10 de junho de 2026

Autoridade Soberana de um Império Decadente, por Fernando N. da Costa

Transição monetária global: o que está em disputa hoje não é apenas qual moeda prevalecerá, mas quem poderá definir o que é dinheiro.
Reprodução Unsplash

▸Dinheiro digital: autoridade soberana x criptomoedas. Debate sobre a utilidade real e estabilidade do dinheiro público vs. valor sem utilidade das criptomoedas.

▸Autoridade soberana e transição monetária global. Tensão entre dinheiro como instrumento de soberania pública e ativo privado de poder corporativo.

▸Império Trump e crise da confiança hegemônica. Conflito de interesses em defesa de stablecoins e criptomoedas desafia padrão-dólar e hegemonia mundial.

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Autoridade Soberana de um Império Decadente

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por Fernando Nogueira da Costa

O futuro do dinheiro digital é considerado público porque sua utilidade real e estabilidade derivam da autoridade soberana. Ela conferiria ao dinheiro o seu poder de liquidação e aceitação.  Em contrapartida, as criptomoedas seriam rejeitadas como o futuro porque representariam valor sem utilidade.

Porém, contra esses argumentos, quando a autoridade soberana representada por Donald Trump perde credibilidade com seu conflito de interesses em defesa de stablecoins e criptomoedas, favorável ao maior enriquecimento familiar, qual futuro pode se esperar em termos de manutenção do padrão-dólar ou de hegemonia mundial de moeda digital privada?

Essa questão se refere ao núcleo político da transição monetária global: a tensão entre dinheiro como instrumento de soberania pública e dinheiro como ativo privado de poder corporativo. O que está em disputa hoje não é apenas qual moeda prevalecerá, mas quem poderá definir o que é dinheiro.

É possível destrinchar a questão em quatro planos interligados: histórico, estrutural, geopolítico e prospectivo.

A autoridade soberana como fundamento da moeda é uma dedução histórica, ou seja, de dados do passado. Desde o século XIX, com o colapso dos padrões metálicos, o valor do dinheiro passou a depender não do ouro, mas da autoridade política capaz de garantir sua aceitação.

O Estado-nação moderno institui o dinheiro como monopólio da violência legítima e da confiança coletiva: a moeda é aceita porque paga impostos, e liquida dívidas sob proteção jurídica. No caso, “o dinheiro é uma criatura do Estado”, como afirmaram Knapp, Keynes e Lerner.

Assim, sua estabilidade é uma forma de ordem política. Seja o papel-moeda, seja a CBDC, ambos representariam a continuidade dessa soberania no meio digital.

Diante do nascimento do “dinheiro-mercadoria informacional”, acusa-se o “bode-expiatório” contumaz”: a financeirização. Ela teria deslocado o poder de emissão de moeda digital: privada para os mercados e pública para os Bancos Centrais independentes, transformando a confiança pública em credibilidade de investidores.

O passo seguinte, com as criptomoedas e stablecoins, foi mais radical. A emissão monetária torna-se privada, garantida por ativos com colaterais ou algoritmos, não por lei soberana.

As stablecoins (como USDT, USDC ou projetos como a antiga Libra/Diem do Facebook) são a forma corporativa do padrão-dólar: prometem estabilidade ao ancorar-se em dólares, mas estão fora da jurisdição direta do Estado americano, e operam como “bancos-sombra” globais, com liquidez em tempo real e sem regulação efetiva.

“Banco sombra” (ou shadow banking) refere-se a um conjunto de instituições e atividades financeiras com operações paralelas ao sistema bancário tradicional, oferecendo serviços similares como crédito e investimento, mas sem o mesmo nível de regulação. Exemplos incluem fundos de hedge, empresas de private equity, fintechs, bancos digitais, securitizadoras etc. Embora seja legal, o sistema paralelo opera com menos supervisão e isso aumenta o risco.

O “Império Trump” estabeleceu uma crise da confiança hegemônica. Sob uma eventual doutrina trumpista de política monetária digital, o paradoxo é agudo: o poder soberano americano legitima o dólar e o Tesouro como base da hegemonia; mas o próprio líder político enfraquece essa soberania ao favorecer moedas privadas capazes de desafiarem o monopólio estatal de emissão.

Essa ambiguidade mina o restante do padrão-dólar fiduciário, cuja força dependia da credibilidade institucional dos EUA — a confiança no sistema político, jurídico e militar capaz de sustentar seus títulos de dívida. Se essa confiança se desfaz — seja por conflito de interesses, seja por caos político interno — o dólar permanece dominante por inércia, mas perde a aura de neutralidade.

A hegemonia passa a depender não apenas de poder econômico, mas de infraestrutura tecnológica e controle de dados.

Sendo assim, os cenários futuros expõem a fragmentação da soberania monetária. O mais provável não é um novo padrão único (como o ouro ou o dólar), mas uma multipolaridade monetária digital, articulada em três blocos de poder:

BlocoMoeda /
Tecnologia
Princípio de ConfiançaLógica de Poder
China e
aliados
RMB Digital
(e-CNY)
Estado centralizado e vigilância totalSoberania tecnológica e controle social
EUA e corporações ocidentaisStablecoins e criptoativos dolarizadosRedes privadas e poder de plataformaFinanceirização algorítmica e captura de dados
Europa e
países periféricos
CBDCs reguladas (ex: euro digital, real digital)Autoridade pública e estabilidade macroBusca por soberania monetária e tributária

Nesse contexto, o futuro do dinheiro se fragmenta entre:

  1. dinheiro público digital, garantido por soberanias nacionais (CBDCs);
  2. dinheiro corporativo, garantido por poder de plataforma (stablecoins, DeFi);
  3. dinheiro comunitário ou alternativo, em redes locais, cooperativas ou criptoéticas.

A erosão da autoridade soberana americana — acelerada por um líder eleito capaz de transformar a moeda em instrumento pessoal de poder — abre o flanco final da hegemonia do dólar. O emergente não é um novo império monetário, mas um campo de forças híbrido, no qual a confiança política (Estado), a confiança técnica (algoritmo) e a confiança corporativa (plataforma) competem para definir o valor e a legitimidade do dinheiro.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. AMBAR

    12 de novembro de 2025 10:41 am

    Para o bem da sociedade a legitimidade do dinheiro deverá se fundar na força do estado centralizado, com vigilância total e garantia de soberanias nacionais. Europa , EUA e corporações hão de sucumbir á realidade.

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