CRÉDITO BANCÁRIO E OS CICLOS ECONÓMICOS
Os ciclos económicos surgiram no mundo ocidental na última parte do século XVIII. Era um fenómeno curioso, pois não parecia haver qualquer motivo para ele e, de facto, ele não havia existido até então. Os ciclos económicos consistiam numa série regularmente recorrente (embora não estritamente periódica) de expansões e recessões económicas, de períodos inflacionários marcados pelo aumento das actividades económicas, altas taxas de emprego e altos preços, seguidos por recessões ou depressões caracterizadas por um declínio nas actividades económicas, altas taxas de desemprego e um declínio nos preços; e então, após este período de recessão, um novo período de recuperação ao qual se seguia uma nova fase de expansão económica.
A priori, não há motivo para se esperar este tipo de padrão cíclico na actividade económica. Existirão, obviamente, ondas cíclicas em determinados tipos de actividade; desta forma, o ciclo de sete anos dos gafanhotos provocará um ciclo de sete anos nas actividades de combate à praga dos gafanhotos, na produção de venenos e equipamentos para combatê-los, etc., porém, não há motivo para se esperar ciclos de crescimento e declínio na economia em geral. Na realidade, existiria um motivo para se esperar justamente o contrário, pois o mercado livre costuma funcionar de maneira suave e eficiente e, especialmente, sem este acúmulo maciço de erros como os que ficam evidentes quando um período de crescimento económico artificial repentinamente dá origem a um declínio económico e ocorrem as grandes perdas. De facto, antes do fim do século XVIII não existiam, no geral, estes tipos de ciclos. Geralmente, a economia era conduzida de maneira uniforme e equilibrada até que ocorresse uma repentina interrupção que a afectasse: uma fome causada por algum problema na produção de trigo causava um colapso num país cuja economia dependia da agricultura; o rei se apropriava da maior parte do dinheiro que estava nas mãos dos financistas, causando uma depressão repentina; uma guerra interrompia os padrões de relações comerciais. Em cada um destes casos, havia um golpe específico ao comércio realizado por uma causa única e facilmente identificável, sem que se fosse necessário procurar a fundo por uma explicação.
Então a que se deve este novo fenómeno dos ciclos económicos? Era algo patente que os ciclos ocorriam nas regiões mais avançadas, economicamente, de cada país: nas cidades portuárias, nas áreas mais envolvidas em comércio com os centros mais avançados de produção e actividade ao redor do mundo. Dois fenómenos diferentes e vitalmente importantes começaram a surgir, numa escala significativa, na Europa Ocidental durante este período, mais especificamente nos centros mais avançados de produção e comércio: a industrialização e o sistema bancário comercial. O sistema bancário comercial era do mesmo tipo de sistema bancário de «reservas fraccionárias» que analisamos anteriormente, com Londres como o local do primeiro banco central do mundo, o Banco da Inglaterra, que se originou na virada do século XVIII. No século seguinte, na nova disciplina da economia e entre escritores e comentadores financeiros, dois tipos de teorias começaram a surgir tentando explicar este fenómeno novo e indesejado: aquelas que colocavam o foco da culpa na existência da indústria, e aquelas que a centravam no sistema bancário. As primeiras, em suma, acreditavam que a responsabilidade pelos ciclos económicos estava nas profundezas da economia de livre mercado — e era fácil para estes economistas pedir ou pela abolição do mercado (Karl Marx, por exemplo) ou por um controlo e uma regulamentação drástica por parte do governo, visando aliviar estes ciclos (Lorde Keynes, por exemplo). Por outro lado, aqueles economistas que acreditavam que o problema estava no sistema bancário de reservas fraccionárias colocavam a culpa não na economia de mercado, mas sim numa área — o dinheiro e o sistema bancário — que até mesmo o liberalismo clássico inglês jamais havia desassociado de um forte controlo governamental. Até mesmo no século XIX, portanto, colocar a culpa nos bancos era, essencialmente, culpar o governo por estes ciclos de crescimentos e retrocessos.
