10 de junho de 2026

Parte I – O Rubber Plan e a cobiça americana pelo Nordeste, por Celso Pinto de Melo

Quando o sistema internacional endurece, precedentes históricos voltam a ser revisitados como parte do repertório estratégico.

Durante a Segunda Guerra, EUA planejaram ocupar o Nordeste brasileiro, incluindo Fernando de Noronha, no chamado Rubber Plan.
Fernando de Noronha tem posição estratégica no Atlântico Sul, crucial para rotas aéreas e marítimas entre Américas, África e Europa.
Getúlio Vargas usou a posição do Nordeste para negociar apoio dos EUA, resultando em investimentos como a Companhia Siderúrgica Nacional.

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Fernando de Noronha e a nova geopolítica do Atlântico Sul

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Parte I – O Rubber Plan e a cobiça americana pelo Nordeste

Da Segunda Guerra Mundial à disputa digital do século XXI, o estreitamento equatorial do Atlântico revela por que Fernando de Noronha continua no radar das grandes estratégias.

por Celso Pinto de Melo

“As nações não têm amigos permanentes, apenas interesses permanentes.”
Lord Palmerston, Parlamento Britânico, 1848

Quando a geopolítica volta a olhar para o Atlântico Sul

Esta é a primeira parte de uma série sobre a importância estratégica de Fernando de Noronha no Atlântico Sul. Nesta Parte I, examinamos como o arquipélago apareceu em planos militares norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente no contexto do chamado Rubber Plan. Na Parte II, discutiremos como transformações mais recentes – cabos submarinos, reorganização das rotas comerciais e novos corredores bioceânicos – recolocam o Atlântico Sul no radar da geopolítica contemporânea.

Quando a força volta a ocupar lugar central nas relações internacionais – não apenas como ameaça, mas como instrumento concreto de política externa –, antigas memórias geopolíticas reaparecem no debate público. A América Latina vive hoje um desses momentos de inquietação. Em um sistema internacional cada vez mais marcado pela rivalidade entre grandes potências, territórios estratégicos passam a ser vistos menos como espaços de soberania formal e mais como posições logísticas em um tabuleiro global em transformação.

A retórica recente sobre a Groenlândia, tratada em certos círculos políticos norte-americanos como um ativo geopolítico potencialmente negociável, é um exemplo revelador desse deslocamento. Ela sugere que, quando a competição internacional se intensifica, a geografia volta a ganhar centralidade. Ilhas, portos, estreitos marítimos e corredores logísticos deixam de ser simples acidentes cartográficos e passam a ser avaliados como elementos de infraestrutura estratégica.

É nesse ambiente que rumores recentes sobre um eventual interesse norte-americano em Fernando de Noronha e na Base Aérea de Natal encontraram ressonância no debate público brasileiro [1, 2]. Ainda que não existam declarações oficiais que confirmem tais intenções, o simples fato de essa hipótese circular revela algo importante: quando o sistema internacional endurece, precedentes históricos voltam a ser revisitados como parte do repertório estratégico.

Esse repertório inclui um episódio pouco conhecido fora de círculos especializados. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos chegou a elaborar planos militares detalhados para ocupar partes do Nordeste brasileiro caso a diplomacia com o governo Vargas fracassasse [3, 4].

A ilha que nunca foi apenas uma ilha

Fernando de Noronha ocupa uma posição singular no Atlântico Equatorial. Localizado próximo ao ponto onde a distância entre a América do Sul e a África é menor, o arquipélago sempre teve potencial logístico nas rotas marítimas e aéreas que conectam os dois lados do Atlântico.

Durante a Segunda Guerra Mundial, essa posição adquiriu importância extraordinária. O Nordeste brasileiro tornou-se peça central na ligação aérea e naval entre as Américas e os teatros de guerra na África e na Europa. A base aérea de Parnamirim, em Natal, transformou-se no principal corredor de travessia transatlântica aliado, ganhando o apelido histórico de “Trampolim da Vitória” [5]. A importância dessa rota pode ser visualizada na Fig. 1, que mostra o corredor estratégico Natal–Dacar no sistema logístico aliado.

Quando aliados ainda eram incertos

A preocupação estratégica norte-americana, no entanto, não se limitava à geografia. Ela também refletia um diagnóstico político. Nos primeiros anos da guerra, Washington considerava o Brasil um aliado potencial, embora ainda incerto. Estudos históricos indicam que militares norte-americanos viam com desconfiança as inclinações germanófilas de setores do alto comando brasileiro, incluindo o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e o chefe do Estado-Maior do Exército, Góis Monteiro [7].

O Brasil aparecia, portanto, como um parceiro estratégico desejável, mas politicamente imprevisível. Para planejadores militares norte-americanos, essa ambiguidade representava um risco potencial para a segurança das rotas atlânticas.

Essa combinação – posição geográfica estratégica e incerteza política – levou planejadores militares norte-americanos a considerar cenários de ocupação preventiva do Nordeste brasileiro caso o país não se alinhasse plenamente ao esforço de guerra aliado.

