Brasil: terra da prosperidade sem esforço, de títulos honoríficos e de riquezas fáceis, por Michel Aires de Souza Dias

O que explicaria hoje o fato de um candidato chegar à presidência sem nenhum plano de governo, sem nenhum debate e extremamente racista e misógino, se não o culto da personalidade tão comum à nossa política.

Divulgação PR

Brasil: terra da prosperidade sem esforço, de títulos honoríficos e de riquezas fáceis.

por Michel Aires de Souza Dias[i]

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda já havia diagnosticado que o Brasil  é a terra onde reina a anarquia e a desordem.  Os privilégios, os desmandos, o desrespeito à lei,  a falta de coesão social, a falta da capacidade de organização, a falta de compromissos,  a ausência de ordem e comando são  típicos da nossa terra: “Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade e a indolência displicente das instituições e costumes” (HOLANDA, 1995, p. 33). A frouxidão dos poderes estabelecidos e a hierarquia do status quo sempre geraram vantagens e benesses para uma minoria abastada.  Na verdade, “o próprio princípio de hierarquia nunca chegou a importar de modo cabal entre nós. Toda a hierarquia funda-se necessariamente em privilégios”  (HOLANDA, 1995, p. 35). O que os privilegiados de nossa terra  anseiam e buscam com paixão é a prosperidade sem custo, os títulos honoríficos e as riquezas fáceis. A vontade de mandar de alguns e a disposição para obedecer de muitos são partes de nossa mentalidade.  O excessivo gosto pela autoridade, pela centralização do poder e pelo imperativo categórico da obediência cega estão incrustradas em nossa alma, são partes dos nossos costumes. Para Sérgio Buarque (1995, p. 39),  as ditaduras parecem constituir formas tão típicas de nosso caráter como a inclinação à anarquia e à desordem.

Raízes do Brasil foi publicado em 1936, mas o prognóstico sobre nossa herança histórica pode ser confirmada em nossa atualidade. Tal como ontem, ainda hoje somos a terra do desmando, da falta de coesão social, da anarquia e da bagunça generalizada. O preconceito de raça, o despotismo do homem branco privilegiado, a defesa dos interesses agrários,  o personalismo como prestígio pessoal, o discurso do mérito,  a frouxidão das instituições, a falta de organização social, a retórica liberal e a realidade social marcada por contrastes são  partes da nossa cultura,  são características intrínsecas da nossa estrutura social e política. Todos esses aspectos fazem do Brasil uma nação que permanece na velha dicotomia entre civilização e  barbárie .  

O que explicaria hoje o fato de um candidato chegar à presidência sem nenhum  plano de governo, sem nenhum debate e extremamente  racista e misógino, se não o culto da personalidade tão comum à nossa política.  A nossa formação espiritual, que valoriza a cultura da personalidade, o talento e o mérito, é parte de nossa herança rural portuguesa. Como aponta o crítico literário Antônio Cândido: “A grande importância dos grupos rurais dominantes, encastelados na autarquia econômica e na autarquia familiar, manifesta-se no plano mental  pela supervalorização do ‘talento’, das atividades intelectuais que não se ligam ao trabalho material e parecem brotar de uma qualidade inata, como seria a fidalguia” (CANDIDO, 1995, p. 15).

O que os poderosos de nossa terra mais têm aversão é pelo trabalho árduo, por isso que aqui a escravidão floresceu tão naturalmente.  O que eles mais gostam é de se comportarem como senhores. A religião do trabalho nunca foi uma característica de nossos colonizadores ibéricos. Como avalia o Sérgio Buarque,  “uma digna ociosidade  sempre pareceu  mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor” (HOLANDA, 1995, p. 38). Essa mentalidade provinciana foi herdade por nossos políticos e magistrados. Eles  sempre se comportaram como senhores de engenho, avessos ao sofrimento dos trabalhadores, mas com grande paixão pela boa vida, pelos títulos honoríficos e pela ânsia de mandar.     

Ainda hoje os valores patriarcais da vida rural são preponderante na política.  As famílias poderosas de hoje se propagam nas instituições e cargos públicos tal como no passado colonial. O poder passa de pai para filho, como se os altos cargos na política fossem vitalícios. O público sempre se tornou o âmbito privilegiado do privado em nossa terra. No Brasil colônia eram os fazendeiros escravocratas  e filhos de fazendeiros, educados nas profissões liberais, que monopolizavam o poder, elegendo-se ou fazendo eleger seus candidatos. Hoje, são empresários do agronegócio e os grandes empresários urbanos e seus  filhos que se elegem, dominando os parlamentos, os ministérios e todas as posições de comando: “A família patriarcal fornece, assim, o grande modelo por onde se hão de calcar, na vida política as relações entre governantes e governados” (HOLANDA, 1995, p. 85).

A ânsia de prosperidade sem esforço, a obtenção de riquezas sem trabalho, a ocupação de cargos sem capacidade técnica é parte de nossa herança colonial. O que explica que filhas de militares recebam pensões vultosas e vitalícias sem nunca terem trabalhado na vida? O que explica que militares do alto escalão recebam salários três vezes maiores do que o teto constitucional do serviço público (39, 3 mil)? O que explica que um militar desqualificado ocupe o mais alto cargo no Ministério da Saúde e que se torne responsável pela vida de milhões de pessoas? O que  explica que um racista presida  uma fundação responsável por preservar a memória, a cultura e os valores da população negra? O que explica que um Ministro do Meio Ambiente  defenda a queimada da Amazonia e a exploração econômica do meio ambiente?  O que explica que um presidente permaneça no cargo mesmo com provas contundentes de corrupção? É a nossa herança cultural que explica essas incongruências, essa irracionalidade, essa desordem  e anarquia. Esse despotismo das classes dominantes sempre foi parte de nossa história, surgiu do pátrio poder que era ilimitado e com poucos freios para sua tirania.     

Hoje, o comportamento da nossa classe média conservadora, inculta, que votou em Bolsonaro, com sua conduta machista, misógina, com uma personalidade extremamente autoritária, é herdeiro desse Brasil colonial: “Estereotipada   por longos anos de vida rural, a mentalidade da Casa Grande invadiu assim as cidades e conquistou todas as profissões, sem exclusão das mais humildes” (HOLANDA, 1995, p. 87). É por isso que é bem típico hoje o “cidadão de bem” esbravejar: “Você sabe com quem está falando”.   

Referências

CANDIDO, Antônio.  O significado de “Raízes do Brasil”. In: Holanda, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 9 – 21.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


[i] Doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo. [email protected]

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