Itamaraty trocou pragmatismo diplomático pelo fundamentalismo religioso, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A atitude do presidente não tem uma motivação econômica ou diplomática. Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações por razões religiosas. É notório o fato de que os evangélicos que apoiaram o bolsonarismo exigem uma aproximação maior entre o Brasil e Israel. Todavia, nenhuma Igreja Evangélica irá pagar os prejuízos

Divulgação/Presidência

Incapaz de governar o Brasil ou não desejando fazer isso, desde que tomou posse Jair Bolsonaro tem feito de tudo para aumentar e multiplicar as tensões que a crise política e econômica produziram. Ele já havia colocado ricos contra pobres, fazendeiros contra sem terras, direita contra esquerda, brasileiros contra índios, Brasil contra a Venezuela e militares contra a sociedade.

Em visita oficial à Israel, Bolsonaro rompeu com a política externa brasileira e visitou o Muro das Lamentações. Aquele local é foco de uma disputa política, ideológica e religiosa entre palestinos/islâmicos e judeus/israelenses desde que Israel invadiu aquela área controlada por palestinos durante a guerra dos 6 dias em 1967 https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_dos_Seis_Dias.

A atitude do presidente não tem uma motivação econômica ou diplomática. Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações por razões religiosas. É notório o fato de que os evangélicos que apoiaram o bolsonarismo exigem uma aproximação maior entre o Brasil e Israel. Todavia, nenhuma Igreja Evangélica irá pagar os prejuízos que a atitude presidencial causará aos empresários brasileiros que exportam carnes e grãos para o Oriente Médio.

A peregrinação de Bolsonaro ao Muro das Lamentações pode até contentar os evangélicos, mas ela despertará o ódio dos brasileiros que são descendentes de imigrantes sírios/libaneses. Ao substituir o pragmatismo diplomático que orientava nossa política externa pelo fundamentalismo religioso internacional, o presidente do Brasil pode ter acionado o mecanismo que resultará numa guerra interna semelhante àquela que ocorreu no Líbano.

A cada ato administrativo praticado sob inspiração religiosa, Bolsonaro submete a União ao domínio da teologia evangélica criando distinções entre os brasileiros com violação do art. 19, I e III, da CF/88. Mas ao que parece os procuradores do MPF continuarão dormindo em salário esplêndido.