Notas sobre a recente recepção de Pasolini no Brasil, por Rogério Mattos

Pasolini se contrapõe a uma distinção formalista entre fascismo adjetivo e fascismo substantivo, como exposto por Franco Fortini no jornal Il Politecnico.

Notas sobre a recente recepção de Pasolini no Brasil, por Rogério Mattos

Com a volta da extrema-direita em escala mundial, com a série de golpes de Estado novamente em toda a América Latina, parece ter ressurgido no Brasil o interesse pela obra do poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Seu estudo não vem sem já um aparato crítico, em especial o livro de Georges Didi-Huberman, A sobrevivência dos vagalumes, o volume dedicado ao cine-poesia “La Rabbia”, Sentir le grisou, além de capítulo importante no quinto tomo de sua série “O olho da história”. Pode ser adicionado a isso a ampla recepção que os livros de Giorgio Agamben tiveram por aqui, além da facilidade com que consumimos a literatura europeia e, de um modo especial, a francesa.

Vinícius Nicastro Honesko (editor do ótimo blog Flanagens), ao viajar para a Itália durante sua pesquisa de doutorado (sobre Murilo Mendes), teve a oportunidade de conversar com Agamben. O filósofo acaba por lhe indicar um livro, necessário para o entendimento do tempo presente. Trata-se das Cartas luteranas, de Pasolini (na série editorial, é a continuação de seus Escritos corsários).

O professor Honesko é um dos tradutores de Agamben no Brasil e dedicou um livro ao cineasta italiano, num percurso menos acadêmico do que sentimental chamado Pier Paolo Pasolini: estudos sobre a figura do intelectual. Contudo, se uma bibliografia mais vasta for consultada, vê-se que o interesse nacional por Pasolini é antigo, como provam os trabalhos de Luiz Nazário, que publica sobre o tema desde a década de 1980 e que teve esses trabalhos posteriormente reunidos no livro Todos os corpos de Pasolini.

Parece-me um fenômeno europeu que, pelas atuais situações políticas tanto da Europa quanto do Brasil, acabou por ser acolhido pelos leitores brasileiros. Entre os inúmeros debates que podem ser (e são feitos), um dos preferidos é o sobre o famoso “artigo dos vagalumes”, da chamada fase corsária de Pasolini.

Leia também:  A refundação do Brasil no corredor do Carrefour, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Gostaria de me ater brevemente nesse texto, com o objetivo de usar o instrumental teórico deixado pelo intelectual italiano naquela longínqua década de 1970 como terminologia operatória para contar o que, na época das ditaduras militares e do triunfo do welfare state lá fora, ainda não se via com clareza e Pasolini chamou então de “mutação antropológica”.

Ele distingue o fascismo da época de Mussolini, quando ainda haviam vagalumes, do neofascismo tecnocrático e pseudoprogressista do governo democrata cristão italiano. Se havia um fascismo terrível na época de Hitler e Mussolini, ainda existiam vagalumes, isto é, pequenas luzes que poderiam iluminar ou inspirar a criação poética. No neofascismo somente existem os holofotes do poder, ou seja, uma luz tão forte que causa a cegueira ou a escuridão completa.

Pasolini se contrapõe a uma distinção formalista entre fascismo adjetivo e fascismo substantivo, como exposto por Franco Fortini no jornal Il Politecnico. O fascismo dos governos democrata-cristãos atenderiam a essa nomenclatura quando eram simples continuação do fascismo de Mussolini. A distinção seria válida até dez anos atrás (1965), segundo Pasolini, porém alguma coisa se passou nesse período:

A distinção entre o fascismo fascista e o fascismo desta segunda fase do poder democrata cristão não tem termos de comparação não só na nossa história, como provavelmente em toda a história (…)

Todos os meus leitores terão certamente percebido a transformação dos dirigentes democrata-cristãos: em poucos meses, tornaram-se máscaras mortuárias. É verdade que continuam ostentando sorrisos radiantes, de uma sinceridade incrível, Em suas pupilas se agruma o verdadeiro e beato brilho do bom humor. Quando não se trata do brilho debochado da astúcia e da velhacaria. Coisa que aparentemente agrada tanto aos eleitores quanto a felicidade plena. Além disso, nossos dirigentes prosseguem impávidos no seu palavrório incompreensível, em que flutuam as flatus vocis das habituais promessas estereotipadas.

