3 de julho de 2026

Do livre comércio ao neomercantilismo: por que os EUA mudaram de estratégia?, por Maurício Luperi

A história mostra que as grandes potências nunca defenderam um único modelo econômico de forma permanente.
Donald Trump em foto de Gage Skidmore - Flickr - Reprodução

Os EUA mudaram do livre comércio ao neomercantilismo, aumentando tarifas e incentivando a produção doméstica.
Essa estratégia busca proteger a indústria nacional, mas pode elevar custos e pressionar a inflação interna.
A disputa econômica atual foca no domínio tecnológico e inovação, não apenas na produção de bens tangíveis.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Do livre comércio ao neomercantilismo: por que os EUA mudaram de estratégia?

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maurício Martinelli Luperi

A história econômica raramente caminha em linha reta. Ideias que pareciam definitivamente superadas frequentemente retornam quando as circunstâncias mudam. É exatamente isso que parece ocorrer com a política comercial dos Estados Unidos.

Durante décadas, os EUA apresentaram-se como os maiores defensores do livre comércio, da redução das barreiras tarifárias e da globalização produtiva. Entretanto, nos últimos anos, especialmente a partir do primeiro governo de Donald Trump e mantido, em diferentes graus, por seus sucessores, observa-se uma mudança significativa de estratégia: aumento de tarifas de importação, incentivos à relocalização industrial e crescente preocupação com déficits comerciais.

Essa mudança não representa um retorno ao mercantilismo clássico, mas pode ser compreendida como uma forma de neomercantilismo: a utilização de instrumentos típicos do antigo mercantilismo dentro de uma economia capitalista altamente globalizada.

Para compreender essa transformação, é preciso voltar alguns séculos.

Do mercantilismo ao livre comércio

Entre os séculos XVI e XVIII, os Estados nacionais europeus organizaram suas economias segundo princípios mercantilistas.

Naquele contexto, a riqueza nacional era frequentemente associada ao acúmulo de metais preciosos. Para isso, buscava-se manter superávits comerciais permanentes por meio de tarifas alfandegárias, restrições às importações e estímulos às exportações.

A aliança entre a monarquia e a burguesia comercial fazia do Estado um agente ativo da política econômica. O objetivo era fortalecer simultaneamente o poder político e a acumulação de riqueza nacional.

Entretanto, a própria evolução do capitalismo modificou esses incentivos.

A Revolução Gloriosa inglesa fortaleceu as instituições voltadas ao direito de propriedade e limitou o poder absoluto da Coroa. Mais tarde, a Revolução Francesa consolidou a igualdade jurídica perante a lei, substituindo os privilégios de nascimento pela centralidade do capital, em uma transformação sintetizada por Umberto Eco ao afirmar que o direito do nascimento foi substituído pelo direito do capital.

Mas foi sobretudo a Revolução Industrial que alterou profundamente a lógica econômica.

Com enormes ganhos de produtividade, a Inglaterra deixou de necessitar das antigas barreiras protecionistas. Seus produtos tornaram-se os mais competitivos do mundo.

A partir desse momento, o livre comércio deixou de ser apenas um ideal econômico e passou a representar o próprio interesse estratégico da potência industrial dominante.

Em outras palavras, a defesa do livre comércio não decorreu simplesmente da superioridade intelectual das novas teorias econômicas, mas também da nova posição ocupada pela Inglaterra na economia mundial.

O capitalismo mudou de natureza

Ao longo do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo internacional tornou-se muito mais complexo.

As grandes empresas multinacionais passaram a distribuir sua produção pelo planeta.

A fabricação de bens migrou gradualmente para países com menores custos de mão de obra, enquanto as matrizes permaneceram concentrando pesquisa, desenvolvimento tecnológico, engenharia, design, marketing, propriedade intelectual e serviços financeiros.

Essa transformação alterou profundamente a própria natureza das relações econômicas internacionais.

Durante o mercantilismo, a riqueza era medida principalmente pelo saldo comercial de mercadorias.

Na economia contemporânea, entretanto, a variável decisiva passou a ser o saldo das transações correntes.

Além da balança comercial, passaram a desempenhar papel central os fluxos internacionais de serviços, royalties, licenciamento tecnológico, remessas de lucros, dividendos, juros e rendimentos de investimentos.

Nesse novo ambiente, um país pode apresentar déficit comercial em bens e, ainda assim, manter enorme capacidade de geração de renda externa.

É exatamente o caso dos Estados Unidos.

Embora importem grande quantidade de produtos manufaturados, empresas americanas continuam apropriando parcela significativa da renda mundial por meio do controle das multinacionais, das patentes, das plataformas digitais, dos serviços financeiros e dos ativos tecnológicos.

