21 de maio de 2026

 Guerra e velocidade: guerra encoberta e ações específicas no Irã, por Rogério Mattos

Sequência de fatos mostra que culpar o Irã por ataque a avião ucraniano era um artíficio para diminuir a comoção popular em torno da morte do general Soleimani
Foto: Reprodução

Guerra e velocidade: guerra encoberta e ações específicas no Irã

Por Rogério Mattos

 

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Existe aqui um escritor que não só não escreve direito, mas esquerdo, como também tem verdadeira preguiça diante “dos fatos”. Pode parecer complacência com a objetividade redundante e vontade alguma de ser a voz mais alta num coro de histéricos. Por isso mesmo, e talvez vagarosamente, vamos para “a análise”. Certa vez, existiu um leitor do GGN indignado (nada pouco comum) com o fato do editor do site ter mantido um artigo meu sobre a guerra no Irã [aqui], sob o argumento de que o que eu dizia estava datado. Depois que o governo assumiu a culpa pela queda do avião ucraniano, nada do que estava escrito valia. O leitor foi condescendente, tenho que admitir. Poderia somente questionar, meio anacronicamente, sobre os motivos de tais especulações terem sido publicadas no site. O fato é que só “se soube” que o Irã abateu o avião depois que eles assumiram, mas não questionei sobre discursos oficiais. Como comprova a comparação entre a queda do avião e os dois terremotos quase simultâneos ocorridos próximos a instalações nucleares iranianas, não se tratava se um ataque para ser comprovado positivisticamente pelos “fatos”. No dia seguinte, o Gustavo Conde colocou o problema de uma maneira interessante, dizendo que a tragédia do voo não foi um erro, mas consequência da guerra [aqui]. Tamanha obviedade chega a assustar, ainda mais colocada nos termos corretos. Claro, isso não passa pelo fato de que o Irã não impediu os voos comerciais enquanto bombardeava o Iraque. Conde coloca o problema nos termos de uma “guerra de comunicação”, ou seja, no patamar mais visível além da obviedade assustadora. A sequência dos fatos comprova o que eu disse em meu texto: culpar o Irã era artifício para minimizar a comoção popular causada pelo assassinato de Soleimani (como também Gustavo Conde disse). A partir da aceitação do Irã, toda a culpa recairia sobre o país. Minhas observações eram as seguintes: alguns doutores canadenses, especialistas na questão nuclear e que tinham trabalhado no Paquistão quando esse país desenvolveu sua bomba, estavam naquele voo. Junto aos dois terremotos bem suspeitos (mísseis no Iraque e tremores de terra no Irã), o recado dado pelo Ocidente foi bem claro: seu programa de enriquecimento de urânio é o que mais nos desagrada e, se vocês continuarem a querer produzir uma bomba nuclear, ainda antes vocês serão destruídos com o mesmo “veneno” que querem criar. E aqui a história termina. O que se deu posteriormente, a “guerra de comunicação”, foi a tentativa de criar uma “primavera árabe” iraniana. Com a prisão do embaixador britânico, a “revolta popular” foi desmascarada, apesar dos meios de comunicação ainda tentarem colocar a comoção pseudo-popular a respeito da queda do avião como superior ao verdadeiro movimento tectônico causado após o assassinato de Soleimani. O pessoal inteligente que gosta das análises do Pepe Escobar, recomendo suas especulações, que ainda não saíram em artigo algum mas estão em seu Facebook, a respeito de como o Ocidente utilizou artifícios similares à guerra cibernética usada na Rússia e Venezuela para confundir os operadores iranianos e provocar a disparada do míssil. Não por acaso, esses dias fez referência ao artigo do Instituto Schiller sobre a Nova Rota da Seda no Irã [aqui].
  É inviável o fim da geopolítica sem a integração intercontinental sonhada desde o século XIX com o advento das ferrovias e do motor a vapor, ou seja, o fim do Mediterrâneo retratado por Fernand Braudel, um “espaço liso”, nômade, capturado pelo aparelho de Estado, i.e., o Império Britânico. Mas não vou repetir histórias contadas tantas vezes [aqui]… O corredor China-Paquistão nos conta a mesma história [aqui]: não há solução possível, vivemos uma mudança de eras, de “sistemas-mundo”. As ameaças de guerra termonuclear são quase efeitos de superfície diante da guerra total que vivemos agora. Existe uma escolha a ser feita diante de duas possibilidades: ou continuamos ora com tom mais liberal, ora com um tom fascista, a defender o sistema imperialista da City de Londres e Wall Street, ou ingressamos num novo paradigma para a humanidade, atualmente encabeçado pela China e a Rússia e, pouco tempo atrás também pelo Brasil, via BRICS. Ou se concebe um mundo onde possam viver e conviver em paz não 8 ou 10 bilhões de pessoas, mas 20 ou 40 bilhões, sem qualquer malthusianismo ou “limites ao crescimento”, ou a saída é a guerra termonuclear, para que a Terra, com a interferência de mentalidades medíocres, consiga alimentar no máximo 1 bilhão de pessoas. Foi a segunda opção que fez “cair” o avião no Irã. PS: o título é homenagem a Paul Virilio, Deleuze e Guattari. Em outra oportunidade explico de modo não factual as relações entre a velocidade e as máquinas de guerra. Por agora só pude expor os fatos…

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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1 Comentário
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  1. Anônimo

    19 de janeiro de 2020 8:37 pm

    Caro Rogério,
    Que o “sistema-mundo” está passando por uma crise estrutural não há a menor dúvida, mas não partilho de suas certezas que esta crise é o efeito de uma mudança de paradigma e liderança mundial: a passagem de um sistema-mundo liderado por EUA-Europa decadentes e malthusianos para outro liderado por China-Rússia dinâmicos e pluralistas. Claramente me parece uma leitura geopolítica que você e tantos outros fazem (como Pepe Escobar e o pessoal do Resistir.info p. ex.) e que acaba numa espécie de luta do bem contra o mal.

    Para mim não está nem um pouco claro que estamos em meio a esta reviravolta em que China e Rússia assumirão a liderança de um sistema mundo altamente tecnológico, ecológico e pluralista.

    Em primeiro lugar porque a crise atual pode muito bem ser generalizada e estrutural em relação aos fundamentos do próprio capitalismo e, portanto, arrastar a Eurásia em seu turbilhão – China e Rússia são nações capitalistas e o horizonte de seu desenvolvimento é capitalista. Portanto, o que estamos vivendo pode muito bem ser uma crise total e não uma crise de liderança geopolítica.

    Em segundo lugar, suponhamos que sua hipótese esteja correta (o que é possível, embora eu creia que a crise é muito mais generalizada do que de hegemonia imperial) e China e Rússia assumam a dianteira do mundo. Neste caso, tenho minhas dúvidas se o sistema mundo será mais civilizatório, tolerante e pluralista do que o atual. Não tenho nenhuma simpatia pelo imperialismo dos EUA e Europa, mas não me parece que a política e a cultura de poder de China, Rússia, Irã e Índia (que seriam países fundamentais nesta nova ordem mundial) inspire confiança em tempos melhores para a civilização. Internamente estes países maltratam seu povo com miséria e/ou autoritarismo. Externamente, agem como estado imperiais em suas zonas de influência, como quaisquer outros. Parece-me que esta troca de liderança estaria mais para uma troca de feitor, com a chibata continuando a zunir no lombo dos escravos.

Comentários fechados.

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