Não podemos entrar em detalhes aqui a respeito das inúmeras falácias das escolas de pensamento que culpam a economia de mercado pelos ciclos; é suficiente dizer que estas teorias não conseguem explicar o aumento dos preços nos períodos de crescimento ou a queda deles nos períodos de recessão, nem o acúmulo maciço de erros que surgem repentinamente na forma de perdas graves quando este crescimento se transforma em retrocesso.
Os primeiros economistas a desenvolver uma teoria dos ciclos centrada no dinheiro e no sistema bancário foram o economista inglês clássico do século XIX, David Ricardo, e seus seguidores, que desenvolveram a «teoria monetária» dos ciclos económicos.[1] A teoria ricardiana dizia mais ou menos o seguinte: os bancos que seguiam o sistema de reservas fraccionárias, estimulados e controlados pelo governo e pelo seu banco central, expandiam o crédito. À medida que o crédito era expandido e se acumulava, tal como uma pirâmide, sobre o papel-moeda e o ouro, a oferta de dinheiro (na forma de depósitos bancários ou, naquele período histórico, notas promissórias) expandia-se. A expansão da oferta de dinheiro elevava os preços e colocava em movimento a expansão económica inflacionária. À medida que esta expansão continuava, fomentada pela «piramidização» das notas promissórias e dos depósitos lastreados em ouro, os preços domésticos também eram elevados. Isto significava, no entanto, que os preços domésticos também ficavam mais altos, e ainda mais altos que os preços das mercadorias importadas, a tal ponto que as importações aumentavam e as exportações diminuíam. Surgia assim um déficit na balança de pagamentos, que era ampliado, e que tinha de ser pago através do ouro que escoava do país inflacionário e ia para os países com moeda forte, porém, à medida que este ouro escoava, a pirâmide formada pela expansão monetária e bancária começava a ficar cada vez mais instável e os bancos corriam cada vez mais o risco de irem à falência. Finalmente, os governos e os bancos eram obrigados a travar a sua expansão, e, para se salvarem, os bancos eram obrigados a reduzir os seus empréstimos e os depósitos em conta corrente.
A mudança repentina da expansão do crédito bancário para a sua contracção inverteu o cenário económico e a recessão seguiu-se rapidamente à expansão. Os bancos foram obrigados a agir com maior parcimónia, e os negócios e as actividades económicas sofreram à medida que aumentou a pressão pelo pagamento das dívidas e pela contracção. A queda na oferta de dinheiro, por sua vez, gerou uma queda geral nos preços («deflação»). A fase da recessão ou depressão havia chegado. No entanto, à medida que a oferta de dinheiro e os preços caíram, as mercadorias tornaram-se novamente mais competitivas com os produtos externos, e o balanço de pagamentos foi revertido, com um superávit tomando o lugar do déficit. O ouro passou a fluir novamente para a economia do país e, com as notas promissórias e os depósitos sendo realizados sobre uma base cada vez maior de ouro, a condição dos bancos tornou-se cada vez mais segura, e teve início um processo de recuperação.
A teoria ricardiana tem diversas características notáveis: ela explica o comportamento dos preços ao focar nas mudanças da oferta de dinheiro bancário (que, de facto, sempre aumentou em expansões e diminuiu em recessões), e também explicava o comportamento no balanço dos pagamentos. Além do mais, ela associava as expansões e recessões económicas, de modo que uma recessão passava a ser vista como uma consequência da expansão que a antecedeu. Não apenas uma consequência, mas um meio saudável de se ajustar a economia a uma intervenção insensata que havia criado a expansão económica inflacionária.
Resumindo, pela primeira vez, o retrocesso económico deixou de ser visto como uma espécie de visita do inferno ou uma catástrofe gerada pelas maquinações secretas de uma economia de mercado industrializada. Os ricardianos perceberam que o principal dos males era a expansão económica inflacionária precedente provocada pela intervenção governamental no sistema monetário e bancário, e que a recessão, por mais indesejáveis que fossem os seus sintomas, era na realidade um processo necessário de ajuste pelo qual a expansão intervencionista era eliminada do sistema económico. A depressão é o processo através do qual a economia de mercado se ajusta, elimina os excessos e distorções da expansão económica inflacionária, e restabelece uma condição económica saudável. A depressão é uma reacção desagradável, porém necessária, às distorções e excessos da expansão económica que a antecederam.
