Fernando de Noronha e a nova geopolítica do Atlântico Sul
Parte I – O Rubber Plan e a cobiça americana pelo Nordeste
Da Segunda Guerra Mundial à disputa digital do século XXI, o estreitamento equatorial do Atlântico revela por que Fernando de Noronha continua no radar das grandes estratégias.
por Celso Pinto de Melo
| “As nações não têm amigos permanentes, apenas interesses permanentes.” Lord Palmerston, Parlamento Britânico, 1848 |
Quando a geopolítica volta a olhar para o Atlântico Sul
Esta é a primeira parte de uma série sobre a importância estratégica de Fernando de Noronha no Atlântico Sul. Nesta Parte I, examinamos como o arquipélago apareceu em planos militares norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente no contexto do chamado Rubber Plan. Na Parte II, discutiremos como transformações mais recentes – cabos submarinos, reorganização das rotas comerciais e novos corredores bioceânicos – recolocam o Atlântico Sul no radar da geopolítica contemporânea.
Quando a força volta a ocupar lugar central nas relações internacionais – não apenas como ameaça, mas como instrumento concreto de política externa –, antigas memórias geopolíticas reaparecem no debate público. A América Latina vive hoje um desses momentos de inquietação. Em um sistema internacional cada vez mais marcado pela rivalidade entre grandes potências, territórios estratégicos passam a ser vistos menos como espaços de soberania formal e mais como posições logísticas em um tabuleiro global em transformação.
A retórica recente sobre a Groenlândia, tratada em certos círculos políticos norte-americanos como um ativo geopolítico potencialmente negociável, é um exemplo revelador desse deslocamento. Ela sugere que, quando a competição internacional se intensifica, a geografia volta a ganhar centralidade. Ilhas, portos, estreitos marítimos e corredores logísticos deixam de ser simples acidentes cartográficos e passam a ser avaliados como elementos de infraestrutura estratégica.
É nesse ambiente que rumores recentes sobre um eventual interesse norte-americano em Fernando de Noronha e na Base Aérea de Natal encontraram ressonância no debate público brasileiro [1, 2]. Ainda que não existam declarações oficiais que confirmem tais intenções, o simples fato de essa hipótese circular revela algo importante: quando o sistema internacional endurece, precedentes históricos voltam a ser revisitados como parte do repertório estratégico.
Esse repertório inclui um episódio pouco conhecido fora de círculos especializados. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos chegou a elaborar planos militares detalhados para ocupar partes do Nordeste brasileiro caso a diplomacia com o governo Vargas fracassasse [3, 4].
A ilha que nunca foi apenas uma ilha
Fernando de Noronha ocupa uma posição singular no Atlântico Equatorial. Localizado próximo ao ponto onde a distância entre a América do Sul e a África é menor, o arquipélago sempre teve potencial logístico nas rotas marítimas e aéreas que conectam os dois lados do Atlântico.
Durante a Segunda Guerra Mundial, essa posição adquiriu importância extraordinária. O Nordeste brasileiro tornou-se peça central na ligação aérea e naval entre as Américas e os teatros de guerra na África e na Europa. A base aérea de Parnamirim, em Natal, transformou-se no principal corredor de travessia transatlântica aliado, ganhando o apelido histórico de “Trampolim da Vitória” [5]. A importância dessa rota pode ser visualizada na Fig. 1, que mostra o corredor estratégico Natal–Dacar no sistema logístico aliado.

Quando aliados ainda eram incertos
A preocupação estratégica norte-americana, no entanto, não se limitava à geografia. Ela também refletia um diagnóstico político. Nos primeiros anos da guerra, Washington considerava o Brasil um aliado potencial, embora ainda incerto. Estudos históricos indicam que militares norte-americanos viam com desconfiança as inclinações germanófilas de setores do alto comando brasileiro, incluindo o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e o chefe do Estado-Maior do Exército, Góis Monteiro [7].
O Brasil aparecia, portanto, como um parceiro estratégico desejável, mas politicamente imprevisível. Para planejadores militares norte-americanos, essa ambiguidade representava um risco potencial para a segurança das rotas atlânticas.
Essa combinação – posição geográfica estratégica e incerteza política – levou planejadores militares norte-americanos a considerar cenários de ocupação preventiva do Nordeste brasileiro caso o país não se alinhasse plenamente ao esforço de guerra aliado.
O plano que previa ocupar o Nordeste
Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, o Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos ordenou a elaboração de um plano militar destinado a assegurar o controle estratégico do Norte-Nordeste brasileiro. Esse planejamento recebeu o nome de Rubber Plan.
