Com o egoísmo das elites, para onde vamos?, por Dora Incontri

É preciso também que os oprimidos se mobilizem, se oponham, se organizem, atuem de maneira a incomodar os palácios, as mansões e os privilegiados.

Com o egoísmo das elites, para onde vamos?, por Dora Incontri

Kardec aponta que o egoísmo e o orgulho são as maiores chagas humanas. Elas vão de fato na contramão da recomendação de Jesus de amar ao próximo como a si mesmo. Egoísmo é individualismo, falta de empatia, insensibilidade, falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. O orgulho está relacionado ao narcisismo, à egolatria, ao desejo de se sobrepujar aos outros e competir, destruindo e arrasando, para brilhar sozinho.

Hoje, às vezes, usamos termos diferentes para traduzir a mesma coisa do que seria dito em tradições espirituais como a espírita, a cristã ou a budista.

Isso tudo me vem à mente, porque estamos mergulhados nesse caos social, de achatamento do poder econômico da maioria da população, de empobrecimento coletivo, do avanço dos quadros da fome em nosso país (apesar da negação patológica desse (des)governo), do desamparo para o qual caminham doentes, crianças, idosos e todos os que apresentam qualquer vulnerabilidade social… e há tanta gente que conheço, que simplesmente não vê, não se importa, não se preocupa com esse cenário trágico.

Começo então a observar que as pessoas que estão no topo da pirâmide estão enquistadas em sua zona de conforto, contentes com seus carros de luxo, com suas férias internacionais, com serviçais à sua volta (geralmente afrodescendentes), com os filhos em escolas caras. E simplesmente não têm olhos para a miséria, para a fome, para o desmonte do SUS (que era deficitário, mas sem ele, será um extermínio em massa), para o fim da escola pública (que era de má qualidade, mas sem ela, serão mais crianças na rua ou no trabalho escravo)…

Muitas dessas pessoas, conhecemos em nossas relações pessoais, são pessoas “legais”, são católicas, espíritas, evangélicas, judaicas ou ateias. Não são pessoas declaradamente do mal. Podem mesmo fazer uma obra de caridade, dar um agasalho, amparar um ou outro empregado, até engajar-se num trabalho voluntário.

Mas não têm sensibilidade diante da injustiça social, diante da desigualdade, da falta de oportunidade da maioria, da violência que o sistema impõe e que um Estado de bem-estar social amenizava, mas agora não terá mais limites, quando suspensos os benefícios que havia.

O que se passa na cabeça e no coração dessas pessoas, que foram as que elegeram esse (des)governo e que em sua maioria ainda o apoiam?

É justamente essa a chaga interna que Kardec aponta, que está nelas ainda profunda: o egoísmo. Egoísmo pessoal, egoísmo de família (para meus filhos, tudo, para os filhos dos outros, migalhas), egoísmo de classe (eu e pessoas do mesmo nível que eu merecem estar onde estão).

As justificativas para calar a voz da consciência são as mais variadas: a meritocracia, por exemplo. Os outros não se esforçam por isso estão lá, são desorganizados, desmiolados, não gostam de trabalhar. Justificativa fraca, cruel, porque os outros não receberam educação, não tiveram as mesmas oportunidades ou, então, mesmo com educação e oportunidade, são pessoas que não se submetem às leis do mercado, são criativas, livres ou trabalham para mudar o mundo e não apenas para se enriquecer. Para se enriquecer, tudo vale; mas há um contingente de pessoas que trocam enriquecimento por idealismo. Essas são também objeto de desprezo por parte dos chamados bem-sucedidos.

Outra justificativa – essa, infelizmente, pretensamente espírita: a lei do carma. Pobres, miseráveis, famintos são reencarnação de ricos, reis e rainhas, que usaram mal seu dinheiro e seu poder. Já de cara, numericamente, esse argumentozinho fere a lógica. Nunca houve no mundo um número tão grande de ricos e poderosos que pudessem hoje todos estar reencarnados como miseráveis, na África, na Índia ou no Brasil.

No próprio Livro dos Espíritos, de Kardec, está escrito que “numa sociedade organizada segundo as leis do Cristo, ninguém morrerá de fome”. Ou seja, como obviamente qualquer pessoa de bom senso e boa vontade concordará, a nossa organização social é injusta, desigual e desumana.

Para um marxista, um maoísta, um anarquista do início do século XX, a solução seria simplesmente promover uma revolução armada e eliminar essa elite insensível, redistribuir a renda e fundar uma sociedade socialista.

Isso foi tentado e apesar do rio de sangue derramado e de se terem eliminado aquelas elites específicas da Rússia ou da China, ali mesmo outras elites surgiram, privilegiadas, poderosas, insensíveis e escravocratas.

Então, o caminho da eliminação não leva a uma sociedade melhor. Kardec reconhecia que as revoluções são processos históricos necessários, mas isso não significa que chegamos lá onde queremos, na base do morticínio.

A questão é mesmo como tocar os seres humanos, para que tenham maior sensibilidade com a dor do outro, para que se compadeçam, para que se indignem com a injustiça, para que não suportem ver irmãos em humanidade sendo massacrados, morrendo à míngua, em desamparo? Como promover esse salto evolutivo humano?

Esperar apenas que isso se dê naturalmente não condiz com quem já tem essa consciência e sofre com o sofrimento de milhões de outros. É preciso apontar, educar, criticar, militar, conscientizar e, na medida do possível, fazer com que todos vejam e sintam e se identifiquem com a agonia dos que estão à míngua, com a vergonha das crianças famintas, com a tragédia do mundo em colapso, enquanto alguns poucos se locupletam em dinheiro especulado.

É preciso também que os oprimidos se mobilizem, se oponham, se organizem, atuem de maneira a incomodar os palácios, as mansões e os privilegiados.

Aqui mesmo no jornal GGN, faz uma semana, saiu uma matéria sobre a possibilidade de uma nova democracia, cujas características têm muito do anarquismo, com suas ideias de cooperativismo, associação livre e descentralização do poder. Precisamos todos nos mobilizar nesse sentido, porque estamos a caminho acelerado para um mundo arrasado, de miseráveis, com uma pequena elite endinheirada, brincando de fazer dinheiro na bolsa.

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