O romance “O Filho Renegado de Deus” nas palavras de Celso Marconi, o crítico de cinema no Recife, por Urariano Mota

Celso Marconi vai além do cinema, alcança até o mundo da literatura.

O romance “O Filho Renegado de Deus” nas palavras de Celso Marconi, o crítico de cinema no Recife

por Urariano Mota

Estou muito feliz por ter recebido esta avaliação de Celso Marconi , o melhor crítico de cinema de Pernambuco e um dos maiores do Brasil. Este é o nosso crítico, que tem o maior tempo de ofício na crítica cinematográfica em todo o mundo. Na altura dos seus quase 90 anos, Celso Marconi vai além do cinema, alcança até o mundo da literatura. Leiam o que ele escreve:

O FILHO RENEGADO DE DEUS

Depois de ler o romance de Urariano Mota , “O filho renegado de Deus”, comentei com ele  que talvez esse título tão radical não servisse para atrair os leitores, mas para afastá-los, pois a maioria do nosso público é religioso e muitas vezes tem esses princípios como base para especificações de escolha. Lembrei inclusive que o pintor José Cláudio uma vez tinha me dito que gostava mesmo de receber encomenda de quadro e não fazia nenhuma questão de trabalhar por encomenda. Achava melhor. Ao que Urariano me disse que ele segue uma trilha onde o principal é a sua concepção da obra, e no caso por exemplo de “O filho renegado de Deus”, considerava que nenhum outro título seria mais próprio para esse romance. “Eu não escrevo preocupado em vender”, me disse o autor. E comentou que José Cláudio pode aceitar pedidos sobre um quadro com passarinhos e figuras de gente, mas claro que no final a forma dos passarinhos e de qualquer outro objeto tem a forma de pintar de José Cláudio.

Claro os verdadeiros artistas criam seus próprios estilos e não o que quer o mercado. Embora me pareça que um artista pode seguir determinados esquemas pedidos pela produção e mesmo assim não deixar de criar obras geniais.

“O filho renegado de Deus” é um romance de contexto amplamente ligado à vida do Recife, e isso nos anos 50. Eu embora não conheça o bairro de Água Fria, onde se localiza a maior parte da estória, tenho uma vivência de outros bairros periféricos, o que me deixa ver quanto se aprofunda a trama criada por Urariano Mota para nos mostrar tanto do viver daquela comunidade quanto o ser de cada personagem. Conheci um conjunto de casinhas parecido com o criado nesse romance e também uma chamada vila de casas populares e também até já vivi num alto, num morro, e tive a oportunidade de conhecer como são aquelas pessoas. E os anos 50 são ou foram no Recife uma época muito específica, que o livro de Urariano nos deixa ver claramente.

Acho fundamental como o autor situa essa estória que nos retrata de uma forma quase antropológica o viver da comunidade existente no correr de casinhas, e temos as tramas pessoais, tudo com intensa dimensão literária, numa recriação que leva ao leitor a vida onde se dão verdadeiros sentimentos e também colocando à vista principalmente as relações de opressão que existem mesmo onde não parecem. Penso ser de grande beleza, por exemplo, a descrição feita pelo autor narrando as relações existentes entre Maria, um dos personagens principais, e seu irmão, que é homossexual, Maciel, e que sofre a agressão do marido de Maria, Filadelfo. O personagem que narra o romance em sua grande maioria é o filho Jimeralto, e a vida deste vai de criança até ser adulto e assim Urariano tem oportunidade de criar o entrelaçado de todas as vidas.

Urariano Mota ainda é moço e assim ainda dará aos leitores muitos outros romances, mas já agora tem uma obra bastante significativa como um dos principais escritores do Recife, e eu fico contente de ser seu amigo. .

Olinda 7. 6. 2020

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