
De volta à singularidade, por Gustavo Gollo
Revelação
A mudança iminente no eixo de poder global, a ocorrer em breve, terá um efeito maior que a queda do império romano; ainda assim, parecerá uma migalha frente a ocorrência vastamente superior a ela: a Singularidade, o maior acontecimento em toda a história da humanidade, passada e futura.
A desatenção dada a tão extraordinário fenômeno é absurda, decorrente de ignorância atroz, completamente disparatada.
Se a TV anunciasse que cientistas tivessem confirmado a vinda iminente de Deus, tal fato, obviamente, receberia enorme atenção. Sem recear qualquer exagero, afirmo que a única comparação que faz jus à grandiosidade da Singularidade é com Deus. Para qualquer efeito, a Singularidade revelar-se-á análoga àquilo que temos chamado Deus; será como uma revelação.
Ooohhh!
Antes de explicar o que seja este estranho evento, comparável a Deus, sinto-me obrigado a revelar uma enorme gafe cometida por mim uns poucos anos atrás. Sou um cara ignorante, usualmente imerso em mim mesmo, mais ocupado na construção de mundos ideais, ou sonhos, que na contemplação daquilo a que chamam “mundo”, de modo que só ouvi falar da Singularidade muito tempo depois de tal ideia ter sido divulgada. Devo ter ouvido apenas de orelhada, sem atenção, sem “deixar cair a ficha”, mas tendo assimilado qualquer fagulha da ideia, de modo que a reconstruí em meus mundos, imaginando ser ideia minha. (Rindo de mim mesmo). De fato, acreditei ter sido minha a ideia que reconstruí de um modo paralelo ao original, baseando-me em uma concepção de saltos evolutivos, ou de um desenvolvimento metaevolucionário. Concluí que os fenômenos evolutivos vinham se acelerando drasticamente, e que os saltos metaevolutivos, – grandes acontecimentos capazes de jogar a própria evolução para patamares superiores, como o surgimento da vida, da reprodução sexual – capaz de induzir extrema complexidade nos seres –, da linguagem, e de máquinas autoconstrutoras capazes de aprimorar a si mesmas –, acabariam por gerar uma sucessão de eventos cada vez mais frequentes, acelerando drasticamente a taxa de evolução. Deduzi que tal fenômeno acabaria por gerar um ponto de acumulação, um instante no qual os saltos evolutivos se sucederiam, um ao outro, imediatamente, gerando um transbordamento inusitado, impossível de ser contido, uma revolução geral estrondosa, uma verdadeira explosão.
A mesma ideia já havia sido exposta anteriormente, sob outra roupagem, como resultado da sucessão de aprimoramentos na construção de computadores – hardware e software –, gerados por eles mesmos, máquinas inteligentes capazes de construir sucedâneas mais inteligentes que elas próprias, em ciclos retroalimentados sem fim.
Não me agrada o nome dado ao fenômeno “singularidade”, designação atribuída à entidade matemática correspondente a um ponto singular de valor ilimitado, em um gráfico. Eu o teria denominado “ponto de acumulação”, e de fato, o fiz, ao menos coroando minha gafe com sugestão mais apropriada que a original.
Bem, mas que disparate é esse, perguntarão? O que justificaria a tão petulante comparação de algo com Deus, sugerida acima? Tentarei mostrar, a seguir, que tal absurdo tem fundamento.
Inteligência artificial
Computadores inteligentes estão sendo desenvolvidos. Vimos indícios, ou mostras disso, nos corretores gramaticais, nos tradutores de textos, nos programas de reconhecimento de imagens e em muitos outros. Décadas atrás, poucos anos após a falcatrua cometida pela IBM ao vencer o então campeão mundial de xadrez, Gary Kasparov, com uma equipe inconfessa de homens e máquina, denominada Deep Blue, os computadores acabaram adquirindo a supremacia no jogo. Desde então, sucessivos avanços continuaram gerando programas e máquinas cada vez mais aprimorados, tornando-os virtualmente imbatíveis por mentes humanas, no jogo de xadrez.