Por que motivo, então, estes ciclos económicos são recorrentes? Por que motivo então temos sempre esta sequência de ciclos de expansões e recessões? Para responder a isso, temos que compreender as motivações dos bancos e do governo. Os bancos comerciais vivem e lucram através da expansão do crédito e da criação de uma nova oferta de dinheiro, portanto, estão naturalmente inclinados a fazê-lo, a «monetizar o crédito», se puderem. O governo também deseja a inflação, tanto para expandir a sua própria receita (seja ao imprimir dinheiro ou de modo que o sistema bancário possa financiar os déficits governamentais) e para subsidiar grupos políticos e económicos favorecidos por ele através de uma expansão económica e de um crédito barato. Logo, sabemos o porquê destas expansões económicas terem o seu início. O governo e os bancos têm que recuar quando visualizam a ameaça de um desastre e a chegada de um ponto de crise, porém, à medida que o ouro volta a entrar no país, a condição dos bancos torna-se mais saudável, e quando estes já se recuperaram, passam a estar numa posição de confiança suficiente para retornar à sua tendência natural de inflacionar a oferta de dinheiro e crédito, e assim a próxima expansão económica se põe a caminho, plantando as sementes para a próxima recessão inevitável.
Assim, a teoria ricardiana também explicava a recorrência contínua dos ciclos económicos. Ela não explicava, no entanto, duas coisas. Primeiro, e mais importante, ela não conseguia explicar o acúmulo maciço de erros que os empresários repentinamente percebem ter cometido quando a crise chega e a recessão toma o lugar da expansão económica, pois os empresários são treinados para fazer previsões bem-sucedidas e não é do seu feitio cometer uma quantidade tão repentina de erros graves que os force a sofrer perdas tão amplas e severas. Em segundo lugar, outra característica importante de todo o ciclo económico tem sido o facto de que tanto expansões quanto recessões económicas têm atingido com mais gravidade as «indústrias de bens de capitais» (as indústrias que produzem máquinas, equipamentos, fábricas ou matérias-primas industriais) do que as indústrias de bens de consumo. A teoria ricardiana também não foi capaz de explicar esta característica dos ciclos.
A teoria austríaca, ou «misesiana», dos ciclos económicos, foi construída com base na análise ricardiana, e desenvolveu a sua própria teoria de «super-investimento monetário» ou, mais especificamente, «mau-investimento monetário» dos ciclos económicos. A teoria austríaca foi capaz de explicar não apenas os fenómenos explicados pelos ricardianos, mas também o acúmulo de erros e a maior intensidade dos ciclos de bens de capitais. Como veremos, é também a única capaz de compreender o fenómeno moderno da «estagflação».
Mises começou como os ricardianos: o governo e o seu banco central estimulam a expansão de crédito bancário ao adquirir activos e aumentar assim as suas reservas bancárias. Os bancos então passam a expandir o crédito e, por consequência, a oferta de dinheiro da nação na forma de depósitos em conta corrente (uma vez que as notas promissórias virtualmente desapareceram). Tal como os ricardianos, Mises viu que esta expansão do dinheiro bancário elevava os preços e causava inflação.
Porém, como Mises apontou, os ricardianos subestimaram as consequências infelizes da inflação do crédito bancário, pois algo ainda mais sinistro estava a ocorrer. A expansão do crédito bancário não eleva apenas os preços, ela também baixa artificialmente a taxa de juros, e manda assim sinais enganosos aos empresários, o que os leva a fazerem investimentos equivocados e anti-económicos.
