mortos”, herda o trono, assume o poder e, em vingança, resolve sepultar Etéocles “com todas as pompas militares dedicadas ao culto dos heróis”, deixando a esmo o corpo de Polinice, abandonado exatamente no lugar onde havia sido morto pelo irmão, impedindo qualquer um de enterrá-lo, sob pena de “morte a pedradas.”

Fê-lo, propositadamente, para que o cadáver ficasse exposto à putrefação e à dilaceração, “banquete fácil dos cães e dos abutres.

Disse o rei aos anciãos e conselheiros de Tebas: “Não se conhece verdadeiramente um homem, sua alma, sentimentos e intenções, senão quando ele administra o poder e executa as leis. Mesmo depois de mortos, não devemos tratar heróis e infames de maneira idêntica. Nunca, enquanto eu for rei, Tebas dará tratamento igual ao traidor e ao justo.

Depois, ordenou que Polinices, “amigo do inimigo que nos atacava, ficasse como os que lutavam a seu lado – cara ao sol, sem sepultura, para que ninguém pudesse enterrá-lo, velar-lhe o corpo, chorar por ele, prestar-lhe enfim qualquer atenção póstuma.

Antígona, irresignada, tenta convencer Creonte a permitir que o insepulto fosse enterrado com dignidade. Do contrário, estaria o morto condenado a vagar cem anos nas margens do rio Aqueronte, que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado, como se dava para quem morresse sem as solenidades e as honras fúnebres. Um sepultamento digno era o caminho para se chegar até ao reino dos mortos.

Para Etéocles, que morreu nobremente pela pátria e pelo direito, Creonte ordenou pompas de herói, respeito total e detalhado a todos os ritos e costumes. Mas o corpo do desgraçado Polinices, o traidor, não terá sepultura”, disse Antígona à “irmã adorada”.

Quando Ismênia pergunta-lhe se teria “a audácia de enfrentar o edital de Creonte e a ira do povo”, responde-lhe Antígona: “Enterro meu irmão, que é também o teu. Farei a minha parte se tu te recusares. Poderão me matar, mas não dizer que eu o traí.”

Ismênia atemoriza-se: “Temos que lembrar, primeiro, que nascemos mulheres, não podemos competir com os homens; segundo, que somos dominados pelos que detêm a força e temos que obedecer a eles, não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes. Peço perdão aos mortos que só a terra oprime: não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida a obedecer, obedeço. Demonstrar uma revolta inútil é pura estupidez. Não me sinto com forças para desafiar o Estado. Não tenho tua coragem nem tua indignação e fico aqui tremendo de medo por ti. Embora louca, a tua ação é cheia de ternura.

Antígona responde: “Pois obedece então a teus senhores e glória a ti, irmã. Eu vou enterrar o nosso irmão. E me parece bela a possibilidade de morrer por isso. Devo respeitar mais os mortos do que os vivos, pois é com eles que vou morar mais tempo. Mas tu és livre para ficar com os vivos e desonrar os mortos. Poupa teu medo que a mim me basta o meu. Não é por não ter medo que tomo esta atitude. A minha loucura e a minha imprudência velam a honra de um morto querido. Arriscando-me por ele não corro o risco de uma morte inglória.

O seu amor fraternal, a sua coragem, o seu destemor frente ao Estado e o seu respeito às ordens divinas, levam-na a uma atitude extremada e fatal: remove do local o cadáver do seu irmão e o enterra “com as próprias unhas.”

Um dos guardas que vigiava o cadáver, amedrontado e sem fôlego, correu para dar a notícia ao rei: “O cadáver, alguém o enterrou rapidamente e desapareceu. Quando vimos, o morto estava coberto de pó e terra seca, e havia em volta outros sinais de que se tinham cumprido os ritos piedosos.” Logo depois, volta o guarda com Antígona, presa.

Confesso tudo. Não nego coisa alguma”, admitiu Antígona, ao ser interrogada por um Creonte furioso, posto desafiado em seu poder. Disse-lhe ela: “A tua lei não é a lei dos deuses; apenas o capricho ocasional de um homem. Não acredito que tua proclamação tenha tal força que possa substituir as leis não escritas dos costumes e os estatutos infalíveis dos deuses. Porque essas não são leis de hoje, nem de ontem, mas de todos os tempos: ninguém sabe quando apareceram. Não, eu não iria arriscar o castigo dos deuses para satisfazer o orgulho de um pobre rei.”

Neste momento, certamente culpada e sofrida (como se diz em psicanálise), Ismênia defende Antígona e se oferece para morrer também: “Peço que me deixes repartir contigo a tua culpa. Se te reconciliares comigo talvez nosso irmão morto me perdoe também a hesitação de antes. Sem ti, irmã, que me interessa a vida? A quem mais dedicar o meu amor? Então deixa que eu vá contigo.

