Algumas luzes no fim do túnel brasileiro? Por Dora Incontri

É preciso que se quebre essa cadeia patológica de submissão servil e de abuso sádico, para que haja um processo de libertação. Dá-lhe educação que emancipe e terapia que cure.

underground rail tunnel with light show in shanghai

Algumas luzes no fim do túnel brasileiro? Por Dora Incontri

Estamos num momento extremo no Brasil, de um governo que destrói, abandona, não se responsabiliza, entrega nossos bens, escraviza… é um (des)governo que está praticando um genocídio descarado, sem disfarce. E parte da população se atira à autodestruição, mitificando ainda o carrasco, numa atitude no mínimo masoquista. Aliás, todo sistema de dominação, precisa de um dominador sádico e de um dominado masoquista, que por sua vez, pode exercer seu sadismo com outro que lhe está ao alcance.

É preciso que se quebre essa cadeia patológica de submissão servil e de abuso sádico, para que haja um processo de libertação. Dá-lhe educação que emancipe e terapia que cure.

Entretanto, temos visto alguns movimentos na sociedade que nos apontam alguma esperança: cito aqui esse brado internacional do #vidaspretasimportam (#blacklivesmatter) e um novo movimento, lançado agora nesse mês de julho, #liberteofuturo, de que qualquer pessoa pode participar, com um vídeo, um sonho, uma proposta. Ver o site: http://liberteofuturo.net

Observa-se também, como na ausência de políticas públicas decentes, justas, humanitárias, algumas comunidades estão se organizando para dar conta dos desafios da pandemia. Lemos no noticiário que uma das maiores comunidades de São Paulo, a favela de Paraisópolis, tem obtido índices muito menores de óbito, em relação à média da cidade, porque está gerindo por si mesma a crise, numa filosofia, que eu diria, anarquista – organização de base, com lideranças populares…

Assim, vemos que a força que emana do povo, seu ímpeto mais profundo por liberdade, justiça e vida, não consegue ser erradicada e vai abrindo trilhas de transformação.

Estou convencida de que mudanças sociais significativas só podem ocorrer a partir da base mais ampla da sociedade e não de um punhado de gente enquistada no poder, que por melhores intenções que possam ter (o que não é o caso de nosso desgoverno atual), sempre misturam seus próprios interesses, sua embriaguez com o poder, suas paixões pessoais e acabam por desviar do roteiro prometido, pelo qual se elegeram com o voto do povo.

Eu não acredito muito em democracia representativa – embora a prefira, claro, a uma ditadura assumida (digo assumida, porque mesmo numa democracia, há muita opressão, porque ela está inserida num sistema de capitalismo excludente, que encarcera grande parte da população e a separa através de um sistema de classes, de educação e de organização política). Acredito em povo ganhando consciência, se levantando, se organizando em projetos autônomos, sustentáveis e independentes do capital e do Estado, porque o Estado está em última instância, sempre a serviço do capital, e nos melhores casos, dá uma gorjeta mais polpuda em benefícios para o povo. No neoliberalismo vigente e protegido por esse (des)governo brasileiro, nem uma esmolinha quer se dar em políticas sociais.

É preciso que o povo desperte, se organize, faça ao mesmo tempo desobediência civil e autogestão comunitária, de modo que possa oferecer ao mundo um modelo novo de sociedade, sem Estado, sem patrão… Como espírita, não digo sem Deus, mas numa concepção de Deus que não pune, que não interfere em nossas escolhas e é amor, misericórdia e inteligência imanente. E é justamente o pressuposto de uma centelha divina em nós, que dá a garantia, ou ao menos a esperança, de que podemos caminhar adiante, para chegar a esse mundo igualitário, fraterno, cooperativo e justo.

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