
no Sensorion
por Shellah Avellar
“A última certeza do homem não deriva daquilo que ele percebe empiricamente, nem daquilo que concebe intelectualmente, mas sim daquilo que ele vive intimamente.” Henri Bergson
Neste sábado último tive a felicidade de experimentar emoções desencontradas, mas, igualmente intensas.
Assisti à peça “O menino que perdeu a Lua” , dramaturgia e direção de Luiz Fernando Petuxo ,da Cia Dom Caixote e posteriormente ao filme “O Quarto de Jack”, baseado no livro O Quarto, de autoria da escritora irlandesa Emma Donoghue , que angariou o Bafta,Globo de Ouro e Oscar 2015 de melhor atriz para Brie Larson.
Que poderes mágicos a criança não atribui ao espaço sideral?
Cada criança guarda em si , por si só, um Ícaro ?
E ,Voar com um(a) companheiro(a) de aventuras ,
pode ser o resgate do “paraíso perdido ?”
Rafa e “sua” janela
Pela janela de seu quarto, um menino ,Rafa (Vitor faria) ,se deslumbra pelos encantos da Lua,e, ao se apaixonar por ela,decide conquistar o universo.Cria situações inusitadas e instigantes ,com seu amigo imaginário e seu pretenso atrapalhado anjo da guarda .Volta ao passado para redimir a mãe que se fechou pela ausência do pai.E a saudade misturada ao afeto perdido e os medos ressurgentes, bem como os desafios que entravam a jornada, dão lugar a uma montagem bem humorada ,leve e delicada.
Característica aliás, desta Companhia de Teatro tão criativa e intimista,e sempre surpreendente.O talento indiscutível dos atores e a perspicácia dosmixes de luz e som, bem como a destreza das traquitanas orquestradas com efeitos especiais sob a batuta de Petuxo,resulta num shake moderno e atrativo para as crianças propriamente ditas e para “aquela que ainda habita” em todos nós.
Jack e “sua” clarabóia
Enquanto Jack,( Jacob Tremblay) prisioneiro,desde o seu nascimento até seus 5 anos de idade, num quarto de (5 x2)m2 ,tem ,através de uma pequena clarabóia , sua única referência de universo .
Referência enriquecida pelas histórias contadas por sua mãe(também prisioneira,há 7 anos ,sequestrada aos 17 e engravidada pelo seu carcereiro).
E bordada pelo seu próprio imaginário,dando vida a objetos,móveis e situações de seu claustrofóbico entorno.
A tentativa da fuga ,articulada pela mãe no auge de seu desespero,e sendo bem-sucedida, traz ,no entanto,à baila,os resquícios indeléveis e sequelas dolorosas da violência “silenciosa “sofrida por ambos.
A redescoberta da vida e dos amplos espaços ,não podem e não devem ser imediatos.Há pois uma clara necessidade de readaptação ao mundo real e isto é bem vívido, no exercício de amor e paciência, em que todos são forçados a colaborar.
A grande sacada da narrativa ser discorrida pelo olhar do menino, com seu vocabulário próprio,nos transporta confortávelmente pelas fofas nuvens que amaciam os golpes das tragédias urbanas.
Não há protagonismo nesta história baseada em fatos reais,que nos obriga, através das brilhantes e impecáveis atuações de Brie Larson e Jacob Tremblay,a uma imersão profunda nos pântanos da natureza humana e de sua apoteótica capacidade de sobrevivência.
Frestas de luz
Tanto a peça “O Menino que perdeu a Lua “bem como o filme “O quarto de Jack”, me pegaram num dia especialmente “poroso”,daqueles em que você “se sente como quem partiu ou morreu”, e “exausta” pelos repetecos da nossa “caquética “história universal.
E a arte , mais uma vez, vem nos salvar de nós mesmos, provocando reflexões e despertando vulcões que julgávamos extintos.
Estas revoluções movidas pela reconquista da esperança no “nosso humano” e na “nossa sociabilidade”.
Os dois espetáculos,se alimentam desta força insurrecional.
Somente os artistas fisgam a redenção da virtude do obscuro naufrágio.
E,para isto ,é preciso se desnudar de si mesmo e se reinventar para enfrentar desafios ,que num primeiro momento,nos parecem aterradores.
A delicadeza e o sonho permeiam as duas obras de arte,e nos levam lá longe ,além das estrelas, onde é possível ,torná-los reais.
Portanto,corram,enquanto é tempo para se permitir viajar em boa companhia.Este entretanto não é o melhor,nem maior espetáculo da Cia que vive se reinventando.A Companhia Dom Caixote ,tem uma trajetória de formiguinha, silenciosa ,laboriosa e vencedora e acumula prêmios desde 2009 até hoje, com presença marcante em festivais estaduais ,nacionais internacionais.
www.ciadomcaixote.com.br
E , pela idade dos atores Brie Larson(27) e Jacob Tremblay (9 anos), certamente novos desafios ainda os devastarão e nos farão tremer. Entretanto estes papéis os imortalizaram em nossos corações, como referência para nos fortalecer nos dias chuvosos e aparentemente sem luzes no final do túnel.
https://www.youtube.com/watch?v=IeM5qJp2v8Y
Gênero: Drama
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Elenco: Amanda Brugel, Brie Larson, Cas Anvar, Jack Fulton, Jacob Tremblay, Jee-Yun Lee, Joan Allen, Joe Pingue, Justin Mader, Kate Drummond, Matt Gordon, Ola Sturik, Randal Edwards, Rodrigo Fernandez-Stoll, Rory O’Shea, Sandy McMaster, Sean Bridgers, Tom McCamus, Wendy Crewson, William H. Macy, Zarrin Darnell-Martin
Produção: David Gross, Ed Guiney
Fotografia: Danny Cohen
Montador: Nathan Nugent
O Menino que Perdeu a Lua
50 minutos, Livre.
Local: Espaço Experimental Cia Dom Caixote (Oeste)
Elenco/Direção: Direção: Luiz F Petuxo. Com: Daniel San Martin, Guilherme Nasraui Paulinho Rocco, Sabrina Caldini, Vitor Faria
Data: até 3 de Abril; Sábados e domingos, às 16h Avenida Pompeia, 1055 (Perdizes)




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