Dimensões e Votos da Casta dos Sábios no Brasil, por Fernando Nogueira da Costa

Dimensões e Votos da Casta dos Sábios no Brasil

por Fernando Nogueira da Costa

A hipótese levantada no capítulo 14 do livro (clique para download de resumo traduzido) Thomas Piketty e outros. Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais (“Clivages Politique et Social Inequalities”, editado por Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, Seuil; abril de 2021) é o Brasil ser um caso à parte, politicamente, se comparado aos Estados Unidos e à Europa. Nestes países ocidentais, o voto na esquerda por eleitores brancos nativistas de faixas de renda e riqueza mais baixas teria emigrado e por eleitores cosmopolitas, graduados em Ensino Superior, teria imigrado.

Em contraste com outras democracias ocidentais, segundo os coautores Amory Gethin & Marc Morgan, o conflito político no Brasil seguiria ainda um caminho baseado em classes sociais. O PT teria se transformado de partido da elite jovem urbana, de alta escolaridade e alta renda do sudeste-sul do país, em partido de eleitores pobres e com menor escolaridade da região mais subdesenvolvida do país, isto é, do Nordeste. Isso teria culminado no voto predominante das elites e grandes partes da classe média moradora no antipetismo, ou seja, na calamidade eleita na eleição presidencial de 2018.

Para uma hipótese ser testada e defendida como tese com método científico, ela tem de passar por questionamentos com fatos e dados empíricos contrapostos. Hipótese é a suposição de algo possível (ou não) de ser verosímil, caso seja possível de ser verificado. A partir da comprovação (ou não) se extrai uma conclusão.

Ciência é medição. Então, um primeiro passo é dimensionar a estratificação social por castas e párias no Brasil segundo os distintos fatores sócio demográficos.

A PNADC, encontrada no SIBRA-IBGE, sobre Nível de Instrução, em 2019, informa das 136 milhões pessoas com 25 anos ou mais de idade, pouco mais da metade (51%) ou 69,5 milhões não tinham o Ensino Médio completo. Com ele completo, mas com o Ensino Superior incompleto, eram 42,7 milhões (31%). A “elite educacional” seria constituída por 23,6 milhões graduados em Ensino Superior (17%).

Esses dados dessa faixa de idade se diferenciam das estatísticas de pesquisas eleitorais, utilizadas pelos coautores franceses. Suas amostras seriam de 26% com diploma primário (fundamental), 50% com secundário (médio) e 24% com terciário (superior).

Talvez essa desavença seja porque o eleitorado brasileiro, em 2018, era composto por 147 milhões eleitores, mas 22 milhões (14,8%) tinham menos de 25 anos. Ainda com Ensino Superior incompleto, poderiam ser considerados potenciais eleitores do PT.

Para lembrar, Fernando Haddad, candidato do PT e membro da casta dos sábios-intelectuais (professores universitários no caso), obteve 31,3 milhões de votos ou 29,3% do total. Ciro Gomes, candidato do PDT e membro da casta dos oligarcas-governantes (ex-ministro e ex-governador), recebeu 13,3 milhões de votos ou 12,5% do total. Somando com Marina (1 milhão ou 1%) e Boulos (617 milhões ou 0,6%), essa centro-esquerda (43,4%) ainda não teria votos suficientes para superar o candidato da direita (49,3 milhões ou 46%), apoiado depois por PSDB (4,8%), Novo (2,5%), MDB (1,2%), etc.

No segundo turno, 57,8 milhões votos dessa direita (55%) foram para o candidato da casta dos militares e 47 milhões votos (45%) daquela esquerda para o candidato da casta dos sábios-intelectuais. Válidos foram 90% do total de 116 milhões eleitores e abstenções 31,3 milhões (21%).

No Nordeste estavam 39 milhões eleitores ou 27% do total. Exceto no Ceará (por causa do apoio maior ao Ciro Gomes), em todos os demais Estados do Nordeste (e mais Pará) o candidato do PT foi vencedor no primeiro turno da eleição de 2018.

A análise política e socioeconômica da escolha dos diversos eleitores brasileiros exige a análise de uma complexidade emergente de interações entre múltiplos componentes.