Com efeito, no mercado livre e desimpedido, a taxa de juros sobre os empréstimos é determinada apenas pelas «preferências temporais» de todos os indivíduos que compõem a economia de mercado, uma vez que a essência de qualquer empréstimo é a de que um «bem presente» (dinheiro que pode ser usado no presente) está a ser trocado por um «bem futuro» (um título de dívida que sempre poderá ser usado num ponto determinado do futuro). Como as pessoas sempre preferirão ter o dinheiro no presente ante a perspectiva de ter a mesma quantidade de dinheiro em algum ponto do futuro, os bens presentes sempre terão um valor superior sobre os bens futuros no mercado. Este valor superior, ou «ágio», é a taxa de juros, e o seu valor deverá variar de acordo com o grau com que as pessoas preferem o presente ao futuro, ou seja, o grau de suas preferências temporais.
As preferências temporais das pessoas também determinam o grau com que estas pessoas pouparão e investirão para o uso futuro, comparado com o quanto elas consomem no presente. Se as preferências temporais das pessoas diminuírem, ou seja, se o seu grau de preferência do presente sobre o futuro declinar, as pessoas tenderão a consumir menos agora e a investir mais; ao mesmo tempo, e pelos mesmos motivos, a taxa de juros, a taxa de desconto temporal, também diminuirá. O crescimento económico surge em grande parte como resultado das quedas nas taxas de preferência temporal, o que acarreta um aumento na proporção das economias e dos investimentos no consumo, bem como uma queda na taxa de juros.
Por outro lado, o que acontece quando a taxa de juros não cai devido a uma diminuição voluntária nas preferências temporais e a um aumento das economias por parte do público, mas sim devido a uma interferência governamental que promoveu a expansão do crédito e do dinheiro electrónico criado pelo sistema bancário? Pois o novo dinheiro na conta corrente criado no decorrer dos empréstimos bancários às empresas entrará no mercado como um fornecedor de empréstimos e, portanto, ao menos inicialmente, baixará a taxa de juros. O que acontecerá, em outras palavras, quando a taxa de juros cair artificialmente, devido a uma intervenção, e não naturalmente, a partir das mudanças nas avaliações e preferências do público consumidor?
O que acontecerá será um problema, pois o empresário, ao ver a queda da taxa de juros, reagirá como de costume ao ver uma mudança semelhante nos sinais apresentados pelo mercado: ele investirá mais em bens de capital. Investimentos, especialmente em projectos duradouros e que levam tempo, que anteriormente pareciam pouco rentáveis, agora parecem lucrativos devido à queda dos juros. Em suma, os empresários reagirão como fariam se as suas economias tivessem genuinamente aumentado: eles procurarão investir estas supostas economias. Eles procurarão expandir os seus investimentos em equipamentos duráveis, em bens de capital, em matérias-primas industriais e na construção, em comparação com a produção directa de bens de consumo.
Assim, as empresas tomarão emprestado alegremente o dinheiro recém-expandido que estará a chegar às suas mãos a taxas mais baixas; eles utilizarão este dinheiro para investir em bens de capital e, por fim, este dinheiro acabará sendo pago em salários mais altos para os trabalhadores das indústrias de bens de capital. Este aumento na procura dos negócios aumenta os custos do trabalho, porém, as empresas acreditarão ser capazes de pagar estes custos mais altos porque foram iludidas pela intervenção do governo e dos bancos no mercado de empréstimos e por esta manipulação vitalmente importante com os indicadores da taxa de juros do mercado — indicadores que determinam quantos recursos deverão ser dedicados à produção de bens de capital e quantos deverão ser dedicados aos bens de consumo.