Hémon, primo e noivo de Antígona, filho de Creonte, tenta salvá-la, enfrentando, ainda que com um temor reverencial, o seu pai: “Nenhum Estado pertence a um homem só. Defendo apenas a justiça. A morte dela não matará só a ela. Olha bem para o meu rosto: nunca mais teus olhos me verão. Continua, enquanto puderes, teus atos de demência – sempre haverá um lacaio que se fingirá teu amigo e dirá que ninguém tem mais bom senso do que tu. Enquanto fores rei.

O rei Creonte, como castigo, determina que Antígona seja “enviada para um lugar deserto, enterrada viva numa gruta de pedra, nas montanhas, onde não lhe chegará um som de voz humana e poderá conversar com seus mortos queridos. Receberá como alimento apenas a ração de trigo e vinho que os ritos fúnebres mandam dar aos mortos. Isso: para se manter viva terá que se alimentar com a comida dos mortos.”

            No entanto, já no sepulcro, “onde a donzela esperava a morte, emparedada viva”, Antígona suicida-se, enforcando-se “num laço feito com o próprio véu.” Antes, vaticina: “Se alguém perguntar quem foi Antígona que respondam: foi aquela que morreu pouco antes de Tebas.

Hémon, desesperado, vendo a sua amada morta, e diante de seu pai, “cospe-lhe na cara, ao mesmo tempo que num gesto feroz atirava um golpe de espada contra ele. Errando o golpe e vendo Creonte correr, apavorado, jogou todo o peso do seu corpo contra a espada, que o atravessou sinistramente, lado a lado. Moribundo, ainda abraça Antígona com os braços frouxos e nos espasmos da morte lança um jato de sangue na face pálida da morta. Morto abraçado a morto, lá ficaram”, como Romeu e Julieta ficariam também, séculos depois, noutra tragédia.

A rainha Eurídice, mulher de Creonte, mãe de Hémon, ao presenciar a morte do seu filho caçula (o primogênito, Megareu, havia sido morto em combate) também se suicidou “com golpes que desferiu no próprio peito.”

Consumada estava a tragédia de Sófocles (ou quase…). Restava o fim do rei tirano, final já predito pelo profeta Tirésias:          “Se celebram vitórias prematuras, a culpa não é minha. Só se devem usar os louros quando já estão secos. Quando vedes, seu gosto é muito amargo.

Em desespero, brada Creonte, ante a queda iminente de Tebas: “Eu já estava morto e outro golpe me mata uma segunda vez. Quantas vezes preciso purgar os erros cometidos? Quantos corpos dos que me cercam serão precisos para saciar a ira divina? O meu não basta? Não sei para onde olhar nem onde buscar apoio. Levem-me daqui. Para onde eu possa morrer exposto ao tempo, a fim de que meu corpo desonrado acalme, enfim, a ira dos deuses e aplaque a fúria do exército inimigo. Para que Tebas não morra comigo.

Creonte oferece-se ao sacrifício, mas é tarde para Tebas.

Como disse Sérgio Buarque, “Creonte encarna a noção abstrata, impessoal da Cidade em luta contra essa realidade concreta e tangível que é a família. Antígona, sepultando Polinice contra as ordenações do Estado, atrai sobre si a cólera do irmão[6], que não age em nome de sua vontade pessoal, mas da suposta vontade geral dos cidadãos, da pátria.

Assim, “o conflito entre Antígona e Creonte é de todas as épocas e preserva-se ainda em nossos dias.[7]

Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS

[1] Aliás, a nossa Constituição não se descurou, no preâmbulo, de pedir a proteção de Deus, o que não deixa de ser curioso (no mínimo), tratando-se de um documento representativo do Estado brasileiro, que se diz “uma sociedade pluralista e sem preconceitos.”

[2]No Brasil, o sistema escravocrata transformou-se num modelo tão enraizado que acabou se convertendo numa linguagem, com graves consequências, amparada pela artimanha da legalidade, espraiando-se por todo o país, numa grande bastardia jurídica, a total falta de direitos de alguns ante a imensa concentração de poderes nas mãos de outros. E, sendo assim, a escravidão foi bem mais que um sistema econômico: ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferença fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência, e criou uma sociedade condicionada pelo paternalismo e por uma hierarquia muito estrita.” (SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, pp. 27-28).

[3] BONDER, Nilton. A Alma Imoral. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998, p. 69.

[4] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 141.

[5] Soldados de Argos, antiga cidade do Peloponeso, na Grécia, que estava em guerra com Tebas.

[6] Na verdade, tanto no ciclo de tragédias de Sófocles, quanto na mitologia que lhe deu origem, Creonte é tio de Antígona, e não seu irmão.

[7] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 141.

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