O vespeiro EUA vs. Irã e o maior erro da política externa bolsonarista, por Cesar Calejon

Por que o Brasil se posicionaria a favor da execução sumária de um general militar de um país soberano que foi, somente em 2019, por exemplo, o quinto maior comprador dos produtos agrícolas brasileiros? 

O vespeiro EUA vs. Irã e o maior erro da política externa bolsonarista 

por Cesar Calejon

O assassinato do líder militar iraniano Qasem Soleimani por um drone estadunidense na semana passada colocou a sociedade internacional em alerta. Apenas alguns dias depois, bases dos EUA sofreram retaliações no Oriente Médio, mais de trinta pessoas morreram pisoteadas durante o funeral de Soleimani e um avião comercial ucraniano foi abatido por mísseis balísticos iranianos “por engano”, segundo comunicado do próprio país. O conflito está escalando e novos capítulos deverão acontecer nos próximos dias e semanas.   

Seguindo a sua estratégia de alinhamento automático com Washington, a política externa bolsonarista divulgou uma nota, via Itamaraty, no dia 10 de janeiro, endossando o assassinato do militar iraniano pelos Estados Unidos. “Ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos EUA nos últimos dias no Iraque, o governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo”, afirmou o Governo do Brasil por meio do comunicado intitulado “Acontecimentos no Iraque e luta contra o terrorismo”.

Após a péssima reação de algumas nações com as quais o Brasil mantém parcerias comerciais, o País optou por não se manifestar mais sobre o conflito de forma pública. A representante brasileira em Teerã foi convocada para dar explicações sobre o caso, o que significa que o Irã está de fato atento ao posicionamento da administração Bolsonaro e pronto para retaliar. 

Repetidamente, o Brasil vem cometendo o maior erro possível frente à sociedade internacional: danificar o processo histórico de construção de credibilidade devido ao não comprometimento com a soberania dos países, o multilateralismo e acordos que foram historicamente negociados no âmbito global. 

Questões como o multilateralismo e a soberania das nações devem transcender os objetivos pontuais da administração atual de qualquer estado. Além disso, explorar questões bélicas, religiosas e seculares, com as quais o Brasil jamais possuiu nenhum tipo de relação institucional direta, para conquistar alguma visibilidade no cenário internacional e agradar parte do eleitorado doméstico, representa outro grande problema para a atual gestão federal brasileira. Todos estes temas, quando avaliados friamente, oferecem riscos que superam os eventuais benefícios em ampla medida.  

Por que o Brasil se posicionaria a favor da execução sumária de um general militar de um país soberano que representou, somente em 2019, por exemplo, o quinto maior comprador dos produtos agrícolas brasileiros, principalmente trigos e cereais, importando o equivalente a US$ 2,38 bilhões e vendendo pouco mais de US$ 39 milhões: superávit de US$ 2,2 bilhões para a balança comercial do Brasil?

Por que o Brasil deveria mudar a sua Embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, aliando-se à posição de Israel em um dos conflitos mais complicados do mundo, e contrariando todo o mercado árabe, com o qual o País sustenta um comércio de mais de US$20 bilhões por ano?

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Por que o Brasil compraria qualquer tipo de briga com a China, maior parceiro comercial do País, em nome de uma postura anticomunista arcaica do século XX?

O alinhamento automático com qualquer nação do planeta e a promoção do populismo de um presidente em determinada época certamente não oferecem recompensas suficientemente atrativas para responder a estas questões. A política externa bolsonarista precisa entender o tamanho do vespeiro que este conflito entre EUA e Irã representa e agir de forma cirúrgica, extremamente cuidadosa e comedida, aplicando certa eqüidistância pragmática de ambas as partes para defender os interesses brasileiros.

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

 

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2 comentários

  1. Não sobrevoe Teerã, pois, diriam os Engenheiros do Hawaii, qualquer coisa que se mova é um alvo
    E ninguém tá salvo!

    Um disparo, um estouro

  2. excelente texto…mais unfelizmente, esse merda nao faz a menor ideia do que voce esta falando amigo autor, e as pessoas que deveriam aconselha-lo estão gritando “AMERICA” e fazendo reverencias a bandeira norte-americana…o proximo passo e atrelar o exercito brasileiro ao exercito americano,,,nossa missão como exercito auxiliar dos EUA…será fazer os trabalhos sujo deles…assim como os soldados das colonias inglesas no seculo passado….de uma forma bem simples…BUCHA DE CANHÃO VERDE E AMARELA. I LOVE YOU TRUMP.

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