Os problemas surgem quando os trabalhadores começarem a gastar o novo dinheiro bancário que receberam na forma de salários mais altos, pois as preferências temporais do público não foram de facto reduzidas; o público não quer poupar mais do que ele tem. Assim, os trabalhadores procurarão consumir a maior parte dos seus salários, em suma, para restabelecer as antigas proporções consumo/poupança. Isto significa que eles passarão agora a redireccionar os seus gastos na economia de volta para a indústria de bens de consumo, e não pouparão e investirão o suficiente para comprar as máquinas, equipamentos de capital, matérias-primas industriais etc., recém-produzidos. Esta falta de poupança-e-investimento suficiente para comprar todos os bens de capital nos preços esperados e existentes revelar-se-á na forma de uma depressão repentina e aguda nas indústrias de bens de capital, pois uma vez que os consumidores restabelecerem as suas proporções de consumo/investimento, ficará claro que as empresas investiram demais nos bens de capital (daí o termo «teoria do super-investimento monetário») e investiram de menos nos bens de consumo. As empresas foram seduzidas pela manipulação governamental e pela redução artificial da taxa de juros e agiram como se mais poupanças estivessem dispostas para serem investidas do que realmente existiam. Assim que o novo dinheiro electrónico criado pelo sistema bancário for filtrado pelo sistema e os consumidores restabelecerem as suas antigas proporções de preferências temporais, ficará claro que não havia poupança suficiente para comprar todos os bens de consumo, e que as empresas investiram mal as poupanças limitadas que tinham disponíveis («teoria do mau-investimento monetário»). As empresas super-investiram em bens de capital e sub-investiram em bens de consumo.
A expansão inflacionária, portanto, leva a distorções no sistema de preços e de produção. Os preços da mão-de-obra, da matéria-prima e da maquinaria nas indústrias de bens de capital são elevados demasiado durante o período da expansão para gerarem lucro quando os consumidores puderem novamente restabelecer as suas antigas preferências de consumo/investimento. A «depressão», portanto, é vista — com maior intensidade do que na teoria ricardiana — como um período necessário e saudável durante o qual a economia de mercado abandona e liquida os investimentos insalubres e anti-económicos do período de expansão económica, e restabelece aquelas proporções entre consumo e investimento que são realmente desejadas pelos consumidores. A depressão é o processo doloroso, porém necessário, através do qual o mercado livre se livra dos excessos e erros do período de expansão económica, e restabelece a economia de mercado em sua função de um serviço eficiente à grande massa de consumidores. Já que os preços dos factores de produção (terra, mão de obra, maquinaria, matéria-prima) foram elevados excessivamente na indústria de bens de capital durante o período de expansão económica, isto significa que estes preços precisam cair durante a recessão até que as proporções apropriadas ao mercado de preços e produção sejam restauradas.
Colocando de outra maneira, a expansão económica inflacionária não irá apenas aumentar os preços em geral, mas também distorcerá os preços relativos, as relações entre um tipo de preço com outro. Em suma, a expansão inflacionária do crédito aumentará todos os preços; porém os preços e salários das indústrias de bens de capital serão elevados com maior velocidade que os das indústrias de bens de consumo. Resumindo, a expansão económica será mais intensa nas indústrias de bens de capital que nas indústrias de bens de consumo. Por outro lado, a essência do período de ajuste durante a depressão estará nos preços e salários mais baixos nas indústrias de bens de capital em relação às indústrias de bens de consumo, visando induzir os recursos a migrar do inchaço existente nas indústrias de bens de capital para a escassez nas indústrias de bens de consumo. Todos os preços em geral cairão, devido à contracção do crédito bancário, porém os preços e os salários dos bens de capital cairão com maior intensidade que os bens de consumo. Em resumo, tanto o período de expansão quanto o de recessão serão mais intensos para a indústria de bens de capital que para a indústria de bens de consumo. Assim, explicamos a maior intensidade dos ciclos económicos naquele primeiro tipo de indústria.
Parece, no entanto, haver uma falha nesta teoria, pois, uma vez que os trabalhadores recebem este aumento de dinheiro na forma de salários mais altos de forma razoavelmente rápida e começam então a restabelecer as suas desejadas proporções de consumidor/investimento, como é possível que as expansões económicas continuem por anos a fio sem sofrer um revés, sem ter seus investimentos insalubres revelados ou os erros provocados pela manipulação dos bancos com os indicadores do mercado tornados evidentes? Em suma, por que se leva tanto tempo para que o processo de ajuste da depressão comece a entrar em funcionamento? A resposta é que os períodos de expansão económica seriam, de facto, muito pouco duradouros (digamos, alguns meses) se a expansão do crédito bancário e a consequente diminuição das taxas de juros para níveis inferiores às do mercado livre fossem algo que ocorresse num só golpe, porém, o ponto crucial é que a expansão de crédito não ocorre num só golpe. Ela ocorre de forma contínua, sem jamais dar ao consumidor a hipótese de restabelecer as suas proporções ideais de consumo e poupança, sem jamais permitir que o aumento no custo das indústrias de bens de capital alcance a alta inflacionária nos preços. Assim como um cavalo de corrida que é dopado de maneira contínua, a expansão económica segue adiante e à frente da sua inevitável retribuição através de doses repetidas e aceleradas do estimulante que é o crédito bancário. Somente quando a expansão do crédito bancário finalmente tem que ser interrompida ou reduzida bruscamente, seja porque os bancos começam a ficar instáveis ou porque o público começa a ficar inseguro com a continuidade da inflação, é que esta retribuição finalmente alcança a expansão, e assim que finda a expansão de crédito, as consequências têm de ser pagas, os reajustes inevitáveis precisam liquidar os super-investimentos desacertados do período de expansão económica e redireccionar a poupança rumo a uma produção mais orientada a bens de consumo. Claro que, quanto mais tempo este período de expansão económica for sustentado, maiores serão os maus investimentos que precisarão de ser liquidados e mais excruciantes serão os reajustes que precisarão ser feitos.
Assim, a teoria austríaca explica o acúmulo maciço de erros (super-investimentos nas indústrias de bens de capital revelados repentinamente através da interrupção do estímulo artificial da expansão de crédito) e a maior intensidade da expansão e recessão económicas nas indústrias de bens de capital do que nas indústrias de bens de consumo. A sua explicação para a recorrência, para o início do ciclo seguinte de expansão, é semelhante à da teoria ricardiana: uma vez que as liquidações e as falências foram superadas e os ajustes de preço e produção foram completos, a economia e os bancos voltam a recuperar-se, e os bancos podem voltar a dedicar-se a retornar ao seu curso natural e desejável de expansão do crédito.
E o que dizer da explicação austríaca — a única apresentada — a respeito da «estagflação»? Como é que, durante as recessões recentes, os preços continuaram a subir? Devemos primeiro corrigir esta afirmação apontando que foram especificamente os preços dos bens de consumo que continuaram a subir durante as recessões, que isto confundiu o público ao dar-lhe o pior de ambos os mundos ao mesmo tempo: uma alta taxa de desemprego e um aumento no custo de vida. Assim, durante a depressão mais recente, de 1974-1976, os preços dos bens de consumo aumentaram rapidamente, porém os preços das empresas grossistas permaneceram estáveis, enquanto os preços da matéria-prima industrial caíram rápida e substancialmente. Então como é possível que o custo de vida continue a subir nas recessões actuais?
Voltemos e examinemos o que aconteceu com os preços no ciclo de expansão e recessão «clássico» ou à moda antiga (pré-Segunda Guerra Mundial), em que durante as expansões económicas a oferta de dinheiro era elevada, os preços em geral eram elevados, porém os preços dos bens de capital subiam mais do que os de bens de consumo, atraindo assim recursos que seriam destinados às indústrias de bens de consumo para as indústrias de bens de capital. Resumindo, abstraindo-se os aumentos de preços em geral, relativos uns aos outros, os preços dos bens de capital aumentaram e os preços dos bens de consumo diminuíram durante o período de expansão económica artificial. O que aconteceu na recessão que se seguiu a ele? A situação oposta: a oferta de dinheiro diminuiu, e os preços em geral diminuíram, porém os preços dos bens de capital diminuíram mais do que os dos bens de consumo, extraindo recursos das indústrias de bens de capital para as indústrias de bens de consumo. Resumindo, abstraindo-se as quedas de preço em geral, relativas umas às outras, os preços dos bens de capital diminuíram e os preços dos bens de consumo aumentaram durante o período de recessão.
