Canibalismo dos sentidos, por Gustavo Conde

No mundo real da linguagem humana acossada pelo fascismo, não há espaço para covardia. Nós estamos diante de uma guerra por sobrevivência simbólica

Imagem: Torre de Babel, Pieter Bruegel, 1563

Canibalismo dos sentidos

por Gustavo Conde

Essas intriguinhas de governo me dão um tédio, mas um tédio…

É uma espécie de nirvana da mediocridade: o cérebro espana diante de um input tão rasteiro e xexelento.

É erro de ortografia, fofoca de ministro, despeito de assessor, frescura de secretário, insulto de miliciano, nheco-nheco de militar babão…

Não é fácil.

A audiência da internet gosta de baixaria e babaquices sem sentido. Público bomba. Aí, tenta-se dar algum sentido a tudo isso para minimizar a humilhação que é noticiar esse tipo de coisa – e a experiência do jornalismo dá mais um mergulho no abismo.

Tudo acaba virando um grande grupo de WhatsApp a céu aberto.

Assim, a gente caminha para a paralisia cerebral e política explícitas, assentidas, sem meios termos.

Esse é o dilema.

Se tenho um objeto impermeável à inteligência, sou obrigado a me emburrecer para me aproximar dele.

E neste momento, por incrível que pareça, as eleições são o único antídoto a isso. Porque em uma campanha eleitoral é-se obrigado a discutir temas relevantes para o país.

O problema é que, sabendo disso, a legião de imbecis vai querer transformar a campanha eleitoral em lixo mais uma vez (como foi em 2018) e todos sairemos perdendo de novo.

A bestialidade bolsonara conseguiu implantar uma pauta regressiva em todas as mídias, de posse da constatação óbvia de que o bizarro e o estúpido são campeões da audiência digital global neste momento.

Diante de tudo isso, eu me sinto uma espécie de Dom Quixote (porque me parece que ainda sou dos poucos que acredita que as redes sociais e a internet possam nos tirar do espírito da mediocridade).

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A minha experiência nem tão pessoal assim atesta essa possibilidade. Há um grande público que gosta de textos menos óbvios (e longos), de humor refinado, de método, de ousadia e de inovação com o processamento dos sentidos políticos.

Há uma covardia muito grande em curso na produção jornalística comum a todas as tribos. Ninguém quer arriscar uma linguagem nova, seja por medo, comodidade, preguiça ou uma quase adesão ao bolsonarismo que esquenta o tráfego digital, não importa se com usuários reais ou robôs.

Mesclar essas dimensões da linguagem pode ser uma tentativa (usar a mediocridade para criar tráfego e inserir subversivamente informações de interesse público no conjunto da obra).

Mas a dependência técnica justamente do que nos esmaga enquanto sujeitos da história pode vir a ser um erro de proporções colossais. A linguagem, o discurso e a subjetividade são ingratos nesse sentido: quando menos se esperar você já será um vetor propagador de mediocridade com cifras de ódio e réstias de incomunicabilidade.

No mundo real da linguagem humana acossada pelo fascismo, não há espaço para covardia. Nós estamos diante de uma guerra por sobrevivência simbólica (e o corpo não funciona sem o simbólico). O assunto é sério.

Quando os proprietários de poder perceberam que foram derrotados no terreno do debate público, eles partiram para a sabotagem direta às regras do jogo: a sabotagem à linguagem.

Trazer o discurso de massa da cena digital para as identidades do indivíduo não é em si uma catástrofe. Mas extrair desse discurso – desse processo de construção do discurso – apenas os traços bestiais de morte e linchamento e inoculá-los no sujeito contemporâneo é o equivalente a um cataclisma subjetivo.

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É curioso dizer isso, mas o patrimônio da humanidade que está sob ameaça neste momento – e que precisa ser defendido – é a linguagem humana.

Ela é frágil como a Amazônia, como os oceanos, como o continente australiano tomado por incêndios gigantescos.

A linguagem humana não é uma estrutura simbólica que “esteve sempre aí e vai continuar”. Ela precisa de “falantes” para existir, para usar o pressuposto básico da linguística saussuriana.

Se esses falantes – que agora também são digitais – mergulharem em entropia – a medida do grau da desordem de um sistema -, a estrutura simbólica que nos permite enunciar e interpretar pode entrar em colapso irreversível.

A linguagem já está em colapso, já está em processo de devastação. Quando vemos Trump ou Bolsonaro enunciando, isso fica claro. São frases claramente mentirosas e desconexas, muitos graus acima de uma disputa meramente ideológica ou midiática.

Esse modo de enunciar autocorrosivo avança rapidamente em nossa atividade linguageira do cotidiano.

Não é à toa que famílias se desfazem, que amizades se incineram e que o convívio político se torna insuportável.

Talvez tenha chegado o momento de se compreender as fragilidades estruturais da linguagem humana e como ela não é um “patrimônio aí posto para todo o sempre”. Ela precisa de “manutenção”, de respeito, talvez até de um “recall”.

O mito de babel nunca foi tão real e tão assustador. O ‘poder divino’ estilhaça a possibilidade das interações simbólicas para manter o seu poder e amaldiçoar a ambição dos “homens”.

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Tentemos não ser cúmplices de tudo isso.

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