Os documentos analisados posteriormente indicam que o plano previa operações anfíbias envolvendo fuzileiros navais norte-americanos para ocupar pontos estratégicos ao longo da costa atlântica brasileira, incluindo Belém, Fernando de Noronha, Fortaleza, Natal, Recife e Salvador [4]. O esquema geral dessas operações pode ser observado na Fig. 2, baseada em compilações de documentos militares norte-americanos.

Quando a geopolítica vira logística
Entre os aspectos mais marcantes desse planejamento está o nível de detalhe operacional. Estudos posteriores mostram que os planejadores militares norte-americanos chegaram a identificar praias específicas de Natal como possíveis pontos de desembarque, designadas nos documentos como “Red”, “Black” e “Blue” [3].
Esse tipo de planejamento ilustra como a geopolítica, em momentos de tensão internacional, deixa de ser abstração e se transforma em logística concreta. A disputa estratégica passa a ser traduzida em elementos físicos: praias adequadas para desembarque, recifes navegáveis, pistas de pouso, aeródromos e portos capazes de sustentar operações militares.
A geopolítica da borracha
Outro fator decisivo naquele momento era a borracha natural. Com a expansão japonesa no Sudeste Asiático em 1941, cerca de 90% da produção mundial desse recurso passou ao controle do Japão. A escassez de borracha ameaçava diretamente a capacidade industrial dos Aliados, especialmente na produção de pneus, aeronaves e veículos militares [4].
Nesse contexto, a Amazônia voltou a ser considerada uma fonte estratégica de látex. O Rubber Plan também estava ligado a essa preocupação: assegurar as rotas logísticas que permitissem aos Estados Unidos manter acesso à produção amazônica.
Vargas e a barganha estratégica
Getúlio Vargas percebeu rapidamente que a guerra alterava o equilíbrio de poder nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos. O Nordeste brasileiro havia se tornado uma peça logística indispensável para o esforço militar aliado.
Essa circunstância criou uma oportunidade de negociação. O governo brasileiro passou a explorar sua posição geográfica como instrumento de barganha diplomática, vinculando o alinhamento militar aos interesses de industrialização do país.
A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, financiada com apoio norte-americano, surgiu nesse contexto [8].
Não se tratou de uma simples troca de bases militares por siderurgia.
O processo foi mais complexo e envolveu uma negociação geopolítica mais ampla, na qual o governo brasileiro utilizou sua posição estratégica para obter ganhos industriais duradouros.
Quando a história reaparece
O Rubber Plan nunca foi executado. A diplomacia prevaleceu e o Brasil acabou se alinhando ao esforço de guerra aliado. Ainda assim, a simples existência desse planejamento revela algo fundamental: em momentos de tensão internacional, as grandes potências tendem a tratar territórios estratégicos não apenas como parceiros soberanos, mas também como variáveis logísticas em seus cálculos militares.
Essa constatação ajuda a entender por que Fernando de Noronha volta a aparecer no debate geopolítico contemporâneo.
Não porque alguém tenha “descoberto” sua importância. E sim porque, sempre que a geopolítica retorna ao centro da política internacional, a geografia volta a ser consultada como um arquivo estratégico.
E, nesse arquivo, o Nordeste brasileiro aparece – ontem como hoje – como uma das chaves logísticas do Atlântico Sul.
O Rubber Plan pertence ao passado.
Mas a lógica estratégica que o produziu – o controle das rotas que conectam continentes – continua viva.
E, no século XXI, ela retorna sob novas formas: cabos submarinos, corredores bioceânicos e a disputa global pela infraestrutura.
Bibliografia
1. EUA articulam acesso estratégico a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico e investimento bélico. DefesaNet 2025–05–07; https://www.defesanet.com.br/geopolitica/agenda-trump/eua-articulam-acesso-estrategico-a-fernando-de-noronha-e-natal-sob-alegacao-de-direito-historico-e-investimento-belico/.
2. EUA articulam acesso a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico, diz site. ICL Notícias 2025–05–09; https://iclnoticias.com.br/eua-acesso-a-fernando-de-noronha-e-natal/.
3. Gannon, M., Invade Brazil?! Proceedings of the U.S. Naval Institute, 1999. 125(10).
4. Pereira, D.L., O Rubber Plan. 2026, Rio de Janeiro: Memorial da FEB.
5. Conn, S. and B. Fairchild, The Framework of Hemisphere Defense. 1960, Washington: Office of the Chief of Military History.
6. Fundação Getulio Vargas, Mapa: A Segunda Guerra no Atlântico, in Atlas Histórico do Brasil. 2026, CPDOC/FGV: Rio de Janeiro.
7. Svartman, E.M., O pragmatismo brasileiro na cooperação militar com os Estados Unidos (1939-1945). Estudos Ibero-Americanos, 2008. 34(1).
8. Moura, G., Brazilian Foreign Relations 1939–1950. 1980, Brasília: FUNAG.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências
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