Não só o Brasil, mas a esquerda brasileira também chegou ao fundo do poço, por Álvaro Miranda

Mas, como a política não se faz com futuro do pretérito, mas sim pensando no futuro simples, ainda que complexo (e inexistente) por suas incógnitas, temos sempre que lembrar que o voto é uma aposta institucionalizada e não um cheque em branco.

Não só o Brasil, mas a esquerda brasileira também chegou ao fundo do poço

por Álvaro Miranda

Sem lamentações ou ressentimentos, os fatos são eloquentes e duros para mostrar que a esquerda brasileira, se é que temos uma, chegou ao fundo do poço, destroçada em termos de propostas – atônita e desorientada, limitando-se a passar recibo para os xingamentos e ofensas dos neofacistas.

Evidente que descalabros administrativos e discursivos têm que ser arrostados e enfrentados institucionalmente e – com todo o respeito a parlamentares do PT e demais partidos do campo democrático – não podemos deixar de reconhecer que muitos políticos com mandato enfrentam e fazem o que podem nas suas investiduras.

O fundo do poço se materializa na assunção de apoios de certos setores da esquerda a neoliberais que vêm se apresentando como alternativa plausível e aceitável para 2020 ao governo de Jair Bolsonaro, este que tem sido a  expressão maior da retroescavadeira ultraliberal que aprofundou o fundo do poço brasileiro após a abertura da Caixa de Pandora do golpe que derrubou Dilma Rousseff em 2016.

O exemplo recente e recorrente é a badalação midiática do nome do ex-presidente do Banco Central da Era FHC, Armínio Fraga, como alternativa de proposta neoliberal palatável e plausível, isto é, uma meia bomba de perspectiva econômica com preocupações sociais.

Nome que seria a consolidação da ocupação dos espaços de uma espécie de centro-esquerda. Nome que contribuiu para a destruição da própria esquerda no auge do receituário neoliberal da década de 1990, destruição que já acontecia, claro, desde os tempos da ditadura.

Em termos concretos e reais do caso específico, imagino que o termo “centro-esquerda” não deixa de ser uma forma de forçar a barra para encaixar significantes e significados. Mas revela a mistura de lama de dois fundos de poço: a situação a que chegou o Brasil em seus (des)limites de obscurantismo, sem perspectivas de um futuro decente, faz com que qualquer neoliberalismo adocicado com ingredientes sociais seja um respiro alvissareiro.

Vejam: não se trata de uma crítica a Armínio Fraga, tampouco a certos setores da esquerda que sinalizam apoio ao ex-presidente do Banco Central. É, na verdade, o atestado de uma situação-limite e, quem sabe, lamentavelmente, a rendição de forças, fatores e ideias dentro de conjunturas possíveis. Seria a continuidade do neoliberalismo com bolsa-família ou bolsa-qualquer-outra coisa sem transformações estruturais para perpetuar as desigualdades históricas entre ricos, classes médias e pobres.

Resumidamente, é a assunção do liberalismo político imbricado no liberalismo econômico do estadunidense Johw Rawls, segundo qual os ricos podem e devem enriquecer mais desde que os pobres ganhem também alguma coisa.

Lula talvez tenha muita responsabilidade recente nisso tudo ao não abrir mão de sua candidatura em 2018, num momento de adversidades políticas, econômicas, jurídicas e eleitorais. Não fez, por exemplo, como Cristina Kirchner, que, ao aceitar ser candidata a vice numa chapa eleitoral, conseguiu derrubar o governo defensor dos fundos abutres, na Argentina.

Se era para chegarmos a esse ponto, entre a cruz e a espada de um neoliberalismo como fato inexorável, Ciro Gomes talvez tivesse revolvido a lama de dúvidas do fundo do poço, dúvidas de diferentes setores à direita e à esquerda – e, quem sabe, estivéssemos hoje em outra direção.

Mas, como a política não se faz com futuro do pretérito, mas sim pensando no futuro simples, ainda que complexo (e inexistente) por suas incógnitas, temos sempre que lembrar que o voto é uma aposta institucionalizada e não um cheque em branco. Não um aval às cegas a qualquer política pública, muito menos a vestimenta de camisa ideológica pura sem contradições.

Para não ficarmos engrossando o caldo do antipetismo de forma involuntária e temerária, lembro que a destruição da esquerda faz parte de um longo processo para o qual o próprio PT contribuiu ou foi levado a contribuir pelas condições históricas do seu percurso.

E o fez, não por conspiração novelística de traições assombradas, mas sim dentro da trajetória contraditória em que setores remanescentes da esquerda destroçada pela ditadura se aglutinaram no partido por falta de outras opções e/ou por interpretações distintas da realidade, além de resistência a opções mais firmes e radicais.

Se ressentimento e futuro do pretérito não têm valor prático para a política, saudosismo também não. Porém, tirando Leonel Brizola, sempre coerente, mesmo em períodos históricos distintos, aquilo que chamamos de forças progressistas, após a redemocratização do país, embarcou no neoliberalismo em 1990 e continuou esse neoliberalismo na década seguinte com muitos avanços, é verdade, para depois, parte dessas forças sofrer golpe perpetrado por outras partes aliadas de Armínio Fraga e da direita que elegeu Bolsonaro.

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