“Nós somos guerreiras e vamos lutar pelos defensores da floresta”!, por Luisa Barreto

Alessandra Munduruku e Vandria Borari marcam presença na marcha global pelo clima que reuniu cerca de 270 mil pessoas nas ruas de Berlim

“Nós somos guerreiras e vamos lutar pelos defensores da floresta”!

por Luisa Barreto

Alessandra Munduruku e Vandria Borari marcam presença na marcha global pelo clima que reuniu cerca de 270 mil pessoas nas ruas de Berlim e seguem em ação junto a ativistas e coletivos de artistas na capital da Alemanha.

Domingo, 22 de setembro de 2019, dois dias após a maior manifestação pelo clima ocorrida em diversos lugares do mundo na última sexta-feira, 20 de setembro de 2019, duas líderes indígenas, Alessandra Munduruku e Vandria Borari, participaram de uma conversa na galeria Savvy Contemporary em Berlim, com mediação da artista, cineasta e escritora Barbara Marcel e da jornalista e pesquisadora Camila Nóbrega.

“Os Mundurukus estão sofrendo com os agrotóxicos; os igarapés, as águas e os animais estão sendo contaminados; pássaros, macacos, preguiças são encontrados mortos pelos pesticidas. Estamos perdendo as abelhas da floresta, que são fundamentais para produzir comida. Minha terra está sendo grilada, loteada e vendida a empresas internacionais”, diz Vandria Borari.

Assim começou a falar Vandria, sobre os motivos da vinda à Europa. Cobrando a interferência da Alemanha e de países europeus na Amazônia, Vandria pediu que os alemães controlassem as empresas com negócios na região. A conversa, cujo título era “O que mais queima quando a Amazônia queima?” chamou atenção para o envolvimento internacional na devastação da Amazônia.

“O Brasil assinou um acordo com a Europa que legitima a destruição da Amazônia”, disse Vandria, após explicar o projeto de exploração em curso em Tapajós. Segundo ela, o plano que divide a região em zonas de exploração é a continuação de um projeto iniciado durante a ditadura militar para construção de estradas.

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À época, 14 milhões de hectares de floresta foram destruídos por uma bomba, hoje, estão sendo construídas novas ferrovias, hidrovias, portos e hidroelétricas financiadas por empresas europeias e norte-americanas, completa Vandria.

A região do Médio-Tapajós de onde vem Alessandra Munduruku está sendo massivamente invadida por madeireiros e garimpeiros e o Baixo-Tapajós, terra de Vandria Borari, além do garimpo e da indústria madeireira, campos estão sendo abertos para produção de soja e especulação imobiliária.

“Para falar de queimada precisamos falar de invasão”, disse Alessandra Munduruku.

Em seguida a fala de Vandria, Alessandra destacou em números, que mais de 43 hidroelétricas estão sendo planejadas na região do Tapajós, sendo que quatro já foram construídas: a Teles Pires, Sinop, São Manuel e Colíder. “O Rio Tapajós é o mesmo, o que mudam são os nomes do rio, o rio Juruena e o Teles Pires são parte do mesmo Rio Tapajós, eles estão ligando esses rios”, explica Alessandra.

Isto afeta 14.000 Mundurukus somente no Pará, mas existem muitos outros também no Amazonas, Mato Grosso, em Roraima, disse ela. Além disso, a retomada da “Ferrogrão”, novo corredor ferroviário de exportação de milho, soja, farelo e óleo de soja; fertilizantes, açúcar, etanol e derivados do petróleo que irá ligar, em 933 km de extensão, Sinop, no Mato Grosso a Miritituba, no Pará, afetará a vida de três populações indígenas: os Munduruku, Kayapó e Paraná.

“Antes éramos livres como os pássaros para circular, antigamente era assim, saíamos de um lugar e íamos para outro, agora não podemos mais”, diz Alessandra.

A construção de portos graneleiros de soja associam-se a exploração madeireira e às queimadas e junto com a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), que cortam o fluxo natural dos rios, e a garimpagem formam um grande complexo de intervenção. O projeto de construção de hidrovias, que envolve a construção de três barragens nos rios São Luiz do Tapajós, Jatobá e Chacorão, que promete alagar uma grande extensão das terras do povo Munduruku, faz parte do mesmo projeto.

Alessandra conta que em 2017, a comunidade da qual ela faz parte conseguiu barrar uma audiência formada por seis usinas hidrelétricas pequenas e uma maior no Rio Cupari, mas que atualmente o processo de consolidação dessas usinas está sendo retomado. Ela diz que hoje existem mais de 100 projetos de PCHs sendo realizados nos rios menores na bacia do Tapajós.

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“Existem projetos maiores e menores. Nesse ano conseguimos enfrentar os madeireiros sozinhos, junto com os parceiros de confiança, mas agora eles voltaram com armas”, disse Alessandra Munduruku. Diversas aldeias e lugares sagrados serão alagados para servir a projetos de construção de hidrelétricas e hidrovias, mas o Brasil não faz isso tudo sozinho, disse ela.

“A companhia que faz as turbinas para as hidrelétricas brasileiras é alemã”. “É a mesma que fez as turbinas para Belo Monte, completa Vandria. Além de tudo, há também a interferência de ONGS e agências internacionais que querem ensinar aos índios o manejo florestal, como a The Nature Conservancy (TNC), a World Wide Fund for Nature (WWF), além da atuação de agências como a United States Agency for International Development (USAID), advertiu Alessandra.

Alessandra Munduruku e Vandria Borari terminaram a conversa reforçando que a luta pela demarcação das terras indígenas vai continuar. Proteger as terras e os povos originários, difícil em governos anteriores, ficou ainda pior no governo Bolsonaro. Vandria, formada em direito na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), ressaltou como o aspecto jurídico é extremamente importante e falou ainda sobre a dificuldade de impedir a atuação da máfia que atua na compra de títulos de terra e registros ilegais, no caso, o Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Vandria, que escreveu em seu trabalho de conclusão de curso de graduação sobre a Lei de Acesso a Informação (LAI- 12.527/2011) e os procedimentos demarcatórios das terras Borari, diz que o processo de demarcação já tramita há mais de 10 anos e que algumas terras esperam há mais de 30 para ter a demarcação concluída.

A força das comunidades e principalmente das mulheres na luta pela vida é imensa, mas precisa de reforço. “Agora somos mulheres que filmam, essa é a arma que estamos usando agora, estamos documentando tudo. Estamos atuando também pela internet, em associação com movimentos nacionais e internacionais e com os ribeirinhos, nossos amigos de aliança. Vamos lutar com nossos corpos e cânticos”, é tudo o que temos, finaliza Alessandra.

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Luisa Barreto é jornalista, colaboradora do portal GGN e do Outras Palavras mestre e doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP), mestranda em Estudos Africanos na Universidade Humboldt de Berlim e professora do curso Técnica Klauss Vianna (PUC/SP).

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1 comentário

  1. Não poderia deixar de fazer um único comentário. Se esses Promotores e Procuradores manifestaram respeito e solidariedade ao ex-Presidente Lula quem sou eu para também não ser respeitoso e solidario.

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