Independência ou lumpempresidencialismo?
por Alexandre Filordi
Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, sob a tinta de Marx, lemos importantes lições de um golpe constituído como teatro de marionetes. O golpe de estado arranjado por Luís Bonaparte, em 1851, para se tornar autoproclamado imperador Napoleão III, ébrio de altas doses de mitomania, atualiza uma história que se sabe mesmo como farsa.
Marx anuncia no texto que Bonaparte se constituiu como chefe do lumpemproletariado (p. 99). Lumpem significa farrapo de algodão, referindo-se aos que, em sua plena miséria, mal tinham o que vestir, exceto trapos. Mas a imagem diz mais respeito a uma consistência mental e a uma disposição de espírito que, em nome da promessa de qualquer favor imediato, sobretudo financeiro, prestava-se a obedecer como bom cão adestrado: “um cão é obedecido se ocupa um cargo”, nos ensina Shakespeare em Rei Lear.
“Presentear e emprestar: nisso se resumia a ciência financeira do lumpemproletariado, tanto do nobre quanto do ordinário. Nisso se resumiam as molas propulsoras que Bonaparte tão bem soube pôr em movimento. Nunca um pretendente apostou tão superficialmente na superficialidade das massas”, explica Marx (p. 82). A superficialidade das massas é matéria prima de qualquer golpe de Estado. A superficialidade é fundamental para toda e qualquer manipulação. Além disso, ela funciona como combustível de adesão por vizinhança: não estar junto da massa é sempre uma ameaça para quem dela se difere. Não é à toda que os regimes totalitaristas situam os de fora de sua massa conduzida e sujeitada como inimigos, detratores, terroristas etc.
Em nome da liberdade, as massas são até capazes de desejar a própria supressão da liberdade e de direitos civis, é que o lumpem se fascina com o que se reluz, para apenas tardiamente se dar conta do engano. Daí a aparente coesão e unificação dos que saem às ruas para gritar: “viva o golpe”!; “viva a ditadura”!; “independência ou morte”!; “intervenção, já!”; “queremos o neoliberalismo!”.
Como bom rebanho, o lumpemproletariado congrega de tudo: “Roués [rufiões] decadentes com meios de subsistência duvidosos e de origem duvidosa, rebentos arruinados e aventurescos da burguesia eram ladeados por vagabundos, soldados exonerados, gatunos, trapaceiros, lazzaroni [lazarones], batedores de carteira, prestidigitadores, jogadores, maquereaux [cafetões], donos de bordel, carregadores, literatos, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de tesouras, funileiros, mendigos, em suma, toda essa massa indefinida, desestruturada e jogada de um lado para outro” (p. 91).
Podemos dizer que o império de Napoleão III foi um lumpem-imperialismo. Isto porque o pretenso imperador tinha lá seus próprio trejeitos de operar no modo do baixio lumpem: “ele concebe a existência histórica dos povos e as suas grandes ações oficiais como comédia no sentido mais ordinário possível, como uma mascarada em que os belos figurinos, as palavras e os gestos grandiloquentes apenas servem para encobrir a mais reles safadeza” (p. 91). Ele também vivia dizendo: “– só deus me tira daqui!”, afinal, como segue evidenciando Marx, o imperador “pautava a sua vida pela convicção de que há certos poderes superiores aos quais o ser humano, e especialmente o soldado, não consegue resistir” (p. 94).
E como bom financista do Partido da Ordem, o golpista sabia manejar “o cretinismo parlamentar, que prende os infectados dentro de um mundo imaginário e os priva de todo o senso, de toda a memória, de todo o entendimento para a crueza do mundo exterior” (p. 107). Sem considerar que “seus discursos oficiais sobre ordem, religião, família e propriedade” (p. 93) eram sempre para dar lustro aos seus financiadores, enquanto o povo, sempre na penúria, e a República, tendo a sua autoridade solapada, eram esmagados, perseguidos e espancados, “contando obviamente com a proteção da polícia” (p. 93).
Ora, se houve um lumpem-imperialismo por que não pode haver um lumpempresidencialismo? Ele não reuniria ao redor de si o que há de pior no “cretinismo parlamentar”, na massa manipulável, disposta a se vender por migalhas de engodos e nos financistas de seus próprios interesses? O lumpempresidencialismo, repetindo Marcuse ao comentar o 18 Brumário,revela essa “mistura de estupidez, ganância, baixaria e brutalidade que perfaz a política [e nos] deixa a seriedade sem fala” (p. 13).
Talvez seja mesmo este cenário que se descortina, a cada dia, para o Brasil: vivemos um lumpempresidencialismo. Qualquer tipo de golpe se delineia nesta mesma direção, no ajuntamento do que há de mais vil na política e nos seu séquito. Em torno do lumpem descrito por Marx, uma massa inflamada latejava o seu “ódio comum e em ataques conjuntos contra a república” (p. 59), sem se dar conta de como se sujeita cegamente a um pretendente que “nunca apostou tão superficialmente na superficialidade das massas” (p. 82).
Assim é o lumpempresidencialismo: a política se reduz a uma profecia nivelada ao populacho sem noção das consequências de qualquer atitude com as quais se engaja. Dane-se, assim, se suspender o horário de verão, sem nenhum estudo, contribuirá para a escassez de energia e inviabilizar inclusive seu parque industrial, dado o elevado custo; dana-se que o agro desertifique o trópico; pouco importa se pandemia é pandemia; dane-se milhões de reais gastos com desfiles de tanques de guerra sucateados e com motociadas, afinal, o lumpem precisa mesmo de apoteoses; e que vá para o espaço esse “negócio” de que lei é lei, uma vez que a inspiração do lumpempresidencialismo é a própria vontade de ser imperador.
Uma coisa, contudo, é certa. 7 de setembro pode ser também um dia de recobrarmos da história a supressão de toda farsa. Um grito e uma ação estão na ordem do dia: independência ou lumpempresidencialismo?
Referencial
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.
por Alexandre Filordi (Doutor em Filosofia; Doutor em Educação)
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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