Ouvir as mães que choram, por Mário Lima Jr.

A combinação entre pobreza e desprezo pela vida, pregado das janelas do Palácio do Planalto, não vai permitir que o Brasil encontre seu rumo no cenário mundial.

Foto: Sandro Nascimento/O São Gonçalo

Ouvir as mães que choram, por Mário Lima Jr.

Quando cria sua primeira consciência social, geralmente durante a adolescência, o brasileiro se pergunta como transformar o Brasil em um país sem pobreza, que respeite seu povo e cuide do meio ambiente. As mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia ou pelo tráfico conhecem bem a resposta: defendendo a vida humana a qualquer custo.

Miria Antunes chora a morte do filho Victor desde o fim do mês de maio, durante ação da Polícia Militar no bairro Jardim Bom Retiro, em São Gonçalo (RJ). Ela precisou ir aos jornais dizer que o filho não era bandido e trabalhava em uma lanchonete de uma cidade vizinha porque, hoje em dia, primeiro se destrói a vida e depois a reputação do pobre. Defender a memória dos filhos mortos e lutar por Justiça é tudo que resta às mães.

O Brasil do fim do primeiro semestre de 2019 é um país de perdas tristes, que atingem principalmente famílias espremidas entre as armas, as drogas e o esgoto, como a família de Victor. Elas são as primeiras vítimas das homenagens frequentes à morte feitas pelo time alinhado ao Partido Social Liberal porque vivem sob mira constante.

Além dos pronunciamentos saudosistas sobre a ditadura militar, que cobrem o território nacional com a sombra da violência daquele período de exceção, o governo de Jair Bolsonaro destrói, um após o outro, os instrumentos de combate à tortura e promoção da dignidade. É oficial, está no Diário da União, e foi denunciado à Organização das Nações Unidas por ativistas da entidade Justiça Global. O Presidente da República, em pessoa, ainda defende e apoia a indústria de armamentos e a circulação de mais armas na rotina da nossa sociedade.

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A combinação entre pobreza e desprezo pela vida, pregado das janelas do Palácio do Planalto, não vai permitir que o Brasil encontre seu rumo no cenário mundial. Bolsonaro é tão incapaz de viabilizar o crescimento nacional, respeitando o povo e as riquezas naturais do país, que também tem atacado e reduzido órgãos de defesa do meio ambiente e permitido o uso desenfreado de agrotóxicos pela agricultura.

Abandonando princípios básicos da Constituição cidadã, o atual presidente comparou sua popularidade a do general Médici, cuja gestão foi responsável por 50% das mortes na ditadura. O Brasil é guiado por Bolsonaro à pior das pobrezas, a pobreza de espírito. Ela corrompe a alma de um povo que já traz as finanças corrompidas pelo desemprego e pela má formação educacional. Mais ninguém acredita em um considerável avanço econômico ainda nesse governo, seja porque percebe a ausência de uma agenda positiva ou porque culpa a imprensa e a oposição pelas mazelas do país e os desenhos da Disney pela homossexualidade humana.

O mais significativo indicador social do Brasil é a quantidade de mães que choram após cada decisão ignorante e preconceituosa do governo Bolsonaro. A tendência é o país se transformar em um gigante armado, que cospe tiros contra a juventude negra – segmento que mais sofre com a violência – e compartilha pornografia carnavalesca nas redes sociais. Não se discute mais o direito à uma existência digna, voltamos a pedir permissão para viver.