O verdadeiro centro da riqueza deixou de ser apenas a fábrica. Passou a ser também o controle do conhecimento.

O retorno das tarifas

É justamente nesse contexto que surge a atual política comercial americana.

O aumento das tarifas procura incentivar a volta da produção industrial ao território nacional.

Sob diversos aspectos, essa estratégia recupera instrumentos característicos do antigo mercantilismo: proteção da indústria doméstica, redução das importações e fortalecimento da produção nacional.

Daí a expressão neomercantilismo.

A diferença é que o capitalismo do século XXI é muito diferente daquele existente no século XVII.

Hoje, cadeias globais de valor atravessam dezenas de países.

Um automóvel, um computador ou um smartphone incorpora componentes produzidos em diversas economias, utiliza tecnologias desenvolvidas em diferentes centros de pesquisa e depende de complexas redes internacionais de logística.

Elevar tarifas sobre esses produtos significa aumentar custos ao longo de toda essa cadeia produtiva.

Essa elevação tende a ser parcialmente repassada aos preços finais, pressionando a inflação e reduzindo a competitividade das próprias empresas americanas.

Ao mesmo tempo, salários significativamente mais elevados nos Estados Unidos tornam mais caro reproduzir internamente atividades produtivas anteriormente deslocadas para economias emergentes.

O resultado pode ser uma combinação de maior proteção com menor eficiência econômica.

Isso não significa que preocupações relacionadas à segurança nacional, à autonomia produtiva em setores estratégicos ou à excessiva dependência de fornecedores externos sejam irrelevantes. Elas ganharam importância em um contexto de crescente rivalidade geopolítica e de vulnerabilidades expostas por crises recentes. A questão é que a tentativa de responder a esses desafios por meio de tarifas amplas envolve custos econômicos relevantes e efeitos distributivos que não podem ser ignorados.

A nova disputa pela riqueza

Talvez a principal transformação do capitalismo seja outra.

No mercantilismo, o objetivo era acumular metais preciosos.

Na Revolução Industrial, era produzir mais.

No capitalismo do século XX, tornou-se produzir com menores custos em escala global.

No século XXI, a principal fonte de riqueza deslocou-se crescentemente para o domínio da tecnologia, da inovação, da propriedade intelectual, dos dados, das plataformas digitais e das finanças internacionais.

A disputa econômica mundial deixou de ocorrer apenas nas fábricas.

Ela passou a ocorrer também nos laboratórios, nos centros de pesquisa, nas universidades, nos algoritmos, nas patentes e nos ativos intangíveis.

É por isso que o debate sobre tarifas comerciais, embora importante, talvez ataque apenas parte do problema.

A verdadeira competição entre Estados Unidos e China não ocorre apenas na produção de bens industriais.

Ela ocorre, sobretudo, pelo domínio das tecnologias que definirão a próxima etapa do desenvolvimento econômico mundial.

Conclusão

A história mostra que as grandes potências nunca defenderam um único modelo econômico de forma permanente.

Defenderam, em cada momento, as políticas que melhor correspondiam aos seus interesses estratégicos.

O livre comércio foi extraordinariamente funcional quando os países centrais possuíam inequívoca superioridade produtiva e tecnológica.

Hoje, diante da ascensão chinesa, da reorganização das cadeias globais de valor e das novas disputas geopolíticas, os Estados Unidos passam a recorrer novamente a instrumentos protecionistas.

Esse movimento não representa uma simples volta ao mercantilismo, mas uma adaptação contemporânea de parte de seus instrumentos — um neomercantilismo que procura fortalecer a produção doméstica em um mundo muito diferente daquele em que tais políticas surgiram.

Resta saber se tarifas e barreiras comerciais serão suficientes para preservar a liderança econômica americana ou se, ao elevar custos, pressionar a inflação e fragmentar as cadeias globais de produção, acabarão acelerando exatamente o processo de perda relativa de competitividade que pretendem evitar.

Nesse sentido, a grande questão do nosso tempo talvez não seja escolher entre livre comércio e protecionismo, mas compreender que a verdadeira fonte de riqueza das nações já não reside apenas na produção de bens tangíveis. Ela depende, cada vez mais, da capacidade de gerar conhecimento, controlar tecnologias estratégicas e liderar os processos de inovação que moldarão a economia do século XXI. Isso ajuda a explicar por que o debate comercial contemporâneo já não pode ser compreendido apenas pelas lentes do velho mercantilismo, mas exige uma interpretação compatível com a complexidade do capitalismo global atual.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados