Encurralado, por Ricardo Cappelli

O Capitão possui três pilares de sustentação: a Lava Jato, Paulo Guedes e os militares. Brigou com dois e inviabilizou um. Uma verdadeira aula de como atirar no próprio pé.

Encurralado

por Ricardo Cappelli

Os fatos são categóricos. Ao abrir uma série de frentes de batalha, Bolsonaro demonstra ignorar uma regra elementar da guerra: um inimigo de cada vez.

O Capitão possui três pilares de sustentação: a Lava Jato, Paulo Guedes e os militares. Brigou com dois e inviabilizou um. Uma verdadeira aula de como atirar no próprio pé.

Moro, líder da Lava Jato, foi derrotado no episódio da transferência do COAF da Justiça para o Ministério da Economia. O governo lavou as mãos. Por que agiu assim? Imperícia apenas?

Os primeiros vazamentos do COAF contra Flávio Bolsonaro ocorreram no auge da guerra entre o Capitão e a Globo. Circulou nos bastidores que quem vazava era a equipe de
Moro. Sempre que ele é espremido, a Globo sai em seu socorro. Seria natural ele retribuir.

Tirar poder do ex-juiz pode ter sido um desejo oculto do Planalto.

Com seu pacote anticrime esquartejado pelo Congresso e se sentindo abandonado pelo governo, Moro deu sinais de que poderia abandonar o barco.

Por que Bolsonaro abriu a semana revelando com 18 meses de antecedência o acordo em torno da indicação de Moro ao STF? Jogou o ex-juiz na fogueira ou quis prestigiá-lo?

Os generais, providos de visão estratégica, recolheram os “flaps”. Depois de serem achincalhados pelo “Astrólogo da Virgínia” com o apoio dos filhos do presidente, recuaram. A autocrítica por terem embarcado numa aventura, os assombra.

Fontes do Planalto passaram a semana plantando que o general Santos Cruz seria demitido. Os militares sabem que responder seria fazer o jogo do inimigo. Com Mourão, o “Pacificador”, muito bem posicionado na pequena área, decidiram, por enquanto, jogar parados.

Leia também:  Lewandowski: Delação cheia de "conjectura, ilação e presunção" não autoriza recebimento de denúncia

O terceiro pilar jogou a toalha. Guedes ajoelhou no confessionário e declarou em tom melancólico na Câmara: “estamos no fundo do poço”. A queda do PIB no primeiro trimestre acabou de vez com as ilusões do mercado. E o dinheiro não costuma ter muita paciência.

Na política, o Centrão segue insatisfeito. A convocação do Ministro da Educação foi aprovada com 307 votos, pouco menos que o necessário para o impeachment. Muitos deputados do grupo têm frequentado a Vice-Presidência. Saem de lá animados.

As passeatas em defesa da educação extrapolaram a militância da esquerda. Tudo indica que a bolha está sendo furada. O povo parece estar voltando às ruas.

A Globo fez uma cobertura especial das manifestações. A Folha de SP segue atirando no governo. O Estadão coleciona editorias chamando o presidente de incapaz.

Popularidade em queda, imagem internacional em ruínas, povo nas ruas, economia em frangalhos, desemprego subindo, crise política, mídia unida atirando, militares descontentes, um filho “gênio dos negócios imobiliários” nas mãos do MP e cheques suspeitos na conta da primeira dama sendo investigados.

O presidente está cada vez mais encurralado. Seu isolamento cresce numa velocidade espantosa.

A caneta do Planalto continua sendo poderosa, mas sair desta situação exige uma perícia não demonstrada até aqui. Por via das dúvidas – e considerando nossa trajetória histórica -, vindo a Brasília, é prudente dar uma passadinha no Palácio do Jaburu.

8 comentários

  1. Bolsonaro ainda tem forte apoio dos evangélicos. Vale lembrar que quem deu a vitoria a ele foram as mulheres evangélicas pobres (mais de 70% dessas eleitoras). Ter o apoio de parte das principais redes de televisão tem ajudado a mantê-lo no poder, SBT, Band, Rede TV e Record tem forte inserção social nas camadas populares.

  2. Encurralado? Esse tipo de análise sobre o Governo Bolsonaro, mesmo apontando fatos incontroversos quanto ao capitão, suas ações em menos de cinco meses e a oposição que enfrenta, grande parte entre seus apoiadores, deixa ao largo o principal: Bolsonaro nada mais é do que um preposto dos golpistas, assim como foi Temer, agora às voltas, largado nas mãos da Justiça enviesada do Brasil. Ambos títeres do golpe de 2016 que afastou Dilma Rousseff e o PT do poder, prendeu o Presidente Lula e aprofundou o neoliberalismo na condução de nossa economia, com apoio das Forças Armadas, da Justiça em todos os seus níveis, parte expressiva dos Parlamentos, e a mídia (Organizações Globo à frente). Por isso, quem está em dificuldades não é bem Bolsonaro, mas o golpe de 2016, que tendo sido forçado a apoiar Bolsonaro, tem sérios problemas para continuar sua sanha deletéria. Tentam, sub-repticiamente melhorar a imagem do General Hamilton Mourão, velho e conhecido gorila, dos que ainda infelicitam o país. A maior dificuldade, além da incompetência crassa de Bolsonaro: o general tem menor apoio popular do que o capitão, insuficiente para receber suporte para tocar a pauta entreguista e anti-povo que Bolsonaro, melhor dizendo, os golpistas de 2016, tentam impor ao país e ao nosso povo.

  3. Lula hoje definiu sua exigência pra entrar na Frente Ampla: ter sua inocência reconhecida. Esta foi a mensagem cifrada q passaram Celso Amorim e Bresser Pereira q estiveram hoje em Curitiba negociando com Lula. O governo Mourão está por pouco.

  4. Concordo, Hilderme. O ciclo ainda não se fechou. Haverá ainda muitos desdobramentos do golpe de 2016. O empresariado, a grande imprensa, judiciário e os poderosos do centrão tentarão ganhar fôlego antes do naufrágio da nação.

  5. Se estou errado me corrijam. Se der impeachment não estaríamos substituíndo um idiota-capitão por um idiota-general?
    Já vimos o filme. Todo mundo sabe no que deu.

  6. Acredito que todos esses fatores devem ser levados em consideração muito mais do que se pode crer até o momento, o governo Bolsonaro tem dado mostras de sua incompetência política, descontrole emocional, ideologismo barato e falta completa de traquejo político, portanto se o impeachment vier, não será muita novidade, como os acontecimentos recentes tbm não deveriam ser, já que esses que aí estão já demonstravam toda essas coisas, se alguns foram na onda das bravatas do Capitão foi por ódio cego, então agora é tentar minimizar os estragos!!!!!

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome