É possível fazer previsões num mundo imprevisível?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O resultado da grande conspiração tecnológica contra a democracia tem sido um verdadeiro desastre político, ecológico e econômico.

É possível fazer previsões num mundo imprevisível?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em 1999 Arthur C. Clarke previu que “Depois de 2020, quando a inteligência artificial chegar aos níveis humanos, haverá duas espécies inteligentes no planeta Terra, uma evoluindo muito mais rapidamente do que a biologia jamais permitiria,” (Previsões – 30 grandes pensadores investigam o futuro, organização Sian Griffiths, editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2001, p. 84/85).

Programas que usam recursos de Inteligência Artificial (que na verdade mimetizam o que nós chamamos de inteligência sem ter qualquer consciência do que são programados para fazer e porque fazem uma coisa e não outra) já estão sendo utilizados para diversos fins, inclusive e principalmente para condicionar resultados eleitorais e fomentar rebeliões populares que interessam às minorias economicamente influentes. O resultado da grande conspiração tecnológica contra a democracia tem sido um verdadeiro desastre político, ecológico e econômico. A eleição de Jair Bolsonaro foi programada, mas ninguém pode dizer que ela tenha sido realmente inteligente.

O abismo entre a fantasia do controle político absoluto condicionado pelo uso da tecnologia da informação e o descontrole social que se torna algo inevitável em razão da instabilidade política ser programada ou programável (vide o que está ocorrendo no Equador e no Chile e que certamente ocorrerá no Brasil) não desqualifica a previsão de Arthur C. Clarke. Afinal, se levarmos em conta as palavras de Sócrates (filósofo que considerava o mal um produto da ignorância) não podemos chamar de Inteligência Artificial aquilo que só consegue produzir exclusão social, destruição da natureza, privação, fome, dor e violência.

Esse abismo, entretanto, parece confirmar as palavras de Slavoj Zizec.

“De acordo com Jacques Lacan, nossos desejos subconscientes eludem nossa compreensão e em seu lugar colocamos fantasias licenciosas que parecem ser absurdas, mas que são na verdade reguladas, reguladoras e confortantes porque é mais fácil lidar com elas do que com o mundo real. O abismo é assim entre o que pensamos que fantasiamos e o que realmente fantasiamos.
Afirmo que a teoria psicanalítica da subjetividade humana, longe de ser obsoleta, terá um papel crucial na unificação das ciências naturais com a noção de liberdade humana no século XXI.”
(Previsões – 30 grandes pensadores investigam o futuro, organização Sian Griffiths, editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2001, p. 444/445)

A fragilização programada da democracia pode ter possibilitado uma sobrevida ao neoliberalismo no Chile, Equador, EUA e no Brasil. Mas ela foi incapaz de deter a reação eleitoral em Portugal, Espanha, México e, provavelmente, na Argentina e no Uruguai. Aquilo que os banqueiros e seus representantes políticos conseguiram programar realmente foi a fantasia oposta àquela que eles pensaram estar fantasiando.

Piñera dificilmente permanecerá no cargo. O mesmo pode ser dito de Jair Bolsonaro, cujas reformas podem acabar sendo abortadas antes da próxima eleição. A programação de resultados eleitorais é incapaz de produzir regimes políticos estáveis, especialmente quando o governo trata o povo como inimigo do capital financeiro que pretende se estabelecer como poder absoluto.

Para realmente evoluir e ajudar a construir sistemas políticos estáveis, economicamente inclusivos e ecologicamente sustentáveis, os programas que usam recursos de Inteligência Artificial para condicionar resultados eleitorais teriam que substituir o cálculo da menor ineficiência pelo da maior empatia. O resultado dessa evolução seria muito diferente daquilo que foi previsto por Arthur C. Clarke (e da realidade brutal em que estamos sendo confinados). Quando as necessidades biológicas, econômicas, ecológicas, psicológicas e culturais das vítimas do neoliberalismo forem levadas em consideração nós presenciaremos o nascimento de uma tecnologia da informação verdadeiramente inteligente.

O abismo “entre o que pensamos que fantasiamos e o que realmente fantasiamos” nunca deixará de existir. Nós continuaremos sendo seres humanos. Mas se realmente for humanizada, a Inteligência Artificial poderá superar todas as nossas expectativas minimizando os estragos que as tecnologias da informação reacionárias tem produzido em diversos países. O predomínio do cálculo da maior empatia, entretanto, acarretará a tristeza daqueles que desejam controlar tudo o tempo todo a fim de acumular o máximo de lucro possível.

Nenhum sistema político e econômico consegue se sustentar sem levar em conta as necessidades das pessoas comuns. Quando são empurradas para o desespero, elas também são capazes de vencer o medo e de desafiar a morte para obrigar os poderosos a restaurar direitos que foram confiscados para agradar um punhado de banqueiros. As manifestações no Chile demonstram que o mundo se tornou imprevisível. Felizmente.

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