Bolsonaro tem noção
por Ricardo Cappelli
Analistas políticos passaram os últimos dias dizendo que Bolsonaro é “louco”, “inepto”, um “sem noção”. Será? Vamos analisar os fatos com frieza.
Rodrigo Maia convida Bolsonaro para um almoço com Toffoli e Alcolumbre. O presidente aceita o convite, mas leva com ele 14 ministros.
É uma prática manjada em Brasília. Quando você não quer conversar, mas não quer ser deselegante, você enche a sala de pessoas. Se o principal projeto é a reforma da previdência, faz sentido implodir uma reunião com os comandantes do processo?
Vamos seguir os sinais. Moro fica irritado com a decisão de Maia de adiar a análise de seu pacote anticrime. Faz cobranças. O presidente da Câmara reage chamando o ex-juiz de “funcionário de Bolsonaro” e desqualificando o “copia e cola” do ministro da Justiça.
O que faz Moro? Solta uma nota e dobra o ataque ao Congresso: ”Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não agüenta mais.” Carlos Bolsonaro sai na defesa do ex-juiz e ataca Maia nas redes.
Nos EUA, o “guru” Olavo de Carvalho chama Mourão – que vinha sinalizando moderação e entendimento – de idiota. Bolsonaro leva Olavo e Bannon para reuniões na terra do Tio Sam.
Temer é preso. Segundo Bolsonaro, “acordos políticos feitos em nome da governabilidade” levaram Michel e Moreira para o xilindró.
A prisão do ex-presidente é acompanhada de uma ofensiva nas redes contra o STF. Ela foi uma evidente reação – novamente arbitrária e ilegal – da Lava Jato às suas derrotas recentes na Suprema Corte. A República de Curitiba resolveu mostrar quem manda.
Acompanhando Bolsonaro no exterior, Felipe Martins, assessor da presidência da República, é claro e direto. Defende nas redes a união da ala “anti-establishment” do governo, a mobilização popular, a “quebra da velha política” e a Lava Jato.
Surgem sinais preocupantes na caserna. Circula a informação que o ministro da Defesa, tido como moderado, resolveu condecorar o “Torquemada” Deltan Dallagnol.
A proposta de reforma da previdência dos militares é uma peça de ficção. A economia de 1 bilhão por ano é irrisória. A proposta é acompanhada de uma reorganização das carreiras, privilegiando os mais graduados. Descuido? Trapalhada?
O mercado fica apavorado com a briga de rua entre Bolsonaro e Rodrigo Maia. O “Botafogo” foi chamado de namoradinha de beicinho pelo Capitão. A crise escala. Demonizaram a política e desestabilizaram a democracia. Esperavam o quê?
O Capitão vota no Congresso? Os generais votam? O MPF vota? De quem é o dever constitucional de aprovar leis? O executivo encaminha a proposta, mas quem vota?
A derrota na previdência e o caos financeiro podem ser o “pretexto final”. Bolsonaro já disse que não gostaria de fazer a reforma. Os militares são contra. As corporações da Lava jato, elite do funcionalismo público, idem.
Que tal o desemprego subindo, a miséria aumentando e a culpa do caos ser dos políticos que só pensam nos seus próprios interesses e de ministros do STF que “vivem de soltar corruptos”?
A aliança entre a turma Olavo-Bannon, militares e Lava Jato está emparedando o STF e o Congresso. Rodrigo Maia parece iludido. Ainda não percebeu que ele e seus amigos do Centrão são os inimigos, os próximos na fila do Dr. Bretas.
Se a reforma não passar, a aliança entre o mercado e os grandes grupos de mídia vai tentar derrubar Bolsonaro. O Capitão vai reagir. Pode até cair descartado como excesso indesejável, mas nenhum país resiste a tanta instabilidade.
Ficando ou caindo, diante do caos, as condições para um fechamento democrático estarão dadas.
Quem empurrou o Brasil para esta situação talvez não tivesse noção do que fazia. Bolsonaro está sendo coerente. Tem noção do que faz. Veio para destruir um sistema político definido como “velho e podre” por Merval Pereira e sua trupe..
A gravidade do momento exige que liberais e socialistas, democratas e ativistas de todas as matizes sentem e conversem. A democracia está derretendo no Brasil.
Anônimo
25 de março de 2019 8:34 amNão sei se ainda existem “liberais” para a gente conversar com eles.
Mas tirando isso, o artigo está corretíssimo. Bolsonaro não é um idiota. É um fascista. Para quem não é fascista, a “lógica” interna do fascismo parece simplesmente loucura. Mas, louca ou não louca, ela funciona. E uma das peças fundamentais do seu funcionamento é o fato de todos os outros agentes políticos – conservadores, liberais, socialistas, social-democratas, comunistas – terem muita dificuldade de entender esse funcionamento, e, exatamente, tenderem a reduzi-lo à loucura, ou à estupidez – ou “falta de noção”.
