Guerra e velocidade: guerra encoberta e ações específicas no Irã, por Rogério Mattos

Sequência de fatos mostra que culpar o Irã por ataque a avião ucraniano era um artíficio para diminuir a comoção popular em torno da morte do general Soleimani

Guerra e velocidade: guerra encoberta e ações específicas no Irã

Por Rogério Mattos

  Existe aqui um escritor que não só não escreve direito, mas esquerdo, como também tem verdadeira preguiça diante “dos fatos”. Pode parecer complacência com a objetividade redundante e vontade alguma de ser a voz mais alta num coro de histéricos. Por isso mesmo, e talvez vagarosamente, vamos para “a análise”. Certa vez, existiu um leitor do GGN indignado (nada pouco comum) com o fato do editor do site ter mantido um artigo meu sobre a guerra no Irã [aqui], sob o argumento de que o que eu dizia estava datado. Depois que o governo assumiu a culpa pela queda do avião ucraniano, nada do que estava escrito valia. O leitor foi condescendente, tenho que admitir. Poderia somente questionar, meio anacronicamente, sobre os motivos de tais especulações terem sido publicadas no site. O fato é que só “se soube” que o Irã abateu o avião depois que eles assumiram, mas não questionei sobre discursos oficiais. Como comprova a comparação entre a queda do avião e os dois terremotos quase simultâneos ocorridos próximos a instalações nucleares iranianas, não se tratava se um ataque para ser comprovado positivisticamente pelos “fatos”. No dia seguinte, o Gustavo Conde colocou o problema de uma maneira interessante, dizendo que a tragédia do voo não foi um erro, mas consequência da guerra [aqui]. Tamanha obviedade chega a assustar, ainda mais colocada nos termos corretos. Claro, isso não passa pelo fato de que o Irã não impediu os voos comerciais enquanto bombardeava o Iraque. Conde coloca o problema nos termos de uma “guerra de comunicação”, ou seja, no patamar mais visível além da obviedade assustadora.
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A sequência dos fatos comprova o que eu disse em meu texto: culpar o Irã era artifício para minimizar a comoção popular causada pelo assassinato de Soleimani (como também Gustavo Conde disse). A partir da aceitação do Irã, toda a culpa recairia sobre o país. Minhas observações eram as seguintes: alguns doutores canadenses, especialistas na questão nuclear e que tinham trabalhado no Paquistão quando esse país desenvolveu sua bomba, estavam naquele voo. Junto aos dois terremotos bem suspeitos (mísseis no Iraque e tremores de terra no Irã), o recado dado pelo Ocidente foi bem claro: seu programa de enriquecimento de urânio é o que mais nos desagrada e, se vocês continuarem a querer produzir uma bomba nuclear, ainda antes vocês serão destruídos com o mesmo “veneno” que querem criar. E aqui a história termina. O que se deu posteriormente, a “guerra de comunicação”, foi a tentativa de criar uma “primavera árabe” iraniana. Com a prisão do embaixador britânico, a “revolta popular” foi desmascarada, apesar dos meios de comunicação ainda tentarem colocar a comoção pseudo-popular a respeito da queda do avião como superior ao verdadeiro movimento tectônico causado após o assassinato de Soleimani. O pessoal inteligente que gosta das análises do Pepe Escobar, recomendo suas especulações, que ainda não saíram em artigo algum mas estão em seu Facebook, a respeito de como o Ocidente utilizou artifícios similares à guerra cibernética usada na Rússia e Venezuela para confundir os operadores iranianos e provocar a disparada do míssil. Não por acaso, esses dias fez referência ao artigo do Instituto Schiller sobre a Nova Rota da Seda no Irã [aqui].
 
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É inviável o fim da geopolítica sem a integração intercontinental sonhada desde o século XIX com o advento das ferrovias e do motor a vapor, ou seja, o fim do Mediterrâneo retratado por Fernand Braudel, um “espaço liso”, nômade, capturado pelo aparelho de Estado, i.e., o Império Britânico. Mas não vou repetir histórias contadas tantas vezes [aqui]… O corredor China-Paquistão nos conta a mesma história [aqui]: não há solução possível, vivemos uma mudança de eras, de “sistemas-mundo”. As ameaças de guerra termonuclear são quase efeitos de superfície diante da guerra total que vivemos agora. Existe uma escolha a ser feita diante de duas possibilidades: ou continuamos ora com tom mais liberal, ora com um tom fascista, a defender o sistema imperialista da City de Londres e Wall Street, ou ingressamos num novo paradigma para a humanidade, atualmente encabeçado pela China e a Rússia e, pouco tempo atrás também pelo Brasil, via BRICS. Ou se concebe um mundo onde possam viver e conviver em paz não 8 ou 10 bilhões de pessoas, mas 20 ou 40 bilhões, sem qualquer malthusianismo ou “limites ao crescimento”, ou a saída é a guerra termonuclear, para que a Terra, com a interferência de mentalidades medíocres, consiga alimentar no máximo 1 bilhão de pessoas. Foi a segunda opção que fez “cair” o avião no Irã. PS: o título é homenagem a Paul Virilio, Deleuze e Guattari. Em outra oportunidade explico de modo não factual as relações entre a velocidade e as máquinas de guerra. Por agora só pude expor os fatos…

1 comentário

  1. Caro Rogério,
    Que o “sistema-mundo” está passando por uma crise estrutural não há a menor dúvida, mas não partilho de suas certezas que esta crise é o efeito de uma mudança de paradigma e liderança mundial: a passagem de um sistema-mundo liderado por EUA-Europa decadentes e malthusianos para outro liderado por China-Rússia dinâmicos e pluralistas. Claramente me parece uma leitura geopolítica que você e tantos outros fazem (como Pepe Escobar e o pessoal do Resistir.info p. ex.) e que acaba numa espécie de luta do bem contra o mal.

    Para mim não está nem um pouco claro que estamos em meio a esta reviravolta em que China e Rússia assumirão a liderança de um sistema mundo altamente tecnológico, ecológico e pluralista.

    Em primeiro lugar porque a crise atual pode muito bem ser generalizada e estrutural em relação aos fundamentos do próprio capitalismo e, portanto, arrastar a Eurásia em seu turbilhão – China e Rússia são nações capitalistas e o horizonte de seu desenvolvimento é capitalista. Portanto, o que estamos vivendo pode muito bem ser uma crise total e não uma crise de liderança geopolítica.

    Em segundo lugar, suponhamos que sua hipótese esteja correta (o que é possível, embora eu creia que a crise é muito mais generalizada do que de hegemonia imperial) e China e Rússia assumam a dianteira do mundo. Neste caso, tenho minhas dúvidas se o sistema mundo será mais civilizatório, tolerante e pluralista do que o atual. Não tenho nenhuma simpatia pelo imperialismo dos EUA e Europa, mas não me parece que a política e a cultura de poder de China, Rússia, Irã e Índia (que seriam países fundamentais nesta nova ordem mundial) inspire confiança em tempos melhores para a civilização. Internamente estes países maltratam seu povo com miséria e/ou autoritarismo. Externamente, agem como estado imperiais em suas zonas de influência, como quaisquer outros. Parece-me que esta troca de liderança estaria mais para uma troca de feitor, com a chibata continuando a zunir no lombo dos escravos.

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