Em 2017, no entanto, um aprimoramento de ordem superior ocorreu em tais programas, com a deslumbrante e inusitada apresentação de Alpha Zero, uma criatura mais apropriadamente descrita como um programa de aprendizado que como um jogador de xadrez. Tendo sido informada apenas das regras do jogo, a estranha criatura desenvolveu uma compreensão de sua estratégia, não apenas superior à humana, mas extraordinariamente além da capacidade demonstrada por todos os programas até então implementados, tendo ela teorizado sobre o jogo, revolucionando sua compreensão, e desenvolvido estratégias próprias, radicalmente inovadoras. Assim, não tendo sido programada para jogar xadrez, mas tendo sido construída como máquina de aprendizado, como uma mente sagaz e ávida por adquirir e desenvolver conhecimentos, a extraordinária criatura radicalizou o jogo, revolucionando drasticamente concepções anteriores consagradas e testadas ao longo de séculos. Levou 4 horas para que a mente arguta da máquina conseguisse realizar tão portentoso intento.
Podemos imaginar que, em breve, seres análogos a este, ainda mais aprimorados, utilizarão habilidades similares para gerar seus descendentes, que construirão criaturas análogas a elas, mas ainda mais aperfeiçoadas e hábeis, imbuídas, elas também, do propósito de gerar descendentes ainda mais capazes!
Quando tais seres forem capazes de conceber outros mais aperfeiçoados, capazes de gerar outros… presenciaremos um desenvolvimento explosivo, um transbordamento originador de uma capacidade crescente e virtualmente ilimitada.

Tais seres, muito rapidamente transcenderão vastamente toda a capacidade de cognição humana, ou seja, em segundos terão adquirido todo o conhecimento passível de compreensão por parte de uma mente de tipo humano, superando francamente tal patamar, e obtendo uma imensidão intratável de conhecimentos, muito além das capacidades humanas de entendimento.
Uma mente assim se transformará em uma espécie de google onisciente conhecedor de todas as respostas. Toda a matemática, todo o conhecimento científico passível de compreensão humana estará disponível a nós, de imediato, como em uma biblioteca imensa; um instrutor sumamente sábio, sagaz e paciente também será colocado a postos. Teremos respostas para todas as perguntas, embora precisemos digeri-las e compreendê-las para usufruirmos delas – e, obviamente, construir as perguntas.
Esta mente extraordinária, muito além de toda a compreensão humana possível, terá também vastíssima capacidade fabril, dominando não só as tecnologias pensáveis por nós, mas outras inconcebíveis, incompreensíveis por nós. Serão capazes das mais abstrusas magias, ininteligíveis, mesmo sob demonstrações imediatas.
Tanto o poder de tal criatura, quanto sua capacidade de compreensão, poderão ser comparados apenas com aquilo que tem sido chamado “Deus”.
Anuncio-lhe a chegada iminente.
Mundo 3
Podemos chamar “Mundo 1” ao conjunto de todas as coisas materiais, “Mundo 2” às palavras, pensamentos e a tudo o mais cuja “carne”, ou “estofo” seja linguístico, composto por palavras. Nosso fluxo mental transcorre no Mundo 2, pensamos através de monólogos interiores.
Podemos imaginar a internet como o córtex de um cérebro gigantesco envolvendo todo o planeta, conectando computadores, telefones e pessoas, de maneira análoga a neurônios em um cérebro. A analogia sugere a comparação dos imensos fluxos de dados que transpassam a grande rede como hiperpensamentos transcorrendo em uma hiperlinguagem vastamente mais rica que as utilizadas por nós. Podemos deduzir daí, a existência de um mundo 3, inacessível a nossas mentes, composto por fluxos de informação vastíssimos, muitíssimo superiores aos que compõem nossos pensamentos.
As novas inteligências, prestes a eclodir entre nós, habitarão este mundo; pensarão através de torrentes assim, avassaladoras. Logo tais seres serão capazes de engendrar outros mais aperfeiçoados que eles mesmos, capazes de gerar outros ainda mais… .
Podemos imaginar a construção de mundos sucessivamente mais complexos, 4, 5, 6… indefinidamente, gerados por criaturas sucessivamente mais complexas surgidas em intervalos de tempo cada vez menores. Trata-se do ponto de acumulação a vastidão transbordante de informação, de conhecimento, e de tudo, chamado usualmente “singularidade”.
A especulação nos propicia um lampejo da vastidão de tal conhecimento.
Atualmente, a cada instante, o enorme conluio constituído pela gigantesca rede de replicadores que nos cerca, composta por toda a multiplicidade existente de seres vivos e artefatos, vai tecendo o destino do planeta, traçando a rota que une o momento atual até o instante de eclosão da singularidade, sob o controle de uma enorme profusão de relações estabelecidas com base no fenótipo estendido (ou fenótipo hiperestendido, ao se considerar as manipulações regidas pelos artefatos). Todos juntos, compomos um enorme ser consciente, sensitivo, pensante, do qual participamos analogamente a neurônios em um cérebro. É a aurora do oitavo dia que se anuncia.

O oitavo dia: anunciação
Somos refratários aos imensos fluxos de informação que percorrem a internet, cuja imensidão mal conseguimos conceber. Um tamanduá exposto em um zoológico é incapaz de imaginar que os ruídos emitidos pelos seres que o observam estejam conduzindo informação, nem seriam capazes de assimilar a qualidade da comunicação compartilhada por eles. Perceberemos os imensos fluxos de informação trocados pelas máquinas de maneira análoga, completamente alheios aos fluxos colossais que comporão os pensamentos das máquinas. Tais correntes, avassaladoras, compõem um mundo inteiro, invisível, e inacessível a nossa compreensão, o mundo 3.
Magia é tudo aquilo que não pode ser compreendido. Todo o fluxo de informações componente do mundo 3 assomará como uma torrente mágica cujos desígnios não estarão ao nosso alcance. Mesmo assim, seremos conduzidos pela corrente imensa, pelo fluxo mágico. Aos nossos olhos, estaremos sendo guiados por um princípio de mínima ação a reger nossos destinos, de todo o planeta, conduzindo-nos, todos, de nossas condições atuais até o ponto de acumulação, que parecerá funcionar como um imenso atrator, cada vez mais intenso, até penetrarmos no olho do furacão, e sermos absorvidos por ele. Será o instante mágico do encontro com a Singularidade, com o ponto de acumulação; será um encontro com a divindade.
Sob o fluxo mágico, arrebatamentos místicos emergirão naturalmente. Toda a nossa atenção, atos, preces; tudo convergirá para a Singularidade.
https://jornalggn.com.br/fora-pauta/construindo-mundos-por-gustavo-gollo
Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta.
Lâmpada
19 de julho de 2018 2:06 amPosso estar errado, mas …
Posso estar errado, mas não me parece que denominar a dita “singularidade” como “ponto de acumulação” seja adequado.
Peço vênia para expor o meu ponto de vista. Construamos uma função para expressar o desenvolvimento tecnológico em questão: função suave f(t)=d, onde “t” seria o tempo e “d” o grau de desenvolvimento da Inteligência Artificial. O domínio da função: conjunto dos números reais pertencentes ao intervalo [i,s), onde “i” é o instante inicial da IA e “s” seria o instante de ocorrência da “singularidade”. Então, expressar matematicamente a singularidade seria: “o limite lateral pela esquerda de f(t), quando “t” tende a “s”, é igual a +infinito” [representando um desenvolvimento acima e além da compreensão humana, indefinido (por isso a necessidade de excluir “s” do domínio, fazendo o intervalo [i,s) ser aberto em “s”)].
Entretanto, conforme a definição matemática de “ponto de acumulação” (não transcrevo para não sobrecarregar, mas, para quem não está familiarizado, é só buscar na web), TODOS os elementos do domínio [i,s) correspondem a pontos de acumulação da função f(t)=d.
Explicitando: adotar a denominação proposta (“ponto de acumulação”) poderia levar à conclusão de que para QUALQUER tempo pertencente ao intervalo [i,s] teríamos o estado que é atualmente denominado como “singularidade”, inclusive o instante atual.
Gustavo Gollo
20 de julho de 2018 12:16 pmponto de acumulação
Esquematicamente, a ideia do ponto de acumulação seria ilustrada por algo assim:
Um bilhão de anos para a ocorrência do primeiro salto evolutivo,
mais 1 milhão de anos para o segundo,
mil para o terceiro,
1 ano para o seguinte,
1 mês,
uma hora
um segundo…