O ponto austríaco é que este cenário dos preços relativos durante os períodos de expansão e recessão económicas ainda tem ocorrido de maneira inalterada. Durante as expansões, os preços dos bens de capital ainda aumentam e os preços dos bens de consumo ainda diminuem, quando comparados uns aos outros, e vice-versa, durante a recessão. A diferença é que um novo mundo monetário chegou, como indicamos no início deste capítulo, pois agora o padrão ouro foi eliminado, e o banco central pode aumentar — e efectivamente aumenta — a oferta de dinheiro o tempo inteiro, esteja a economia passando por um período de expansão ou recessão. Não ocorreu uma contracção na oferta de dinheiro desde o início da década de 1930, e provavelmente não ocorrerá alguma no futuro próximo, portanto, agora que a oferta de dinheiro está sempre a aumentar, os preços em geral estarão sempre a aumentar, por vezes mais vagarosamente, por vezes mais rapidamente.
Em resumo, na recessão clássica, os preços dos bens de consumo sempre estavam a subir quando comparados aos bens de capital. Assim, se os preços dos bens de consumo aumentassem em 10% devido a uma recessão específica, e os preços dos bens de capital diminuíssem em 30%, os primeiros estavam a aumentar substancialmente em termos relativos, porém, do ponto de vista do consumidor, a queda no custo de vida foi muito bem-vinda, e de facto foi uma cobertura de açúcar sobre a amarga pílula da recessão ou depressão. Até mesmo durante a Grande Depressão da década de 1930, com taxas altíssimas de desemprego, aqueles que compunham os 75 a 80% da força de trabalho ainda empregados podiam desfrutar de preços relativamente baratos para seus bens de consumo. Actualmente, no entanto, com os ajustes keynesianos em acção, a camada de açúcar foi removida da pílula amarga. Agora que a oferta de dinheiro — e, por consequência, os preços em geral — jamais pode diminuir, o aumento nos preços relativos dos bens de consumo durante uma recessão atingirá o consumidor também na forma de um aumento visível nos preços nominais. O seu custo de vida agora aumentará durante uma depressão e, desta forma, ele terá o pior de ambos os mundos; no ciclo económico clássico, antes do domínio de Keynes e do Conselho de Assessores Económicos, ele pelo menos sofria apenas uma calamidade de cada vez.
Quais são então as conclusões políticas que surgiram rápida e facilmente a partir da análise austríaca dos ciclos económicos? Que elas são o exacto oposto daquelas do establishment keynesiano, pois, já que o vírus da distorção da produção e dos preços surge a partir da expansão inflacionária do crédito bancário, a receita austríaca para os ciclos económicos será: primeiro, se estivermos durante um período de expansão, o governo e os seus bancos devem interromper a expansão monetária imediatamente. É verdade que esta interrupção deste estimulante artificial inevitavelmente porá um fim à expansão económica inflacionária e inaugurará uma recessão ou depressão inevitável, porém quanto mais o governo adiar este processo, mais duros serão os reajustes necessários que ele terá de fazer, pois quanto mais cedo o reajuste depressivo for realizado, melhor. Isto também significa que o governo jamais deve tentar adiar o processo de depressão, deve-se permitir que a depressão se resolva o mais rapidamente possível, para que a verdadeira recuperação possa ser iniciada. Isto significa, também, que o governo deve evitar particularmente qualquer uma das intervenções tão queridas aos corações keynesianos. Ele jamais deve tentar sustentar situações económicas insalubres; ele jamais deve tentar salvar ou emprestar dinheiro para empresas que estejam a correr riscos, pois ao fazê-lo, ele estará simplesmente a prolongar a agonia e a transformar uma fase rápida e aguda de depressão numa doença crónica e permanente. O governo jamais deve tentar sustentar índices salariais ou preços, especialmente nas indústrias de bens de capital; ao fazê-lo, ele estará prolongando e adiando indefinidamente o término do processo de ajuste da depressão. Ele também estará provocando uma depressão indefinida e prolongada, além de um desemprego em massa, nas vitais indústrias de bens de capital. O governo não deve tentar expandir novamente a oferta monetária para sair da depressão, pois mesmo que esta reinflação seja bem-sucedida (o que não é nem de longe uma certeza), ela apenas trará maiores problemas e uma depressão mais prolongada e renovada no futuro. O governo não deve fazer nada para encorajar o consumo e não deve aumentar os seus próprios gastos, pois isto aumentará ainda mais a proporção entre consumo social e investimento — quando a única coisa que aceleraria o processo de ajuste seria diminuir esta proporção de forma que uma parte maior dos investimentos insalubres actuais passasse a ser validada e se tornasse económica. A única maneira pela qual o governo pode ajudar neste processo é baixar o seu próprio orçamento, o que deverá aumentar a proporção de investimento relativo ao consumo na economia (já que os gastos do governo podem ser vistos como gastos com consumo de burocratas e políticos).
