O bolsonarismo pós-Bolsonaro, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

O bolsonarismo sobreviverá a Bolsonaro porque o presidente centralizou e sistematizou uma tendência preexistente, mas silenciosa, amorfa e dispersa, e até então sem meios, espaços e canais por onde se expressar, se encontrar e se estruturar.

Fabio Pozzebom - Agência Brasil

O bolsonarismo pós-Bolsonaro

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

No último final de semana, assistiu-se, mais uma vez, às manifestações dos apoiadores fiéis do presidente, os autoproclamados patriotas. Os mesmos que resistem como os 30% que sempre avaliam o presidente como ótimo ou bom nas pesquisas de opinião. Os mesmos que riem de suas gracinhas no cercadinho do Alvorada. Em tais manifestações, mostram como são coordenados, homogêneos e nacionalmente conectados.

Tal articulação indica que o bolsonarismo certamente sobreviverá a Bolsonaro.

De certa forma, o bolsonarismo já antecedia o próprio Bolsonaro. Esta tendência já estava entre nós, latente, enquanto predisposição. Em que pese a ampla estrutura de desinformação e manipulação via redes sociais e aplicativos de mensagem, há uma predisposição do brasileiro médio à mensagem bolsonarista. Ela é uma semente que encontra terreno fértil em nossa constituição cultural escravagista, autoritária, elitista, desigual e patriarcal. Seu simplismo, sua retórica beligerante, suas piadinhas de péssimo gosto e sua valentia covarde de quem abandona entrevistas inconvenientes representam exatamente muitos de nós. Bolsonaro é o tradutor-intérprete do Brasil de sempre. 

Bolsonaro deu voz a seus seguidores, organizou-os, conectou-os, forneceu-lhes conceitos, discursos, “teorias”, enfim, uma linguagem. Deu-lhes palavras para expressar aquilo que sentiam, que já traziam consigo, mas que não sabiam como dizer. De certa forma, Bolsonaro os alfabetizou.

Assim, o bolsonarismo sobreviverá a Bolsonaro porque o presidente centralizou e sistematizou uma tendência preexistente, mas silenciosa, amorfa e dispersa, e até então sem meios, espaços e canais por onde se expressar, se encontrar e se estruturar.

Agora, inclinações e anseios subterrâneos ascenderam à voz oficial do Brasil. A nostalgia reacionária de um passado que nunca existiu, e que se deteriora mediante uma suposta desordem moral. A vingança do macho branco e tolhido. A reação a agendas identitárias e ódio às minorias. O ressentimento pela ascensão das classes trabalhadoras a novos patamares de consumo, turismo e escolarização. Não tem volta: mesmo após nos livrarmos do presidente, teremos de conviver com essa comunidade política, moral, simbólica, antidemocrática e radical que sempre esteve aí, e que agora se estruturou e se consolidou como força política. Eis o Brasil que ressurge dos escombros da ordem democrática.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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