Em Poços de Caldas, barragem de rejeitos radioativos acende alerta, por Matias Spektor

A estimativa para solução do problema repousa na modesta quantia de US$ 500 milhões ao longo dos próximos 40 anos

Jornal GGN – Velha mina de urânio, em Poços de Caldas, acumula toneladas de rejeitos radioativos, alerta Matias Spector em sua coluna na Folha. Brumadinho trouxe o alerta sobre a má governança do sistema de barragens no Brasil, e a tragédia ocasionada pela Vale acendeu a luz vermelha de atenção no programa nuclear brasileiro.

A área onde o lixo nuclear se acumula, em Poços de Caldas, ocupa área de cem Maracanãs. A exploração terminou em 1995, mas nada foi feito com relação à descontaminação.  Um estudo encomendado à Universidade Federal de Ouro Preto após a ocorrência de ‘evento não usual’, em setembro de 2018, mostra o sistema extravasor da barragem com parte dos rejeitos seriamente comprometido e há infiltração, aumentando mais o risco de ruptura. 

A estimativa para solução do problema repousa na modesta quantia de US$ 500 milhões ao longo dos próximos 40 anos. E isso não vai acontecer, pontua o articulista.

Os problemas em Poços são bem conhecidos, alerta Matias Spektor. A mina, que funcionou de 1982 a 1995, produziu concentrado de urânio para ser usado no combustível de Angra 1, em pesquisas no setor nuclear e num esquema de comércio compensado junto ao Iraque. Mas, quando as atividades foram encerradas, não houve descontaminação das áreas exploradas nem foram seguidos os padrões que garantiriam a preservação ambiental e a segurança das populações afetadas.

A Agência Nacional de Mineração, até há pouco, dizia que faltavam documentos técnicos que poderiam atestar segurança das barragens existentes, com responsabilidade da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). No início de fevereiro, o MPF recomendou a criação de um plano emergencial.

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Poços não é o único desafio da mineração de urânio no Brasil, diz o articulista. Incidentes com materiais radioativos já ocorreram na Lagoa Real, em Caetité, na Bahia, nos anos de 2000, 2002, 2004 e 2009. E isso são dados oficiais.

Esses problemas atingem o programa nuclear brasileiro pois que para destravar tal potencial são necessários investimentos pesados em infraestrutura. Mas nenhum investidor confia em um sistema que, por falhas evitáveis, corre risco de terminar num mar de lama radioativa, diz Spektor.

O governo federal vem trabalhando para estabelecer novo marco regulatório para o setor nuclear, na busca de condições para que o investimento privado possa destravar a construção de Angra 3 e expandir a mineração de urânio para estados como Amazonas, Ceará, Goiás, Tocantins, Pará, Paraíba e Paraná.

E, diz Matias Spektor, esse trabalho importante de melhoria no marco regulatório do setor ficará soterrado se houver qualquer acidente ambiental com material radioativo. Seria um custo excessivamente alto para a sociedade brasileira, que subsidia o setor nuclear a peso de ouro, conclui ele.

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