Na realidade, trata-se efetivamente de máscaras. Estou certo de que, se tirássemos essas máscaras, não encontraríamos nem mesmo um monte de osso ou de cinzas: haveria o nada, o vazio. (PASOLINI, Escritos corsários. O artigo dos vagalumes)

Retrospectivamente é bem mais fácil analisar o que aconteceu. Talvez por não estar sofrendo da mistura de totalitarismo com social-democracia que foi nossa ditadura, por enxergar desde o início o Terceiro Mundo dentro do Primeiro Mundo, ou mesmo por razões meramente pessoais, subjetivas, difíceis de nominar, Pasolini compreendeu com certa clarividência a mudança de regime que se operava em escala internacional. Sua fase corsária também é sua fase “apocalíptica”, como chamam.

Leia também:  Das continuidades do estado de exceção no pós-Constituinte, por Rogério Mattos

O fascismo estava se reorganizando internacionalmente e seus movimentos eram ainda pouco claros, ainda mais para quem se empenhava em retirar os componentes fardados do poder, ou seja, o caso da luta contra as ditaduras na América Latina. Nelson Werneck Sodré, em suas memórias sobre o golpe do 1º de abril, Fúria de Calibã, escrita em 1972, relata seu espanto no período com o regresso político brasileiro. O fascismo e o nazismo, e o militarismo de um modo geral, tinham sofrido uma derrota definitiva, enquanto o socialismo estava em ascensão no mundo e o imperialismo, apesar de furioso, lidava com um recuo jamais visto…

A tecnocracia dos governos do pós-guerra, tão bem encarnada pelos governos militares, será referida posteriormente por Joel Rufino dos Santos (outro quadro do ISEB, aluno de Sodré e um dos escritores da História Nova, cuja percurso ainda está por ser historiado) como um elo de continuidade entre a ditadura e os governos democráticos [aqui]: o neofascismo de caráter liberal que já se esboçava na Europa e que se consolidou no Brasil depois da queda do muro de Berlim.

A grande decepção das elites brasileiras atualmente é não poderem ter repetido com o mesmo sucesso os governos da época da voz única emanada de Washignton, cujo símbolo maior foi o grupo encabeçado por Fernando Henrique Cardoso e sua mirabolante equipe econômica: literalmente, máscaras mortuárias com “o verdadeiro e beato brilho do bom humor”. O que Bolsonaro revela sob o slogan de “alt-right” nada mais é do que uma propaganda de cobertura. Esse movimento político supostamente novo é meramente a cara da elite tecnocrática sem máscaras, com o rosto de quem acabou de acordar, sem banho e com hálito de defunto.

Leia também:  Bancos de Investimento e Negócios de Valores Mobiliários, por Fernando Nogueira da Costa

Os acordos incessantes de Bolsonaro com as “instituições”, cujo início se deu nos dias subsequentes à primeira grande manifestação estudantil contra seu governo, em maio de 2018, com o churrasco com Toffoli e Maia e um encontro com mandatários da rede Globo, se perpetua continuamente. Ainda vivemos, portanto, sob o “paradigma Jucá”. Assim continuam os acordos “com Supremo, com tudo” e, hoje, permanece difícil vislumbrar a saída do estado de crise permanente inaugurado na tríada “jornadas de junho” (2013), o papel do PSDB na eleição de 14 e a eleição de Cunha com a ajuda da Globo, e, claro, com o pleno funcionamento da Lava-Jato a partir de 2015.

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica os seus escritos.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora