Desespero, como separar as sílabas e aprender a desenvolver em tempos de treva, por Mariana Nassif

Antes de discorrer sobre a palavra e o desespero, sensação, vale anotar que o que acontece ali fora mesmo que não seja tao ali fora assim pode não se alterar

Banksy

Desespero, como separar as sílabas e aprender a desenvolver em tempos de treva

por Mariana Nassif

Existe um movimento geral de retirada, recolhimento. Algo parecido com quando a gente se sente ameaçado e, por questão de sobrevivência, se encolhe, naturalmente, pra ter contato com aquilo que está próximo, e quase tão somente com isso – o que está realmente próximo.

Esse desgoverno nacional, a vergonha perante o externo, a reflexão necessária frente às decisões irreversíveis de destruição e desrespeito à natureza – não está sendo fácil sustentar elevação ou esperança, mas uma das características mais impressionantes deste universo todo é a resiliência.

Ontem de noite, enquanto transcrevia esse texto (normalmente escrevo num caderno, onde esteja, e digito depois, por aqui, editando e contornando emoções) pensava de alguma forma em como é que a gente consegue ter forças e energia, ainda que em reclusão e, acho eu, inclusive por conta dela, pra recomeçar. Cansa mesmo, mas é inevitável. De repente ainda tem um tempo pra esperar, mesmo que atônito com o que acontece ali fora, afinal nem é tão ali fora assim, não é verdade?, talvez ali fora nem sequer exista – os ambientalistas não cansam de falar sobre isso – mas enfim, o fato é que tenho achado que o que existe mesmo é uma inabilidade, uma falta de educação mesmo, em lidar com este tipo de cenário. Um governo imbecil, uma pessoa imbecil, um trabalho imbecil. Parece que, status quo, a insatisfação com o que está acontecendo provoca um incômodo tão grande e a única coisa que aprendemos perante este momento é que ele acabe. Quase que desesperadamente, a gente quer que pare.

Duas noticias: 1- não vai parar e 2-atenção na semântica: des-esperar.

Ah, que encantadora a língua portuguesa, deus do céu.

Antes de discorrer sobre a palavra e o desespero, sensação, vale anotar que o que acontece ali fora mesmo que não seja tao ali fora assim pode não se alterar; pode se alterar independente da sua interferência; pode nem perceber que você mudou tanto por aquele contexto… pode muito, pode tudo, pode tanto que quem sabe a melhor escolha seja a de se manter curioso frente ao que pode ser sem pré-determinar. Isso é enorme, eu sei, a gente vem de contextos de dor, de silêncio, sofrimento e além de tudo não é educado no sentido de informado, experimentado, pra lidar com aquilo que desagrada, mesmo que a vida esteja cheia disso.

Já o desespero, ah, o desespero. Não consigo mais escrever a palavra sem separar as sílabas e escutar, atenta, o espero que tem ali. Quase como um pedido, e acho que é daí que pode brotar resiliência, a tal da força e energia pra começar de novo e o entendimento de que provavelmente nem seja recomeçar, mas sim dar continuidade a um plano que, apesar de ser seu, você desconhece e quase que só pode se comprometer a encarar (de diversas formas, naturalmente).

Daí recebo, hoje de manhã, o e-mail da Natália Roberto, d’O Curso das Emoções, falando sobre resiliência na floresta, contando um pouco sobre a experiência vivida numa aldeia, e celebro o tal do inconsciente coletivo falando sobre recuperação, transformação e amor, independente do contexto externo, aprendizado fundamental pra enorme parte dos momentos, mas especialmente em tempos de confusão.

Vale cada minuto investido em aprender, reaprender, se disponibilizar. Não é mesmo possível que a gente não seja tão fluído quanto o que vive ali fora, e essa sensação separatista clama por atenção: talvez não estejamos tão separados assim, afinal de contas, mesmo quando reclusos, introspectos e sem esperança. Aproveitemos, então, para estudar, que seja por revolta, enquanto espera: como diz o Carlinhos, da Orquestra Mundana Refugi, “eles odeiam livros”. Assim, resistindo enquanto complacemos metonimicamente, a vida tem chances de seguir mais leve.

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