Em entrevista publicada na edição 1050 da revista Exame, o célebre economista Dani Rodrik expõe sua visão sobre o processo de desindustrialização. Rodrik afirmou ser filho da política de substituição de importações, pois seu pai era dono de uma fábrica na Turquia e, com a ajuda das proteções comerciais, logrou prosperar. A partir de fortuna acumulada, o filho foi estudar nos Estados Unidos.
Dani Rodrik vem usando seu precioso tempo acadêmico para estudar o desenvolvimento econômico dos países. Ele passou vinte e quatro anos em Harvard e se transferiu recentemente para a Universidade de Princeton, mais especificamente para o prestigiado Instituto de Estudos Avançados. Autor de diversos trabalhos acadêmicos internacionais relevantes, podemos aprender muito com suas observações.
Segundo Rodrik, “nos primeiros anos de um processo de industrialização, os países dão grandes saltos em produtividade e crescem com a migração de seus agricultores para as cidades. Isso acontece mesmo sem investimentos significativos em capital humano e no fortalecimento das instituições”. O Brasil cresceu assim durante as décadas de 1960 e 1970. Algo similar ocorreu com a Coreia do Sul e Taiwan. No entanto, esse processo tem um baixo fôlego, seja por falta de tecnologia ou em razão do aumento da competição global. Atingido o status de renda média, o crescimento se torna mais difícil.
Para ultrapassar esse ponto, necessita-se invariavelmente de investimentos em capital humano e em capacidade institucional (governança, instituições e regulação econômica). Tais investimentos são custosos, demandam tempo de maturação e não produzem resultados imediatos. Esse parece ser o caso do Brasil neste momento histórico.
Do ponto de vista do crescimento da produtividade nacional, Rodrik aponta na seguinte direção: “Manter exportações de produtos industrializados em alta parece chave para sustentar o crescimento econômico acelerado. Esse é o segredo por trás do rápido avanço de países como Coreia do Sul e Taiwan, que conseguiram escapar da chamada ‘armadilha da renda média’ e se desenvolveram. Mas, mesmo nesses países, há um limite para esse processo”. O limite é estabelecido pela concorrência internacional e mudanças dos preços relativos dos fatores de produção, algo que afeta os países pela via da desindustrialização e o aumento da importância do setor de serviços.
A desindustrialização brasileira iniciou-se prematuramente, antes do país vencer a armadilha da renda média e, nesse sentido, ela não deslocou mão de obra para serviços de alta produtividade. O ritmo do crescimento econômico foi afetado, assim como o seu potencial de crescimento sem grandes pressões inflacionárias. De acordo com Rodrik, “é muito difícil ressuscitar a indústria como um motor de crescimento uma vez que se tenha começado um processo de desindustrialização”. Logo adiante, ele completa o raciocínio: “a reindustrialização não é uma opção realista. As indústrias que sobreviverão serão as altamente produtivas e de capital intensivo. São aquelas focadas em qualidade e produtividade”. Elevar a produtividade geral da economia, a partir de qualificados investimentos em capitais humanos e físicos, torna-se essencial.
Podemos afirmar com tranquilidade que o Brasil esteja se preparando efetivamente para tal cenário? Com persistentes incertezas quanto ao câmbio, problemas na sua onerosa infraestrutura física e o crescente déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, esse debate deveria ser prioritário.
Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)
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