Bacurau: breve guia de leituras, por Arkx

numa conjuntura brasileira onde sofremos golpes e mais golpes, seguidas vezes e por todos os lados, inclusive daqueles supostamente aliados, "Bacurau" é uma exceção.

Bacurau: breve guia de leituras, por Arkx

de como a supressão do contraditório esterilizou a capacidade de análise crítica. diga sua leitura e “Bacurau” responderá quem você é.

o ponto central de “Bacurau” tem foco claro e delineado:

– sob ataque para riscar a cidade do mapa e exterminar completamente sua população, o povo se organiza e pega em armas, para se defender.

ainda assim, a quase totalidade das abordagens sobre o filme está fora deste enfoque.

plano de vôo sobre “Bacurau”:

a tomada inicial da análise deve ser um primeiro plano, fechado no foco do filme.

em seguida, a imagem se abre até uma grande panorâmica abrangendo tanto os diversos aspectos do filme quanto as possibilidades vistas a partir dele.

um movimento de zoom para uma grande angular, sempre extremamente fiel ao que se analisa, sem inserir à fórceps qualquer elemento alheio, seja de linguagem ou narrativa.

a violência não é uma escolha:

em “Bacurau” a violência é uma imposição das circunstâncias. o recurso às armas é a única alternativa frente à morte certa.

a médica ainda oferece uma última tentativa de conciliação, recusada com a derrubada da mesa pelo AngloNazi líder da equipe de exterminadores.

vai ao chão a esperança de que guisado e suco de cajú combinados com música ambiental Made in USA comporiam a receita para selar uma pax salvadora.

naquele joguinho necrófilo não há qualquer fase incorporando algum banquete antropofágico. todas as missões restringem-se a cenas explícitas de canibalismo zumbi.

a civilização é a barbárie:

a única celebração à barbárie em “Bacurau” é a de uma civilização nascida da pulsão de morte, na qual o êxtase só se alcança pelo aniquilamento.

o tesão para a trepada vem do viagra da matança.

um reality game para os atiradores em massa extravazarem impunemente seu desejo de matar, sem consequências legais ou de consciência.

se “gentileza gera gentileza”, por sua vez “violência gera violência”?

a caça acabaria se equiparando aos caçadores, numa vitória às avessas destes, em consequência da inversão de papéis sob um mesmo script?

mas sem manejar as armas, a presa é um alvo fácil. fácil até demais, como uma criança assustada no escuro, levantando mesmo dúvidas sobre sua validade na contagem de pontos.

num cenário como o do filme, só mesmo “gente lesa” pode supor que sem uma violenta autodefesa haveria qualquer chance para os bacuraus.

não há qualquer paraíso perdido:

o filme não caracteriza o vilarejo de “Bacurau” como um idílico Shangrilá. ao contrário, abundam conflitos e contradições.

desde a médica embebedada dando piti no velório da matriarca, aos mocinhos-bandidos Lunga e Pacote, passando pela relação ambígua com a política neo-coronelista e a referência ao êxodo dos moradores.

“Bacurau” não é um paraíso oculto nalguma vereda do inóspito sertão. as pessoas vivem como podem. e ao serem colocadas na situação limite de sobrevivência, se viram para continuarem vivas.

o Lulismo e o imperialismo não estão em cena:

o filme não é uma evocação nostálgica dos tempos dourados do Lulismo: o sonho impossível de retorno ao paraíso perdido da conciliação de classes.

não há nenhuma harmonia social anterior, quebrada pela invasão alienígena dos matadores em causa do lazer próprio.

muito menos pacto entre classes sociais, estas nem sequer caracterizadas no enredo.

tampouco “Bacurau” é uma alegoria do Brasil, muito embora seja uma cidadezinha interiorana como inúmeras outras perdidas pelo mapa brasileiro adentro.

o vôo dos bacuraus seria prenhe de anti-imperialismo, mas abortivo da luta de classes?

nem uma coisa, nem outra.

embora sejam estrangeiros norte-americanos, nada no filme os define como imperialistas numa investida de conquista, pilhagem e exploração econômica.

o filme não se pretende como um mix de “O Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade” com “Der Leone Have Sept Cabeças”, passando longe do transe das alegorias de Glauber Rocha para se aproximar da temática distópica de um “Black Mirror” tropicalizado.

a violência dos bacuraus não é “revolucionária”:

os bacuraus não pegam em armas para fazer a revolução. o uso da violência no filme se limita a necessidade de autodefesa, frente a uma situação concreta de um genocídio em andamento.

e muito menos os bandidos-mocinhos, Pacote e Lunga, formam alguma vanguarda armada popular.

com estes a relação dos moradores vai de muita distância a um tanto de reprovação, mas nunca a ponto de rechaçar uma aliança e muito menos denunciá-los à polícia.

uma catarse não emancipadora:

não de resistência passiva, mas de protagonismo na luta.

certamente este é o motivo principal não somente de leituras antagônicas sobre o filme, como até mesmo da dificuldade de manter uma abordagem extremamente fiel ao exibido na tela.

o vôo do “Bacurau” é percebido como de um objeto não-identificado, dissonante do roteiro e fora de cena.

a narrativa e a prática dominante na luta contra o Golpe de 2016 tem se dado exclusivamente no plano eleitoral e institucional, enquanto no âmago de “Bacurau” há uma situação extrema exigindo resposta extrema.

qualquer fuga conduz a uma emboscada fatal, como a do casal de moradores tentando se evadir no meio da noite escura.

se vivemos o decorrer de derrotas contínuas, em “Bacurau” o povo unido ousou lutar, ousou vencer.

embora para nosotros a identificação se faça inevitável, a catarse não é aconselhável.

mesmo o filme sendo um instrumento de luta, por ensejar reflexão e debate, nenhum de nossos problemas concretos tem solução no âmbito ficcional.

encerrada a sessão, acesas as luzes, precisamos sair novamente às ruas. pois é nelas que nossa luta continua.

para todos nós, nunca houve opção: precisamos nos fazer personagens de nossa própria História.

ou não sobreviveremos.

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