Em defesa do SUS, por André Roncaglia

A Covid-19 nos forçou a pensar novamente em externalidades, aquele espaço comum em que os direitos de propriedade ficam diluídos

Em defesa do SUS

por André Roncaglia*

A pandemia trouxe à tona a coisa pública. O vírus remendou o esgarçado espaço social compartilhado. A Covid-19 nos forçou a pensar novamente em externalidades, aquele espaço comum em que os direitos de propriedade ficam diluídos. Crises sistêmicas rejuvenescem o Estado e fazem agonizar o individualismo autorreferencial. A reação deste último é sempre intensa.

Em seu perfil no Twitter, o cientista político Adriano Gianturco entoou o cântico liberalesco no setor de saúde, com aquele moralismo característico: “A regra é simples. Se um cozinheiro ‘defende’ [a reputação de] sua comida, mas ele não come… Não tem moral para falar. Para SUS é a mesma coisa.”

Respondi, sem titubear, na mesma selva do Twitter: “Você usa o SUS e não sabe. Além do umbigo e da sua bolha há o espaço coletivo, onde epidemias e vários outros problemas sanitários que encarecem o seu plano de saúde individual são prevenidos…pelo SUS!” Ele mobilizou mais emoção do que eu. Externalidades não irritam o fígado, nem aquecem o coração de quem está protegido. O Estado infelizmente não é pop como o agro.

Novamente a “nova razão do mundo”…

O neoliberalismo se apoia na premissa de que o ambiente econômico pode ser recortado em fatias individuais sujeitas a um preço. O que superar os limites de um contrato, o Estado pode cuidar. Esta visão continuará tentando ampliar seu domínio sobre o coletivo.

É uma guerra longa contra os resquícios imaginários da ameaça soviética. Por meio de privatizações, ou de sua variante adocicada (Parcerias Público-Privadas – PPPs), esta “nova razão do mundo” vai ganhando espaço sobre o coletivo, prometendo purificar o que o Estado demonizado teria maculado: a eficiência!

Seus tentáculos ousaram ameaçar o principal mecanismo de proteção contra a pandemia: o SUS. Bolsonaro é apenas o político funcional que faz o trabalho sujo desta insensatez coletiva. Ele recuou, mas não desistirá. O desmonte avançará sobre os “palácios do povo”, os serviços e equipamentos públicos financiados pelo orçamento público.

Saúde, educação, meio ambiente, ciência e tecnologia, controle de epidemias, saneamento básico, Correios etc. são manifestações do espaço coletivo, terreno de externalidades mais ou menos individualizável. Os efeitos desta dimensão coletiva continuam afetando o individual.

Depois o empresário reclama da falta de qualificação, da frequência das licenças médicas, da baixa produtividade e da dificuldade de aprendizagem produtiva. Emprega menos e paga menos impostos, sob a desculpa de não alimentar a corrupção. Imposto é, afinal, um roubo legalizado.

A verdade é que a elite não quer pagar pelo acesso do povo aos serviços “customizados” que condomínios e camarotes privados lhe garantem. Querem pagar pela Universidade apenas enquanto seus filhos estiverem lá. Gostam do SUS apenas quando seu plano de saúde não cobre sua demanda.

A diferença na qualidade das instituições entre países desenvolvidos e atrasados reside também no espírito cívico de suas elites. Não é caridade, não é bondade. É inteligência, esta capacidade humana de inter-ligar aspectos que se escondem dos nossos cinco sentidos.

As elites tendem a se transformar em plutocracias avessas ao que é coletivo. A dinâmica centro-periferia agrava a degeneração. As patologias que ocorrem no centro se transmitem à periferia com mais intensidade, tendo as elites por agentes transmissores.

Há sempre alguma “filosofia de aluguel” que dá ordem e sentido aos impulsos mais primitivos da territorialidade que herdamos de nossa condição de mamíferos. O avanço do coletivo sobre os sentimentos familiais (do clã ou da a tribo) gera ressentimentos nesta “memória biológica” mais restrita. A civilização nos convida a encontrar formas de ampliar o espaço do coletivo dentro da nossa individualidade.

A elites que deveriam dar o exemplo refugam perante esta porta estreita. Reproduzem no espírito a pobreza que amarga a vida material do povo. Sua filosofia é a meritocracia com amnésia seletiva. Heranças de riquezas tangíveis e intangíveis são ocultadas em favor de a uma virulenta carga de fantasias mobilizando o que há de mais profundo no indivíduo: seu senso de realização pessoal.

Não surpreende a força que a escola austríaca vem ganhando. Ela dá estrutura analítica e verniz acadêmico e filosófico a quem desdenha do conhecimento formal quando aplicado ao que transcende a esfera individual. Porque Olavo é filósofo e professor se estes títulos são inúteis?

O coletivo enriquece nossas elites num plano espiritual superior (no sentido de Hegel): capacidade de compartilhar. Sozinhas elas não conseguirão. A força dos impulsos é dominante. Freud e Keynes mostraram diferentes dimensões deles. O Estado pode direcionar estes impulsos.

A provocação de Gianturco sobre a os requisitos morais para a defesa do SUS, que abriu este texto, pode ser, portanto, invertida pelo espírito coletivo que deslindamos acima. A regra agora é esta: quem acha que não usa os benefícios do Estado não tem o direito de reduzi-lo, sufocá-lo ou minimizá-lo. Pode continuar usando. A gente não se importa. Estamos juntos nesta… Só pague a sua parte.

 

* André Roncaglia é professor de economia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisador associado do CEBRAP. É co-autor, com Paulo Gala, do livro “Brasil, uma economia que não aprende”. Twitter: @andreroncaglia. YouTube: andreroncaglia

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2 comentários

  1. Todos as pessoas e cidadãos que, forem emitir opinião quanto a essência e ao espírito do SUS, à luz do interesse do povo e à soberania da nação brasileira, emanados com a CF de 1988, deveriam antes de mais nada, conhecerem a fundo, o perigo latente e afronta para os direitos e soberania desse povo, conquistados, pós ditadura.
    O SUS, é motivo de orgulho por ser modelo de segurança para o país, em casos sanitários nacionais extremos, como por exemplo Pandemias e, esperança de bem-estar e de proteção para nós, brasileiros mas também, para àqueles países que veem nele, modelo a ser utilizado e aperfeiçoado. Sua importância e oportunidade de valorização cidadã dos esforços e conquistas democráticas do povo brasileiro com a CF de 1988, estão aí para quem quiser conhecer, como exemplo de fraternidade cidadã.
    No contexto político, social e econômico, o SUS representa para o Brasil, a maior trincheira da cidadania brasileira construída pelo povo brasileiro, sob o espírito da Constituinte e da CF de 1988, contra a desigualdade, a injustiça, contra os negativistas históricos que nunca se reconhecem brasileiros e também, contra aqueles que negam direitos à plena cidadania a seus irmãos brasileiros .
    No meio disso tudo, a imprensa conservadora e impatriótica que sempre foi oposição sim, à soberania do povo brasileiro, apesar de ainda ser tempo para pagarem seus passivos cívicos, defendendo daqui e diante, a CF, a soberania do povo, a unidade e fraternidade e, principalmente, o povo e o SUS, que é patrimônio de todos os brasileiros.
    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htmhttp://
    http://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/reportagem/a-importancia-de-um-sistema-de-saude-publico-e-universal-no-enfrentamento-a;
    São as nossas observações sobre a matéria e, nossas sugestões e contribuições à discussão responsável do tema.
    Sebastião Farias
    Um cidadão brasileiro nordestinamazônida

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