Gastropolítica: comer, lutar, resistir e viver, por Antonio Hélio Junqueira

O termo gastropolítica – usado para designar as dimensões políticas e socioculturais do ato de comer –, não é tão novo assim. Foi cunhado, em 1981, pelo antropólogo indiano Arjun Appadurai

Vincent Van Gogh

Gastropolítica: comer, lutar, resistir e viver

por Antonio Hélio Junqueira

Comida, alimento e alimentação constituem-se em elementos e práticas sociais de forte conexão com a memória sócioafetiva, cultural e política de grupos e indivíduos. Representam formas de transmissão de culturas, hábitos, tradições, hierarquias, memórias, saberes e fazeres. A comensalidade e o compartilhamento das refeições aproximam pessoas, reforçam e atualizam os laços sociais. Assim, a dieta alimentar é plenamente revestida de caráter ideológico e suas expressões comportam escolhas, dilemas, possibilidades e adaptações que, em suma, refletem as condições materiais e simbólicas da existência dos diferentes grupos sociais ao longo da sua história. Comer constitui-se processo político de identificação coletiva, a partir da presença ativa de um conjunto de valores, representações e práticas alimentares compartilhadas no âmbito de uma cultura.

Comer nos dias de hoje, porém, tornou-se ato que comporta altíssimos níveis de risco e sérias ameaças não apenas à nossa saúde, mas também à do meio ambiente.

Ao fazermos nossas escolhas alimentares sujeitamo-nos a grandes perigos advindos tanto da eventual ingestão de substâncias tóxicas, quanto de agentes biológicos portadores de doenças, algumas das quais de elevado grau de letalidade. Notícias veiculadas diariamente na mídia não nos deixam esquecer disso, por um momento sequer. Vaca louca, agrotóxicos acima dos limites permitidos, gripes e pestes suínas e aviárias e as suspeitas sobre os mercados de carnes exóticas da China são apenas alguns exemplos dessa nossa “sociedade de risco”, sobre a qual já nos alertava o sociólogo alemão Ulrich Beck, em seu livro de 1986 e publicado no Brasil com um atraso de 24 anos com o título de “Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade” (São Paulo: Editora 34 Ltda.).

Ainda que muito graves, porém, tais fenômenos estão muito longe de esgotar os riscos aos quais nossa alimentação cotidiana nos submete. Ao contrário, nossos alimentos são produzidos, publicitariamente promovidos e distribuídos através de sistemas alimentares repletos de inequidades sociais, insustentabilidades, consumismos e poluição.

Nesse contexto amplo e altamente complexo, as escolhas alimentares tanto na esfera individual quanto coletiva passam a ser permeadas por valores e sentidos éticos e políticos reveladores da urgência em encontrarmos modos de obtenção e consumo de dietas limpas, saudáveis, seguras e adequadas e que sejam efetivamente provenientes de sistemas alimentares sustentáveis.

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É preciso comer, sem dúvida. Porém o ato de comer exige, talvez mais do que nunca, reflexão, resistência e luta, se quisermos continuar vivendo nesse planeta, pelo menos na forma como o conhecemos.

São essas dimensões que configuram, nos dias de hoje, o problema da comida como central, inadiável e incontornável e que sustentam e orientam as mais diferentes formas assumidas pelo ativismo alimentar. Dos movimentos urbanos de apoio aos pequenos produtores familiares e orgânicos à adesão ao veganismo e ao liberacionismo animal, tais movimentos adquirem tonalidades, focos e objetivos múltiplos, que passam pelas lutas em prol da biodiversidade e da produção local (“Locavoring”, “Eat Local”, campanhas de consumo de Plantas Alimentícias não Convencionais – PANC), das memórias afetivas e das tradições alimentares (“Confort food”, “Foraging”), do comércio justo, da economia solidária e dos próprios modos de consumir e compartilhar comida (movimento “Slow Food”, por exemplo).

Tais iniciativas, cada uma a seu modo e com as intensidades próprias de suas perspectivas e respectivos níveis de abrangência sociopolítica, visam recolocar certos reordenamentos culturais, econômicos e ambientais aos sistemas de produção e consumo alimentar vigentes. Todas podem ser agrupadas, estudadas e compreendidas no contexto de gastropolíticas contemporâneas, as quais compõem e complexificam a biopolítica da comida em um cenário global.