Antes de tudo, salienta-se a intervenção judicial no processo eleitoral em perseguição política ao candidato mais popular. Pesquisa Ibope-CNI, divulgada no dia 28/06/2018, com índices de intenção de voto para o primeiro turno da eleição presidencial de 2018, apresentava o seguinte cenário: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha 33%; Jair Bolsonaro (PSL), 15%; Marina Silva (Rede), 7%; Ciro Gomes (PDT), 4%. Compare-a com o resultado do primeiro turno, três meses após, e veja o efeito da prisão do Lula.

Sem dúvida, o fator popularidade pessoal é decisivo em uma democracia de massa. Mas o esnobismo ou o regionalismo nativista do Sul do Brasil leva o Lula a ser menos popular lá, onde a subcasta dos sábios de toga o julgou e aprisionou com uma rapidez inédita. Pior, a casta dos fardados e a subcasta dos sabidos-pastores, seja pela violência dos milicianos, seja pelo acolhimento dos desesperados, arrebanharam um curral eleitoral também na periferia do Rio de Janeiro – e talvez em outras metrópoles do Sudeste.

De 2002 a 2018, o número de alunos na Educação Superior, inclusive Educação à Distância (EaD), passa de 3,5 para 8,5 milhões. Dividem-se regionalmente em 44,4% no Sudeste, 21,3% no Nordeste, 16,9% no Sul, 9,2% no Centro-Oeste e 8,2% no Norte. Estudam em unidades privadas 6,4 milhões (75,4%) e em públicas 2 milhões (24,6%). Mais da metade (58,6%) fazem o curso noturno. A baixa qualidade do ensino e a pouca dedicação aos estudos impactam fortemente a opção ideológica?

Vale registrar (e comparar) os cursos com maior número de matrículas: Engenharia tem 1,073 milhão matriculados presencial e 97 mil em EaD com 13,8% do total; Administração 600 mil em presencial e 525 mil em EaD com 13,3% do total; Direito 863 mil em presencial e 129 em EaD com 10,2%. Só esses três representam 37,3% dos estudantes e 38,7% dos concluintes. Somando mais nove cursos (Pedagogia, Contabilidade, Comunicação, TI, Educação Física, Enfermagem, Psicologia, Biologia e Letras) somam mais 30% concluintes, ou seja, atingem 68,7%.

Entre os 3,445 milhões de ingressantes em 2018, 40% foram em EaD, portanto, 60% ou 2 milhões de estudantes presenciais têm maior chance de fazer Movimento Estudantil. Pouco mais da metade (52,9%) das matrículas estão, de fato, nas Universidades. Só 4,5 milhões são propriamente “universitários” com vivência na politização dos campus.

Em 2018, 79,5% (1 milhão) foram concluintes em Instituições de Ensino Superior privadas e só 20,5% (259 mil) em Universidades públicas. Em Rede Pública, 64,3% dos docentes têm Doutorado contra 25,9% dos professores em Rede Privada. Mais de 70% dos docentes nas Universidades têm o regime de contrato de trabalho em tempo integral, número superior aos dos Centros Universitários (28,2%) e Faculdades (22,0%);

A mobilidade social dos mais pobres estudantes de escolas públicas e as políticas afirmativas compensatórias dos descendentes de escravos com direito às cotas nas Universidades públicas, as melhores do país, afrontou o antigo privilégio da elite brasileira ter acesso quase garantido nos vestibulares para os cursos de excelência. Parte dela passou a arcar com o ensino pago e de pior qualidade. Seus filhos sem muita aptidão para estudar perderam o status social das castas de natureza ocupacional.

Por exemplo, ela paga mensalidades como R$ 4.920 na FGV ou R$ 4.990 no INSPER. Isto sem falar nos valores das mensalidades dos cursos de Medicina entre R$ 7.000 e R$ 12.000. Pagar de R$ 60.000 a R$ 144.000 por ano para cada filho estudar, quando o custo com educação deve ocupar no máximo 1/3 de um orçamento familiar equilibrado, implica só filhos do 1% mais rico (média de R$ 360.000 / ano) conseguirem estudar nesse ensino pago sem bolsa de estudos tipo ProUni.