Tembém Hitler era um “palhaço”. Também Mussolini era um “palhaço”. A questão fundamental é: o “mercado”, ou seja, o capital, agora exige, com urgência, a transformação do caixa da previdência em capital. Essa imensidade de dinheiro circulando como simples fundo de consumo é inaceitável para o capital, para o qual todo dinheiro deve gerar mais dinheiro. Por outro lado, não há maneira de fazer essa transformação com o beneplácito da maioria da população, a qual percebe perfeitamente (ou imperfeitamente, o que, para efeitos práticos, dá no mesmo). A democracia, assim, se transformou num óbice para o capital. Ela precisa ser removida. O capitão é um instrumento para isso. A “ala sensata” do seu governo, também. E, pior, a briga entre as duas alas é o instrumento central para a destruição da democracia. Estamos sendo convidados a apoiar uma ditadura militar para impedir a vitória do fascismo; estamos sendo convidados a apoiar o fascismo a fim de impedir uma ditadura militar. Para nós, é um jogo de perde-perde.
Lucinei
25 de março de 2019 8:36 amMais um… Esse é o roteiro da lava jato, da globo e do mercado desde a segunda página, ir derrubando quem entra na frente, um por um, o PT, PT, PT, associados, e quem mais vier. Os tais “liberais” e conservadores se comprometeram com o golpismo desde o inicio do plano, só a “esquerda textao” nao viu, e fica sonhando com “acordo pela democracia…”
Fechar o Congresso já está “precificado” pra essa turma. Entendam de uma vez por todas, sao “liberais” que jamais moveram uma palha pra eefender os DHs, nao têm o menor escrúpulo de abusar do poder e partir pro autoritarismo pra impor a agenda propria.
Marcos Videira
25 de março de 2019 11:40 amO bando da República de Curitiba é aliada de Bolsonaro. Estes dois grupos estão neste momento agindo em conjunto para assumir o controle do Supremo Tribunal Federal. Por isso, os parlamentares da extrema-direita estão pedindo o impeachment de Gilmar Mendes. Falta apenas um ministro para o controle do Supremo.
Gilmar Mendes é hoje o mais feroz adversário da República de Curitiba. Precisa ser defendido por todos os democratas ou o fascismo assumirá o controle dos três poderes.
André Lameira
25 de março de 2019 2:47 pmA pergunta maliciosa do começo do artigo – “será Bolsonaro um idiota?” – pode ser tratada com o estabelecimento do seguinte: um idiota não é necessariamente inofensivo. Bolsonaro, como sua biografia prova, é uma pessoa incapaz de construir qualquer coisa que seja, seja um projeto de política pública, uma ideia, um consenso, uma base parlamentar. Sua essência é a idiotice histriônica, a boçalidade típica dos histéricos de extrema direita.
Portanto, Bolsonaro é um idiota, mas causa um imenso estrago. Alguém que chega ao poder e faz de tudo para ser derrubado em 6 meses não é exatamente o que eu chamaria de um “estrategista político”. Bolsonaro acha que pode anular todos os opositores com intimidação, exposição no Twitter, subversão institucional. Esquecem os assustados analistas que o povo brasileiro empobrece diariamente, ao contrário do que alguns pensam, tem cultura própria, e não está interessado em um Reich tropical em troca de mais miséria. Só os mais fanáticos direitistas apoiam o nonsense neofascista até as últimas consequências.
É sempre bom lembrar que o povo brasileiro elegeu Lula duas vezes seguidas, o aprovou em 80%, e elegeu Dilma em 2010 e em 2014! Isto é, o povo brasileiro não é boçal, e não apoia Bolsonaro. A eleição desse sujeito não foi democrática, sendo fruto de uma grotesca manobra eleitoral.
Bolsonaro, por isso mesmo, não dá as cartas. Ele é um improviso da burguesia brasileira, um improviso que deu errado. Entre Bolsonaro desestabilizar toda a institucionalidade burguesa e provocar uma reação popular fulminante, e ser derrubado, fatalmente isto é que acontecerá. Eu inclusive aposto que neste momento a burguesia brasileira está quebrando a cabeça para desenvolver uma estratégia para derrubar Bolsonaro sem explodir de vez o país. Talvez o parlamentarismo… Talvez um impeachment… Talvez matá-lo… Não sei. Só sei que a crise só vai se agravar, independentemente da solução.
Em um país onde juízes não respeitam as leis e a constituição; onde qualquer reivindicação popular é tratada com bala e porrada; onde jornalistas são perseguidos, processados e censurados; onde o favorito é impedido de concorrer eleições; onde uma presidente eleita legitimamente é derrubada por gente que homenageia a tortura; enfim, em um país governado por Bolsonaro, olavetes, lavajateiros e militares, onde é que alguns conseguem ver democracia? Todo dia alguém escreve que a democracia está em crise, que a democracia corre perigo. Eu, pasmo, me pergunto: que democracia?
Mateus
27 de março de 2019 12:21 pmQuem me dera acabasse essa palhaçada de democracia mesmo, já se passaram mais de 30 anos e nada de dar frutos, talvez até funcione em outros países mas o povo aqui é muito burro e supersticioso. Nós estamos regredindo cada vez mais, voltando a ser o monte de selvagens que éramos antes da chegada dos Portugueses e da Igreja. Não acho o Bolsonaro um bom chefe de estado, mas pessoas como ele Lula e Dilma são o que se pode esperar da democracia em uma nação como essa. Se ele se instaurar como ditador porém, as dinâmicas do país podem mudar bastante e quem sabe ai não teríamos algum governo que preste. Não que eu ache que isso vá acontecer tão cedo mas sonhar não custa nada.