Construindo um carro de Fórmula 1 com o freio de mão puxado
por Maurício Martinelli Luperi
Imagine uma equipe de engenharia encarregada de construir um carro de Fórmula 1. Os melhores engenheiros são contratados. Os materiais mais modernos são utilizados. A aerodinâmica é refinada em túnel de vento. O motor incorpora a tecnologia mais avançada disponível.
Quando finalmente o carro entra na pista, porém, alguém esquece o freio de mão puxado.
Nenhum engenheiro seria responsabilizado pelo fracasso daquela máquina. O problema não estaria no projeto nem na competência técnica, mas no ambiente em que ela foi colocada para funcionar.
É exatamente essa a situação da indústria brasileira.
O país investe em universidades, institutos de pesquisa, centros tecnológicos e programas de inovação. Forma engenheiros de elevada qualidade, possui empresas capazes de competir internacionalmente em diversos segmentos e dispõe de experiências bem-sucedidas como Embraer, Petrobras, Embrapa e EMBRAPII. Entretanto, ao mesmo tempo, mantém uma estrutura macroeconômica que frequentemente reduz a competitividade da produção nacional.
Enquanto discutimos inovação, mantemos um ambiente em que produzir muitas vezes é menos rentável do que aplicar recursos no mercado financeiro.
Esse talvez seja um dos maiores paradoxos do desenvolvimento brasileiro.
Engenharia produz tecnologia; a macroeconomia determina se ela será utilizada
Existe hoje amplo consenso entre economistas da inovação de que o progresso tecnológico não nasce espontaneamente.
Desde Karl Marx, passando por Joseph Schumpeter até autores como Christopher Freeman, Bengt-Åke Lundvall e Mariana Mazzucato, diferentes correntes teóricas convergem em um ponto: inovação depende da interação entre empresas, universidades, centros de pesquisa, instituições financeiras e Estado.
Os chamados Sistemas Nacionais de Inovação demonstram exatamente isso. Não basta produzir conhecimento científico. É preciso criar um ambiente em que esse conhecimento seja transformado em investimento, produção e ganhos permanentes de produtividade.
Nesse processo, a engenharia ocupa posição estratégica. É ela que transforma ciência em tecnologia, tecnologia em produtos e produtos em riqueza.
Mas existe uma condição frequentemente esquecida.
Nenhum empresário investirá continuamente em inovação se o ambiente econômico reduzir a rentabilidade da atividade produtiva.
É nesse ponto que política industrial e política macroeconômica deixam de ser assuntos separados.
Todos os países industrializados compreenderam essa relação
Não existe exemplo histórico de país que tenha alcançado elevado grau de desenvolvimento apenas esperando que o mercado coordenasse sozinho seu processo de industrialização.
A Inglaterra protegeu sua indústria nascente antes de defender o livre comércio.
Estados Unidos, Alemanha, Japão e Coreia do Sul utilizaram políticas industriais explícitas.
Mais recentemente, a China coordenou durante décadas políticas industriais, tecnológicas, financeiras e cambiais em torno de um objetivo nacional: aumentar continuamente sua capacidade produtiva.
Mesmo atualmente, quando se fala em competição entre Estados Unidos e China, a disputa não ocorre apenas entre empresas privadas.
Ela envolve financiamento público, pesquisa científica, defesa nacional, universidades, infraestrutura, semicondutores, inteligência artificial e minerais estratégicos.
O Estado continua sendo ator central nas economias mais desenvolvidas.
O freio de mão brasileiro
O problema brasileiro não está apenas na ausência de uma política industrial consistente.
Ele está principalmente na falta de coordenação entre as políticas microeconômicas e a política macroeconômica.
De um lado, procuram-se estimular inovação, pesquisa e desenvolvimento.
De outro, convivemos historicamente com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, recorrentes períodos de apreciação cambial e elevado custo do financiamento produtivo.
O resultado é previsível.
Quanto maior a remuneração dos ativos financeiros relativamente ao investimento produtivo, menor tende a ser o incentivo para ampliar capacidade industrial, investir em novas tecnologias e assumir riscos inerentes à inovação.
Não se trata apenas de uma questão empresarial.
Trata-se de uma questão de incentivos econômicos.
A macroeconomia acaba determinando o retorno esperado do investimento em engenharia.
Quando a macroeconomia anula a política industrial
É justamente aqui que a metáfora do carro de Fórmula 1 se torna útil.
Programas de inovação, financiamento à pesquisa, universidades de excelência e formação de engenheiros representam o motor do carro.
Mas juros persistentemente elevados, câmbio estruturalmente valorizado e baixa coordenação macroeconômica funcionam como um freio permanente.
O país acelera e freia ao mesmo tempo.
Não surpreende que os resultados apareçam aquém do potencial existente.
Essa constatação dialoga diretamente com o Novo Desenvolvimentismo formulado por Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Sua contribuição foi mostrar que países de renda média frequentemente convivem com moedas excessivamente valorizadas e juros elevados, fatores que reduzem a competitividade da indústria nacional justamente nos setores mais intensivos em tecnologia.
Minha avaliação acrescenta um elemento complementar.
Além dos efeitos cambiais, a própria arquitetura institucional da política monetária brasileira — marcada por elevada rigidez do regime de metas de inflação, pela autonomia capturada do Banco Central e por um ambiente de dominância financeira e dominância epistêmica — contribui para manter o investimento produtivo em posição relativamente menos atrativa que a aplicação financeira.
Nesse ambiente, a engenharia perde espaço não por falta de competência, mas porque os incentivos econômicos caminham em direção oposta.
Um projeto nacional exige coordenação
O debate sobre desenvolvimento costuma ser dividido entre política industrial e política macroeconômica.
Essa separação é artificial.
As duas dimensões precisam caminhar juntas.
Inovação tecnológica depende de financiamento.
Financiamento depende das condições monetárias.
Competitividade depende da taxa de câmbio.
Investimento depende da expectativa de retorno.
Tudo isso faz parte do mesmo sistema.
Não basta investir em laboratórios se a produção industrial permanece estruturalmente menos competitiva.
Não basta formar excelentes engenheiros se a economia recompensa mais a aplicação financeira do que a inovação produtiva.
O desafio brasileiro
O Brasil possui universidades qualificadas, empresas inovadoras, recursos naturais abundantes, capacidade científica instalada e uma engenharia reconhecida internacionalmente.
O que ainda falta é coordenar essas capacidades dentro de um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.
Nenhum grande país industrializado construiu sua prosperidade tratando política monetária, política cambial, inovação, infraestrutura e engenharia como temas independentes.
Todos compreenderam que fazem parte de uma mesma estratégia.
Enquanto continuarmos tentando construir um carro de Fórmula 1 mantendo o freio de mão puxado, continuaremos nos perguntando por que nossa indústria não alcança todo o seu potencial.
Talvez a pergunta correta não seja por que faltam engenheiros ou inovação.
A pergunta é: por que insistimos em manter uma macroeconomia que impede justamente aquilo que dizemos querer estimular?
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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