O plano que previa ocupar o Nordeste

Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, o Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos ordenou a elaboração de um plano militar destinado a assegurar o controle estratégico do Norte-Nordeste brasileiro. Esse planejamento recebeu o nome de Rubber Plan.

Os documentos analisados posteriormente indicam que o plano previa operações anfíbias envolvendo fuzileiros navais norte-americanos para ocupar pontos estratégicos ao longo da costa atlântica brasileira, incluindo Belém, Fernando de Noronha, Fortaleza, Natal, Recife e Salvador [4]. O esquema geral dessas operações pode ser observado na Fig. 2, baseada em compilações de documentos militares norte-americanos.

Quando a geopolítica vira logística

Entre os aspectos mais marcantes desse planejamento está o nível de detalhe operacional. Estudos posteriores mostram que os planejadores militares norte-americanos chegaram a identificar praias específicas de Natal como possíveis pontos de desembarque, designadas nos documentos como “Red”, “Black” e “Blue” [3].

Esse tipo de planejamento ilustra como a geopolítica, em momentos de tensão internacional, deixa de ser abstração e se transforma em logística concreta. A disputa estratégica passa a ser traduzida em elementos físicos: praias adequadas para desembarque, recifes navegáveis, pistas de pouso, aeródromos e portos capazes de sustentar operações militares.

A geopolítica da borracha

Outro fator decisivo naquele momento era a borracha natural. Com a expansão japonesa no Sudeste Asiático em 1941, cerca de 90% da produção mundial desse recurso passou ao controle do Japão. A escassez de borracha ameaçava diretamente a capacidade industrial dos Aliados, especialmente na produção de pneus, aeronaves e veículos militares [4].

Nesse contexto, a Amazônia voltou a ser considerada uma fonte estratégica de látex. O Rubber Plan também estava ligado a essa preocupação: assegurar as rotas logísticas que permitissem aos Estados Unidos manter acesso à produção amazônica.

Vargas e a barganha estratégica

Getúlio Vargas percebeu rapidamente que a guerra alterava o equilíbrio de poder nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos. O Nordeste brasileiro havia se tornado uma peça logística indispensável para o esforço militar aliado.

Essa circunstância criou uma oportunidade de negociação. O governo brasileiro passou a explorar sua posição geográfica como instrumento de barganha diplomática, vinculando o alinhamento militar aos interesses de industrialização do país.

A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, financiada com apoio norte-americano, surgiu nesse contexto [8].

Não se tratou de uma simples troca de bases militares por siderurgia.

O processo foi mais complexo e envolveu uma negociação geopolítica mais ampla, na qual o governo brasileiro utilizou sua posição estratégica para obter ganhos industriais duradouros.

Quando a história reaparece

O Rubber Plan nunca foi executado. A diplomacia prevaleceu e o Brasil acabou se alinhando ao esforço de guerra aliado. Ainda assim, a simples existência desse planejamento revela algo fundamental: em momentos de tensão internacional, as grandes potências tendem a tratar territórios estratégicos não apenas como parceiros soberanos, mas também como variáveis logísticas em seus cálculos militares.

Essa constatação ajuda a entender por que Fernando de Noronha volta a aparecer no debate geopolítico contemporâneo.

Não porque alguém tenha “descoberto” sua importância. E sim porque, sempre que a geopolítica retorna ao centro da política internacional, a geografia volta a ser consultada como um arquivo estratégico.

E, nesse arquivo, o Nordeste brasileiro aparece – ontem como hoje – como uma das chaves logísticas do Atlântico Sul.

O Rubber Plan pertence ao passado.

Mas a lógica estratégica que o produziu – o controle das rotas que conectam continentes – continua viva.

E, no século XXI, ela retorna sob novas formas: cabos submarinos, corredores bioceânicos e a disputa global pela infraestrutura.

Bibliografia

1.  EUA articulam acesso estratégico a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico e investimento bélico. DefesaNet 2025–05–07; https://www.defesanet.com.br/geopolitica/agenda-trump/eua-articulam-acesso-estrategico-a-fernando-de-noronha-e-natal-sob-alegacao-de-direito-historico-e-investimento-belico/.

2.  EUA articulam acesso a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico, diz site. ICL Notícias 2025–05–09; https://iclnoticias.com.br/eua-acesso-a-fernando-de-noronha-e-natal/.

3.  Gannon, M., Invade Brazil?! Proceedings of the U.S. Naval Institute, 1999. 125(10).

4.  Pereira, D.L., O Rubber Plan. 2026, Rio de Janeiro: Memorial da FEB.

5.  Conn, S. and B. Fairchild, The Framework of Hemisphere Defense. 1960, Washington: Office of the Chief of Military History.

6.  Fundação Getulio Vargas, Mapa: A Segunda Guerra no Atlântico, in Atlas Histórico do Brasil. 2026, CPDOC/FGV: Rio de Janeiro.

7.  Svartman, E.M., O pragmatismo brasileiro na cooperação militar com os Estados Unidos (1939-1945). Estudos Ibero-Americanos, 2008. 34(1).

8.  Moura, G., Brazilian Foreign Relations 1939–1950. 1980, Brasília: FUNAG.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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