O Pacote Guedes e a caixa vazia, por Andre Motta Araujo

Na execução de política econômica não há nada, não há decisão, não há correção, não há ideias ou projetos de aplicação e operação, é um caos completo de gestão.

Agência Brasil

O Pacote Guedes e a caixa vazia

por Andre Motta Araujo

Na campanha eleitoral de Jair Bolsonaro o fator Paulo Guedes foi fundamental para dar um verniz técnico à futura política econômica. Não era real, mas era o percebido pelos eleitores, pela classe média alta, pelo núcleo da agricultura, pelos atores econômicos, pela mídia conservadora e pelo círculo fechado dos jornalistas comentaristas, especialmente os ligados aos “mercados”.

Sem conhecer Bolsonaro e seu histórico currículo de independência absoluta de comandos externos, sem saber nada da personalidade política do candidato, esses eleitores olhavam Guedes pensando em um perfil Delfim ou Malan, os chamados “czares” da economia no conceito americano de grande comando.

Nos governos anteriores a 1988 e no governo FHC, Delfim e Malan tinham a completa confiança do Presidente de turno e DELEGAÇÃO de cada um desses Presidentes para dirigir a política econômica, mas não toda a economia. Áreas importantes ficavam fora do comando desses super Ministros, áreas como Minas e Energia, Trabalho e Previdência, Indústria e Comércio, PETROBRAS, BNDES, Banco do Brasil, a delegação era exclusivamente para política monetária, cambial, de crédito e relações econômicas internacionais, o que já ERA muito. A enorme complexidade da economia brasileira, com zonas de alto consumo, zonas de enorme carência, parte industrial, parte agronegócio, parte serviços, é um mundo.

Mas era uma delegação de verdade, para valer, de modo que o Ministro falava pelo Governo com completa autoridade e sua palavra era AVAL de uma política econômica que ele comandava com poder incontestado. Nada disso, absolutamente NADA, aconteceria com Guedes. Bolsonaro NUNCA delegaria poder a um Ministro, da Economia ou de qualquer área, não é de sua índole e personalidade, ele não conhece o conceito de delegação ou carta branca para nada, esse o primeiro erro com relação a Guedes.

Esse foi o primeiro erro de avaliação dos eleitores e especialmente dos “mercados” e de seu alto falante cativo e acrítico, a mídia econômica meio cega e mais surda que o mercado.

O PAPEL DE GUEDES

O perfil padrão que o mercado tentou ver em Guedes era o perfil Delfim-Malan, onde os Ministros eram FORMULADORES de política econômica e EXECUTORES dessa política.

Guedes nunca foi ou poderia ser nenhuma das duas coisas. Não tem treinamento ou currículo de formulador, seus projetos são toscos e imprestáveis, como as reformas Tributária e Administrativa, mal concebidas, mal estruturadas, incompletas, sem mecanismos de aplicação, meras intenções e mesmo assim mal formuladas, não servem para nada e nem para serem aprovadas na forma que foram apresentadas. Reforma Tributária em pedaços? Isso não existe ou é um todo completo ou não é nada. A Administrativa nem toca nos mega e indefensáveis privilégios, penduricalhos, aposentadorias inigualáveis em qualquer País do mundo, mordomias, carros com motorista que não existem em países super ricos. Essa Reforma nem cogita cortar aquilo que é possível por mera decisão administrativa, auxílios, seguros, diárias indefensáveis, mas quer enxugar o baixo clero do funcionalismo sem tocar no alto clero. Mesmo assim é reforma muito mal apresentada, na forma, no conteúdo, na aplicabilidade, no conceito de equidistância e justiça entre áreas.

Na execução de política econômica não há nada, não há decisão, não há correção, não há ideias ou projetos de aplicação e operação, é um caos completo de gestão.

A ideia absurda COMPRADA pelo mercado de fundir 4 Ministérios que têm funções especificas e de contrabalanço um com outro, tanto que essa separação é universal, em nenhum País do mundo Ministério do Trabalho opera sob comando da Economia porque são funções de contrapeso, é preciso haver a contraposição para o debate de interesses contrários entre o capital e o trabalho. O Departamento do Trabalho nos EUA é imenso e de vasto orçamento, lá na pátria do “mercado” avalia-se que o Trabalho NÃO pode ser uma dependência do Tesouro, como aqui se coloca Trabalho e Previdência, incluindo INSS sob o manto de Guedes? Não pode dar certo como não está dando, vê-se pelo desmanche do INSS com filas imensas de pobres aguardando perícia médica e simples pedidos de aposentadoria, tudo meio paralisado por óbvia desorganização, mas é tudo sob o mesmo guarda-chuva de Guedes, que sequer dá conta do que seria o antigo Ministério da Fazenda, já imenso e complexo e quis ter mais Ministérios, só não teve Minas e Energia porque houve resistência militar. Megalomania pura, nem Delfim, o grande gestor, pediu mais Ministérios, como se isso fosse brincadeira de joguinho “banco imobiliário”, juntar tudo para ter mais poder, mas e a administração desse imenso conjunto, quem dá conta?

O TETO DE GASTOS

Uma camisa de força criada para um mundo irreal, o conceito legal de TETO DE GASTOS é uma imensa insanidade de mentes primitivas de economia, o futuro é imprevisível, como TRAVAR o orçamento futuro de um grande País? Que loucura é essa? Não há essa trava em outros países, será que são burros? O orçamento é um instrumento de organização de finanças do Estado, mas não pode ser uma estátua de pedra, as circunstâncias mudam com ou sem pandemia, as necessidades, os ciclos, as situações e contextos internacionais se alteram velozmente, como MOLDAR EM PEDRA o orçamento? No entanto o “mercado” aplaudiu essa tolice como salvação, impedindo a flexibilidade indispensável à gestão de finanças públicas.

Imagine-se se em 1933 Roosevelt tivesse um ” teto de gastos”, não poderia fazer o NEW DEAL e salvar a economia americana. Teto de gastos é um conceito primitivo de orçamento, o do mesmo campo de ideias que equipara  as finanças de um Estado ao de uma casa de família, bobagem que muitos comentaristas econômicos de grandes veículos ainda hoje exibem, para deixar claro sua ignorância de economia, teto de gastos faz parte do mesmo mostruário de aparências de um falso saber econômico.

Mas para derrubar do TETO DE GASTOS é preciso um Ministro com alta credibilidade e liderança, Guedes não tem esses atributos e, para mais complicar, o Governo Bolsonaro NÃO tem controle ou base no Congresso, tem algum acordo precário com blocos eventuais do Centrão, o que não é uma maioria sólida e consensual de ideias e programas.

A ECONOMIA NUMA ENCRUZILHADA

Sem uma política econômica, qualquer uma, sem projeto claro de crescimento, sem uma política monetária e cambial, que deve ser LIDERADA pelo Governo, qual a política de crédito? Qual a política de abastecimento? Qual a política de preços de combustíveis? Não há nada, é um deserto, o tema central do debate econômico hoje é algum tipo de auxílio para ajudar na reeleição do Presidente, só isso, não há nenhuma ideia para crescimento, de operação do BNDES, de grandes planos de moradia e saneamento, de infraestrutura, não há uma meta de crescimento com suas bases de financiamento, não existe projeto de Pais ou de inserção internacional.

Vai continuar a ser uma operação da política por sustos diários, lives, espantos, surpresas, não tem roteiro. O mercado comprou Guedes, que se arranje com ele.

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