O núcleo crítico das boas novas, por Bruno Reikdal Lima

Rever o papel desempenhado pela própria religião e suas relações com outras instituições e outros poderes de maneira crítica é o núcleo que torna possível a compreensão de toda a mensagem de Jesus.

O núcleo crítico das boas novas, por Bruno Reikdal Lima

A tradição semita da Bíblia tem em seus mitos um conteúdo crítico fundamental: a noção de que toda ação, produção e organização humana se corrompe. Os projetos desenvolvidos tem tempo limitado de funcionamento, e os efeitos históricos das transformações sociais e suas condições produzem exclusões, imperfeições. Os projetos acabam traindo seu fundamento: são feitos para auxiliar a vida de uma comunidade, mas quando perdem sua função devido a contingência da vida, se tornam seu contrário, e ao invés de garantir a vida da comunidade, a destrói. Assim é, por exemplo, a organização de trabalho desenvolvida pela personagem José, governante hebreu no Egito, no período de seca: em que as pessoas trocavam sua oferta de trabalho por porções de comida para que a vida de suas famílias prosseguisse. Ao final do livro do Gênesis, José e seu povo se firmam na terra egípcia sob essas condições. O livro do Êxodo, em seguida, inicia sua narrativa contando sobre um rei que assume o trono sem saber quem era José e o que havia feito, assustado apenas com o número de pessoas estrangeiras que trabalhavam em sua terra. Aproveitando do modelo produtivo instituído anteriormente, inaugura a escravidão: os trabalhos realizados em troca de alimento agora eram forçados e vigiados com violência.

Desse modo, uma instituição criada em determinado tempo para a salvação da vida de grupos humanos, se corrompe e inaugura ela mesma uma nova ordem violenta, que realiza seu contrário. Outro mito que explica a “situação-limite” é a famosa narrativa da arca de Noé, que no período das chuvas abrigou e protegeu a vida na Terra, mas que ao fim do dilúvio precisava sair daquela estrutura criada para salvação. Passadas as condições para as quais determinado projeto é desenvolvido, esse mesmo projeto atinge seus limites e precisa ser criticado, transformado ou mesmo abandonado. E encontraremos referências a essa racionalidade em todo texto, que ao remontar a narrativa da história do povo, traz elementos que se voltam em seu contrário – a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, a montanha em que Jacó preparou um altar, os profetas denunciando os holocaustos, as tendas e o próprio templo, além de muitas outras histórias que poderíamos retomar. Em suma: produtos da atividade humana preparados para organizar ou salvar a vida da comunidade por um tempo, podem nas gerações seguintes realizar o oposto para o qual foram criadas.

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Mesmo no Novo Testamento, nos evangelhos, em Atos, nas epístolas e no Apocalipse, essa racionalidade continua acompanhando as comunidades. No livro de Marcos, por exemplo, escrito, compilado e finalizado por uma comunidade de seguidores de Jesus por volta do ano 70, depois da diáspora, encontramos as boas-novas anunciadas por meio da personagem de João Batista, um líder popular que anuncia no deserto e às margens do rio Jordão o perdão de pecados por meio de um ritual de purificação, o batismo. Nada mais era do que um banho, assumido simbolicamente como um rito que garantia a reinclusão das massas pobres na sociedade. Era dever de todo cidadão realizar ao menos uma vez no ano um sacrifício de perdão dos pecados (além de uma série de práticas religiosas cotidianas e sacrifícios específicos para cada situação crítica da sociedade). A Lei requeria estes sacrifícios e, depois da criação do Templo na instauração do reino de Israel, esse seria o local obrigatório para o sacrifício anual. Essa prática, entretanto, era muito cara, requeria recursos,  e o povo excluído dos centros urbanos, marginalizado em sua própria terra por um Império central que os escravizava, tendo que pagar os impostos às governanças locais, ao rei-fantoche da região e ao imperador, não tinha como fazer o voto. Eram, portanto, “pecadores”, pois não se purificavam. Estavam em desacordo com a Lei, estavam “fora da lei”.

A esses desvalidos vagabundos se somavam os doentes, colocados para fora das cidades e, muitas vezes, de seus próprios círculos familiares fossem em “cumprimento da lei”, fosse porquê se considerava que pessoas ficavam doentes pois tinham algum “pecado”, algum crime cometido e não purificado. No deserto e às margens do rio, então, um ermitão substituía o sacrifício no Templo por um banho ritualístico. Não era apenas uma “salvação espiritual” ou uma mensagem agradável para preferências de ouvintes, mas uma contestação à toda estrutura religiosa, política e econômica de seu tempo, das instituições que executavam o poder e reproduziam massas excluídas. O batismo, como símbolo em um ritual, era a passagem para renovação da dignidade humana daquelas pessoas marginalizadas e postas de fora das relações sociais, que não eram aceitas como parte do povo. Por isso, a mensagem era de arrependimento (não de uma culpa vazia, mas para a reinserção social), pois o reino dos céus (aos quais agora essas pessoas pertenciam, não sendo apenas parte do povo de Deus, mas integrantes de seu reino) estava próximo. Será esta, inclusive, a primeira mensagem de Jesus nos evangelhos.

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Todavia, Jesus é anunciado como alguém que vai além de João: não precisa nem do ritual do batismo para perdoar os pecados dos excluídos e dos doentes. Com sua autoridade, falava que as pessoas poderiam ir em paz, pois já tinham sido perdoadas de seus crimes, por não terem cumprido com os rituais, por não estarem na ordem imposta pelo Templo e as castas sociais beneficiadas por essa estrutura. A purificação estava ligada aos que necessitavam de uma nova ordem de vida, uma nova organização social que os incluía. Desse modo, certa vez, sentado com cobradores de imposto (considerados corruptos pelas ordens sociais vigentes de seu tempo) e outros pecadores (não especificados), Jesus foi criticado por andar com “esse tipo de gente”. Em resposta, questionou se os médicos tinham sua função no atendimento de quem estava são ou de quem estava doente. Conclui, então, que “não vim para os que são justos, mas para os pecadores”.

Desse modo, evangelho que não contesta as situações de exclusão e as ordens sociais que promovem o isolamento de grupos humanos, que roubam sua dignidade, ou mesmo não questiona as instituições que fundamentalmente funcionam para seu oposto – ou seja, ao invés de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana na comunidade, mata e violenta – deve avaliar se está cumprindo seu papel crítico conforme sua tradição. As boas novas tinham posição, em defesa das pessoas que sofriam com as relações excludentes, contra instituições que exigiam sacrifícios impagáveis ou que tornavam inviável a garantia de vida da comunidade, de modo a recuperar a dignidade e anunciar uma nova ordem – que como toda produção humana, caso consiga estabelecer novas estruturas, uma hora atinge seus limites e pode voltar contra si mesma. Rever o papel desempenhado pela própria religião e suas relações com outras instituições e outros poderes de maneira crítica é o núcleo que torna possível a compreensão de toda a mensagem de Jesus. Sem isso, o evangelho é esvaziado e corre o risco de fazer o contrário daquilo que se propõe, assim como seus ritos e símbolos, que sem recuperar seus fundamentos, podem funcionar apenas como aparelhos de exclusão e para a manutenção de privilégios de autoridades estabelecidas.