O imperialismo tecnológico e as eleições brasileiras, por Fábio de Oliveira Ribeiro
O império da Macedônia foi em grande medida um império móvel. Sempre que conquistavam uma região as tropas macedônicas e auxiliares eram deslocadas para a próximo reino a ser submetido e incorporado ao imenso território governado por Alexandre o Grande. Com a morte precoce dele o império se fragmentou, não sem que a cultura grega se tornasse importante onde quer que Alexandre tenha construído cidades e governado.
Roma construiu um império muito mais duradouro e centralizado, pois as regiões conquistadas eram romanizadas e incorporadas ao comércio de longa distância entre as províncias e a capital. A construção de estradas não apenas intensificava e solidificava essas relações comerciais como permitiam o rápido deslocamento de tropas para conter qualquer tentativa de secessão. Entretanto, após ser derrotada em 9 dC na Batalha da Floresta de Teutoburgo, Roma revisou sua estratégia. O expansionismo permanente foi desacelerado, porque era mais importante preservar as regiões conquistadas do que adicionar novas conquistas territoriais.
Apesar de terem desaparecido há muito tempo, esses dois impérios deixaram marcas profundas na história e na cultura mundial. A Idade Média, a Renascença e a Idade Moderna se relacionaram com os legados de ambos de maneira diferente, mas não deixaram de ser influenciados pela cultura grega e romana.
Dos macedônicos o ocidente herdou o preconceito em relação às culturas orientais e o desejo de submetê-las e civilizá-las. Isso pode ser visto em desdobramentos do americanismo como a ideologia do conflito de civilizações. Dos romanos os países ocidentais herdaram tanto o Direito Privado quanto algumas noções permanentes de Direito Público e uma certa tolerância que advém do cultivo de relações comerciais internacionais estáveis.
Norte-americanos e chineses estão agora enredados numa disputa pela supremacia global tecnológica. Mas ambos tratam a tecnologia de maneira distinta. Enquanto a Pequim investe em IA para incorporá-la à produção de bens e serviços que serão comercializados dentro fora do país, Washington persegue um objetivo mais elusivo. Os norte-americanos querem criar uma Super IA que proporcionará aos EUA a supremacia militar absoluta em todos os domínios (terrestre, aéreo, aquático, espacial e virtual).
A mesma tecnologia de computação em rede e IA desenvolvida por norte-americanos e chineses se espalha pelo planeta intensificando e acelerando as trocas e criando novas relações de assimetria e dependência. Nos países e regiões menos desenvolvidas isso causa um certo desconforto. Tanto que a ideia de soberania tecnológica passou a ser objeto de intensos debates na Europa, no Brasil e até mesmo na Inglaterra. Ninguém quer ser vassalo da China ou dos EUA ou ficar à mercê de sanções tecnológicas à distância como as que Donald Trump passou a impor para punir juízes do Tribunal Penal Internacional ou do nosso Supremo Federal Tribunal.
Nos impérios macedônico e romano, história, religião e cultura desempenhavam papeis predominantes, sendo muito mais importantes do que qualquer técnica utilizada para a produção e comercialização de mercadorias. Nos impérios tecnológicos que estão sendo expandidos junto com cabos óticos, satélites, data centers, câmeras de IA, computadores pessoais e dispositivos móveis conectados à internet, os microchips desempenham um papel muito mais importante do que a história, a religião e a cultura. Afinal, são os microchips que possibilitam a sincronização e a presentificação do mundo em todos os lugares o tempo todo para fins comerciais e lúdicos. São eles que realizam as transações bancárias e a coleta de dados utilizados tanto para otimizar as trocas privadas e a vigilância e espionagem também.
Assim como os livros foram considerados objetos valiosos e perigos que deveriam ser controlados por poucos durante a Idade Média, os microchips são agora tratados como objetos indispensáveis à consolidação de um novo tipo imperialismo. Os norte-americanos tentam de todas as maneiras desacelerar a difusão dos microchips mais modernos, mas isso apenas incentiva a China a desenvolver seus próprios microchips e as tecnologias necessárias à sua produção. Como os chineses tem à sua disposição um ecossistema industrial maior e mais diversificado do que aquele que existe nos EUA o efeito do curso de ação escolhido por Washington tente a criar uma desvantagem comparativa para o ocidente.
Nesse contexto, a eleição brasileira é extremamente importante. Quem votar em Flávio Bolsonaro condenará o Brasil a se tornar mais dependente dos EUA. Nosso país ficará eternamente submetido à assimetria tecnológica decorrente da hegemonia norte-americana. As terras raras brasileiras serão exportadas para os EUA, mas não teremos acesso aos microchips mais modernos porque da restrição de acesso a eles dependerá a preservação da sujeição do Brasil aos EUA.
A China é e continuará sendo uma parceira importante do Brasil caso Lula vença a eleição. Entretanto, em momento algum o PT e seus partidos aliados tentaram transformar o Brasil num quintal tecnológico dos chineses. Votar em Lula, portanto, equivale a acreditar que o Brasil pode conquistar seu próprio espaço num mundo interconectado sem ficar sujeito à assimetria tecnológica em relação a Washington ou Pequim.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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