É a pandemia e o sofrimento das pessoas, estúpido!, por Gilberto Maringoni

Bolsonaro foi capaz de reunir todo o seu ministério para apoiar 43 minutos de cachuletas verbais contra Moro, prenhe de mágoas pessoais e recados desconexos à sua base de apoio, na sexta (24)

É a pandemia e o sofrimento das pessoas, estúpido!

por Gilberto Maringoni

(A partir de uma conversa com Artur Araújo)

Jair Bolsonaro conseguiu mais uma vez um tento inacreditável. Voltou a pautar a agenda nacional. Para um presidente tido como tosco, limitado e isolado, é um feito admirável.

Numa situação de total descontrole da propagação do Covid-19, não apenas o governo, mas a rarefeita oposição e os órgãos de mídia entram na batuta do presidente e se paralisam. Atentemos: esta é a maior crise sanitária da história do Brasil, impulsionada por cinco anos de irresponsabilidade econômica, pelo descaso do governo federal em relação à saúde pública, à ciência e pesquisa acadêmica – que se desdobram pra salvar vidas hoje e no futuro – e pela falta de qualquer visão estratégica diante de um vírus que não apenas mata, mas que se espalha e se apossa do território.

NESSE QUADRO DE HORRORES, Bolsonaro foi capaz de reunir todo o seu ministério para apoiar seus 43 minutos de cachuletas verbais contra Sérgio Moro, numa fala prenhe de mágoas pessoais e recados desconexos à sua base de apoio, na sexta (24). Em nenhum momento foi falado dos mais de 4 mil mortos pela doença e do colapso do sistema de saúde, que leva pessoas ao desespero, de norte a sul. Bolsonaro roda em torno de seu umbigo e dali monta uma artilharia pesada. Os militares ao seu redor, na hora do aperto, exibem sua tosca formação. Sequer unir a nação em tempos de agressão externa cogitam fazer. É algo do beabá das táticas militares.

Mas Bolsonaro pauta até a oposição. Veja-se a maior agremiação desse campo, o PT. Apesar de ótimas formulações sobre a proteção à população e alternativas à crise realizadas por economistas próximos, a principal preocupação da direção partidária e de quadros históricos é ver como se dará a escolha do candidato às prefeituras de São Paulo e Salvador. Nem mesmo sua maior liderança se coloca de maneira diversa.

A MÍDIA TELEVISIVA, impressa e virtual entrou na vaibe, como diz a garotada. Caudalosas reportagens e capas de jornais centram suas notícias no que parece ser um telecatch particular entre Bolso e Moro.

Tudo aparenta ser o que chamam de “política”, quando é apenas parte dela. Essa é a “política” que não diz respeito às pessoas reais, que estão perdendo empregos, passando fome e entrando em modo pânico, rumo a distúrbios sociais incontroláveis.

POIS ESSA “POLÍTICA” É DESPOLITIZADA e despolitizante. Ao desconectar decisões do poder público dos destinos da sociedade cria-se uma ilusão de que “política” é algo alheio à vida, ao dia a dia e às dores de quem não vê saída para a situação. Daí porque cresce entre a população o sentimento antipolítica.

Há, no entanto, um personagem que trafega na superestrutura e que parece ter compreendido perfeitamente qual é o jogo. Ele não é de esquerda, ao contrário. Chama-se João Dória e dá diariamente um show de bola pela TV e meios virtuais, repetindo que “todas as vidas importam”, que o mais importante é combater o coronavírus. Assim se desmascara o governo federal. Em sua jornada pública, o governador de São Paulo dialoga com a imprensa, mostra ter iniciativa, articula outras esferas da vida pública

Ressalte-se, Dória é de direita, é conservador, incentiva a violência policial – remember Paraisópolis -, é pouco democrático e transparente, mas é inteligente e percebeu a oportunidade para crescer.

Apesar de nenhum setor progressista ter maiores ilusões com ele, vale a pena prestar atenção. A figura mostra saber o que é política de verdade.

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