Assim, o que o governo deve fazer, de acordo com a análise austríaca da depressão e dos ciclos económicos, é absolutamente nada. Ele deve interromper a sua própria inflação, e então manter uma política rígida de manter as suas mãos fora do processo, de laissez-faire. Qualquer coisa que ele fizer deverá atrasar e obstruir os processos de ajuste do mercado; quanto menos ele fizer, mais rapidamente o processo de ajuste do mercado fará o seu trabalho e garantirá uma recuperação económica sadia.
A receita austríaca para uma depressão é, portanto, diametralmente oposta à de um keynesiano: ela prega que o governo deve manter as suas mãos longe da economia, limitar-se a parar com a sua própria inflação e reduzir o seu próprio orçamento.
Deve estar claro que a análise austríaca dos ciclos económicos combina perfeitamente com o ponto de vista libertário em relação ao governo e a uma economia livre. Uma vez que o estado sempre deseja expandir a oferta monetária e interferir na economia, uma receita libertária deve enfatizar a importância de que o dinheiro e o sistema bancário estejam absolutamente separados do estado. Isto envolveria, no mínimo, a abolição do banco central e o retorno a um dinheiro-mercadoria (como, por exemplo, o ouro ou a prata), de forma que a unidade de dinheiro voltasse novamente a ser uma unidade de peso de uma mercadoria produzida pelo mercado e não o nome de um pedaço de papel impresso pelo aparato falsificador do estado.
SOBRE ESTE ARTIGO
O texto acima publicado corresponde à segunda e última parte do nono capítulo de «For a New Liberty: The Libertarian Manifesto». Este artigo consiste numa adaptação para Português de Portugal, da responsabilidade de Carlos Jorge de Castro, da tradução desta obra publicada pelo Instituto Ludwig von Mises Brasil.
[1] Para uma análise do resto deste capítulo, ver Rothbard, Depressions:Their Cause and Cure.
Murray N. Rothbard (1926-1995), economista americano, deixou-nos uma chamada de atenção particularmente certeira: “Não é crime ser ignorante em temas de economia, que é, afinal, uma disciplina especializada. Mas é totalmente irresponsável ter uma opinião enfatuada em assuntos de economia enquanto se permanece num estado de ignorância”. Escritor e divulgador da Escola Austríaca da economia, tornou-se um dos seus principais representantes nos EUA, particularmente numa abordagem anarcocapitalista. As suas contribuições académicas situaram-se nos mais diversos sectores: da economia à história, do direito à teoria política. Rothbard esteve intimamente ligado à fundação do Ludwig von Mises Institute, aquando da sua fundação por Llewellyn H. Rockwell, Jr. em 1982. Este tornou-se um dos principais meios de divulgação da sua obra.
Publicado originalmente em: http://mises.org.pt/posts/artigos/inflacao-e-os-ciclos-economicos-o-colapso-do-paradigma-keynesiano-parte-ii/
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