Nenhuma delas, contudo, está apta e tampouco se propõem a ser uma saída única e exclusiva de solução para o dilema e o desafio de se alimentar cerca de 10 bilhões de pessoas em 2050, a partir de sistemas sustentáveis de produção de comida. Tal ideia seria, em si mesma, uma contradição interna dos movimentos ativistas que militam em prol da diversidade e da inclusão social de diferentes indivíduos, grupos, sociedades, países e realidades socioculturais múltiplas. Tais iniciativas e movimentos sociais devem, acima de tudo, serem considerados de extrema relevância, especialmente pelos conteúdos educativos, mobilizadores, críticos e transformadores que comportam e veiculam.

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O termo gastropolítica – usado para designar as dimensões políticas e socioculturais do ato de comer –, não é tão novo assim. Foi cunhado, em 1981, pelo antropólogo indiano Arjun Appadurai – conhecido por seus estudos sobre as dimensões culturais da globalização – em um estudo sobre o papel da comida na organização social no sul da Índia.  Em seu texto original, o autor identificava conflitos ou competições por recursos culturais ou econômicos específicos, materializados em transações sociais em torno de alimentos.

Nos dias de hoje, contudo, parece mais do que oportuno o resgate dessa palavra e dos conceitos a ela associados.

A arena de luta no campo alimentar é árida e altamente complexa. Aos avanços da reflexão crítica e da mobilização social em favor de causas ambientais, por exemplo, a tecnociência de plantão e a serviço do grande capital agroindustrial responde com a oferta de itens produzidos em laboratório, revestidos do discurso da modernidade e de sua pretensa capacidade de consertar as mazelas que ele próprio engendra.

Se, por um lado, pesquisadores, médicos, nutricionistas, ambientalistas e organismos internacionais apontam e denunciam os riscos sociais do crescimento da produção e do consumo irrefreado da carne vermelha, por outro, startups se tornam foodtechs bilionárias de um dia para o outro, com a criação de hambúrgueres vegetais e outras invencionices tão ultraprocessadas que parecem não possuir mais nenhum elo real de ligação com comida de verdade. Carnes e peixes produzidos em laboratório a partir de células animais prometem ser a nova cornucópia do futuro alimentar.

Não podemos, contudo, nos deixar iludir. Os produtos dessa tecnociência absolutamente não são neutros e seguem orientando modelos de consumo e estilos de vida insustentáveis e alinhados aos interesses de certos e determinados grupos socioeconômicos de poder. Sustentam e mantêm as lógicas da massificação e da padronização globalizada dos produtos e serviços, que estimulam a redução da biodiversidade e aprofundam os efeitos da concentração do poder e da renda e da exclusão social. Direitos sobre propriedade intelectual, patentes e diferentes formas de arranjos e contratos para o acesso aos novos bens e serviços são apenas algumas das novas faces dos negócios alimentares em escala planetária.

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Comida é boa para pensar, já nos ensinava o antropólogo, filósofo e etnólogo francês Claude Lévi-Strauss refletindo sobre suas passagens por comunidades indígenas brasileiras e o desenvolvimento de seu pensamento sobre as mitologias, nos idos anos da segunda metade da década de 1930.

Agora, mais do que nunca, precisamos pensar sobre nossa comida. Quem ganha e quem perde com a sustentação dos estilos de vida e modelos de consumo que já se comprovaram, ad nauseam, ser incompatíveis com a sobrevivência do planeta?

Talvez devamos pensar nossa comida e suas possíveis transformações sob o apelo da urgência de um ponto de ruptura iminente, a partir do qual nos distanciaremos, de modo irremediável, de nossas relações com a natureza e como o mundo que herdamos e que, certamente, gostaríamos de deixar para os que nos seguirão.

Parafraseando a escritora norte-americana Elizabeth Gilbert, em seu best-seller de 1986, “Comer, rezar, amar” (Rio de Janeiro, Objetiva), propomos pensar a gastropolítica contemporânea a partir de quatro dimensões fundamentais da nossa existência cotidiana: comer, lutar, resistir e viver. Afinal, quanto a amar, isso nem se fala.

Antonio Hélio Junqueira – Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

 

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