Desde 2004, o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) já ajudou mais de 2 milhões de estudantes a pagar uma faculdade particular. Mas a elite econômica (e parte da cultural) brasileira, devido à política de cotas, ficou injuriada com o PT!

A expansão do Ensino Superior é uma tendência mundial. Entre 2009 e 2019, a proporção de jovens de 25 a 34 anos com diploma de ensino superior aumentou em todos os países da OCDE e parceiros. No Brasil, a participação aumentou 10 pontos percentuais, durante esse período, superior ao aumento médio dos países da OCDE (9 pontos percentuais). Em 2019, 21% dos jovens de 25 a 34 anos tinham diploma de Ensino Superior no Brasil, em comparação com 45%, em média, nos países da OCDE.

Os jovens podem enfrentar barreiras para entrar no mercado de trabalho, mas o maior nível de escolaridade aumenta a probabilidade de estarem empregados e está associado a rendas mais altas. No Brasil, as chances de se empregarem são de 62% para abaixo do ensino médio, 73% para o ensino médio e 85% para o nível superior.

Ter um diploma de Ensino Superior também traz uma vantagem considerável de ganhos. Em 2015, a faixa de 25-64 anos com um diploma de Ensino Superior com renda de emprego em tempo integral, no ano inteiro, ganhava 144% mais se comparado aos trabalhadores em tempo integral, ano inteiro, só com Ensino Médio, em comparação com 54% em média nos países da OCDE. Aqui, o diploma de graduação ainda vale mais.

Quanto às razões determinantes de escolha do voto na eleição de 2018 por faixas de renda, os 50% eleitores mais pobres tinham uma probabilidade significativamente maior (53%) de enfatizar as questões de saúde e emprego, acima dos 40% da classe média (40%), enquanto os cidadãos mais ricos tendem a ter menor demanda por isso (30%) e dar maior importância à corrupção e à segurança pública (43%). Inversamente, essa pauta é menos importante para a classe média (34%) e baixa (23%).

Quanto ao terceiro critério (educação), justifica 14% dos votos da classe baixa e 20% da classe média e alta. Calculando uma média ponderada dos três fatores, os pesos dados a essas questões por todo o eleitorado seriam emprego/saúde representarem 45%, corrupção/segurança 29%, educação 17% e outros 9%.

Em lugar de um debate público propositivo de um projeto nacional de erradicação desses problemas, a campanha eleitoral, principalmente em redes sociais, apelou mais para a contrapropaganda com narrativas falaciosas. Repetidas na mídia, induziram a erro, na hora de votar. Fizeram os eleitores acreditarem em algo falso ou mentiroso.

Por exemplo, os governos do PT tiveram muitos acertos, mas o criticado foi seus dirigentes não terem assumido, formalmente, a responsabilidade pelos desvios do “mensalão” e do “petrolão”, além do estelionato eleitoral no segundo mandato da Dilma ao voltar a Velha Matriz Neoliberal. Isto fora desdenhar a meritocracia, tão cara aos valores da casta dos sábios, em lugar do aparelhamento do Estado por muitos militantes sem formação qualificada, apenas com fidelidade partidária.

Por sua vez, o tucanato jamais fez mea culpa sobre erros na gestão do PSDB no governo FHC. Acertou na estabilização inflacionária, promovida pelo Plano Real, mas errou no prolongamento do regime de banda cambial, destruindo a competitividade industrial brasileira, na “privataria”, no endividamento externo, na compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição, na aprovação de pautas-bombas e impedimento do segundo governo da Dilma. Isto fora o erro da aliança eleitoral tipo “Bolsodoria”…

Quanto ao boçalnaro, ele debochou de mortos e sugeriu o Brasil ser um “país de maricas”. Promoveu aglomerações e desincentivou o uso de máscara. Não fez nenhuma campanha nacional em favor da saúde pública, nem comprou vacinas a tempo e de maneira suficiente. Jamais se livrará da pecha de genocida, pois deliberadamente ficou indiferente (“todo mundo morre, taoquei?”) ao extermínio de um grande número de pessoas, de todo um grupo étnico, de um povo ou de um projeto de civilização.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Bancos e Banquetas: Evolução do Sistema Bancário com Inovações Tecnológicas e Financeiras” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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