Endividamento Externo Corporativo, por Fernando Nogueira da Costa

Dados publicados ontem pelo Banco Central confirmam o fracasso do projeto ultraliberal de substituição da economia de endividamento público pela economia de mercado de capitais.

Endividamento Externo Corporativo

por Fernando Nogueira da Costa

Analistas sensatos, pragmáticos e não ideológicos, já reconhecem: um problema fundamental é os sistemas financeiros modernos serem deixados livres. Inevitavelmente, eles criam dívidas em quantidades excessivas e, em particular, dívidas não dirigidas a financiar novos investimentos produtivos, mas à compra de ativos já existentes, sobretudo imóveis.

Essa criação excessiva de dívida impulsiona os booms e, em consequência, os crashes financeiros. A desalavancagem financeira deixada como herança é a explicação da anemia na recuperação da crise financeira desde 2009.

Após anos de rápido crescimento do crédito, muitas empresas e famílias ficaram super comprometidas com dívidas para apostar em tendência firme de alta dos preços dos imóveis. Depois, quando a confiança no aumento desses preços diminuiu, elas cortaram o investimento e o consumo na tentativa de reduzir suas dívidas e recompor patrimônio líquido. Essa tentativa de desalavancagem financeira ainda impede a recuperação.

Um planejador perfeito poderia ter feito melhor, mas não existe um planejador perfeito. Na sua ausência, “os mercados financeiros geralmente alocam capital melhor em lugar dos governos”. Este pressuposto na argumentação de economistas ortodoxos geralmente não é demonstrado ou provado. Falam sem contestação na mídia brasileira.

Leitores iniciantes de Hyman Minsky, os ortodoxos recém-convertidos costumam colocar mais foco no ritmo do numerador (serviço da dívida, isto é, juros e amortizações) em lugar do crescimento do denominador (rendimentos esperados se confirmados) para uma análise completa da evolução do grau de fragilidade financeira ao longo do tempo.

A economia mundial ainda está em transição entre a fase de desalavancagem financeira e a de “empurrar corda”, isto é, a baixíssima taxa de juro não expande nova onda de tomada de empréstimos para investimento e consumo. É por conta ainda do endividamento anterior e/ou por falta de projeto de investimento novo?

A alavancagem aumentou porque o crédito cresceu mais rápido comparado ao PIB nominal. Isso sempre ocorrerá “por definição”, caso o saldo devedor do crédito for capitalizado por juros compostos cumulativos, enquanto o PIB nominal evolui de acordo com o crescimento do produto real e da inflação. Juros sobre a dívida são despesas financeiras diminuídas do faturamento para obtenção do lucro alavancado, mas a amortização do crédito devido dependerá de reservas a serem acumuladas até o prazo de vencimento ou amortização da dívida.

A tabela em anexo, elaborada a partir de Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central do Brasil, confirma essa hipótese. Em março, o crédito ampliado ao setor não financeiro alcançou R$ 10,7 trilhões (145,7% do PIB), crescendo 2,1% no mês, refletindo as expansões de 6,6% na dívida externa (impulsionada pela depreciação cambial de 15,6%) e de 2,8% nos empréstimos e financiamentos do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

Os títulos de dívida diminuíram 0,6% no mês, destacando-se a retração nos títulos públicos sem conseguir colocação nos leilões primários aos “prêmios” solicitados. Os títulos privados, principalmente debêntures, também cresceram muito pouco no ano corrente comparado ao crescimento em 12 meses.

Na comparação interanual, o crédito ampliado aumentou 12,8%, resultado do crescimento dos saldos da dívida externa, títulos de dívida e empréstimos e financiamentos, de 19,4%, 12,1% e 9,6%, respectivamente. Em outros termos, ganhou participação de 14,4 pontos percentuais face ao PIB de dezembro de 2017 a março de 2018, enquanto a economia brasileira esteve estagnada com crescimento médio anual de um por cento.

O crédito ampliado a empresas e famílias atingiu 83,8% do PIB, com crescimento de 4,7% no mês e de 16,1% em doze meses. A variação mensal refletiu o efeito da maxidepreciação cambial na dívida externa. Ela aumentou 11,6%, muito superior às expansões de 2,7% nos empréstimos e financiamentos e de 0,8% nos instrumentos do mercado de capitais doméstico.

A variação em doze meses do crédito ampliado a empresas e famílias é explicada pelo desempenho da dívida externa, 27,9%, estimulada pelo aumento dos saldos em moeda nacional em função da desvalorização cambial, e dos títulos de dívida, 25,7%. Mas esse mercado das debêntures já era… Ficou o endividamento externo corporativo.

Os dados publicados no fim de abril confirmam o fracasso do projeto ultraliberal de substituição da economia de endividamento público pela economia de mercado de capitais. Redundou em aumento da dívida externa das empresas não-financeiras!

Destaco o ameaçador efeito depressivo da maxidepreciação da moeda nacional sobre o crescimento dessa dívida externa de empresas não-financeiras, quando convertida em reais. Nesta moeda brasileira, quando elas não são exportadoras, são gerados boa parte dos recursos para pagamento de seu serviço.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Capital e Dívida: Dinâmica do Sistema” (2020; download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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