Candidatura de Doria é uma aventura desesperada, por André Singer

Vestido de gari, prefeito de São Paulo, João Doria, tira selfie em seu primeiro dia útil de trabalho (Foto Rivaldo Gomes/Folhapress)

Jornal GGN – André Singer, em sua coluna de hoje na Folha, mostra o desespero dos partidos tradicionais, em rota de colisão com o trator da Lava Jato, soltando todo tipo de “ideias bizarras, sonhos pueris e ambições midiáticas”. Com a certeza de que Doria precisa de um projeto municipal antes de se arvorar a postular o cargo de presidente do país, e precisa de mais ainda depois da instabilidade deflagrada com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Leia o artigo a seguir.

da Folha

Candidatura de Doria é uma aventura desesperada

por André Singer

ascensão de João Doria no PSDB é sinal do desespero que tomou conta dos partidos tradicionais. Diante da aniquilação que a Lava Jato vem produzindo, surge todo tipo de ideias bizarras, sonhos pueris e ambições midiáticas. A destruição partidária pode levar o Brasil a cronificar a instabilidade deflagrada com o impeachment de Dilma Rousseff.

Ao atual prefeito de São Paulo falta o componente essencial para postular o cargo. Não se trata de experiência na administração pública -afinal Fernando Henrique Cardoso e Lula também prescindiam de currículo na área quando assumiram o posto mais importante do país. Doria carece é de um projeto nacional que esteja ancorado em bases sociais consistentes.

Poder-se-ia argumentar que tanto FHC quanto a principal figura petista traíram a própria trajetória ao assumir o Planalto. Com efeito, Fernando Henrique ignorou o discurso ético do PSDB e aliou-se ao que havia de mais fisiológico no Congresso. Lula, por sua vez, arquivou a postura anticapitalista do PT e estabeleceu fortes vínculos com o capital.

No entanto, ambos o fizeram em nome de realizar mudanças —em sentido respectivamente oposto— que tinham relação com o acúmulo anterior dos seus partidos. Cardoso alinhou a nação brasileira à globalização neoliberal, obtendo em troca a estabilidade monetária. Lula estabeleceu marco inédito nos investimentos voltados aos mais pobres, reforçando ao mesmo tempo a confiança na democracia.

As opções tomadas foram difíceis e tiveram altos custos, sem que o espaço me permita detalhá-los aqui. Basta dizer que no interior das duas agremiações majoritárias houve choro e ranger de dentes. No final, contudo, a maioria sustentou as lideranças presidenciais, criando as condições para efetivar os programas por eles traçados.

FHC e Lula tinham legitimidade por resultarem de um lento enraizamento durante a luta contra a ditadura. Surgidos para a política representativa entre os anos 1970 e 1980, o professor renomado e o sindicalista carismático haviam contribuído para a construção de instituições desde a sociedade. Perto deles, Doria soa apenas como um empresário “pop star” que flutua nas telas.

É verdade que PSDB e PT encontram-se numa tremenda encalacrada, assim como tudo o que foi construído desde a redemocratização. Tendo se envolvido, ao que parece, no sistema corrupto de financiamento político vigente a partir de 1945, os irmãos-adversários podem acabar ambos tragados pela Lava Jato. Mas se buscarem atalhos em lugar de uma renovação profunda, aí, sim, a porta será aberta para aventuras que nunca terminam bem.

Os exemplos de Jânio Quadros e Fernando Collor estão aí para nos lembrar.

Assine

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora