Paulo Freire, o energúmeno (?), por Rômulo Moreira

Ao falar sobre Educação, Paulo Freire partia de um pressuposto segundo o qual “não há docência sem discência”, pois “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.”

Paulo Freire, o energúmeno (?)

por Rômulo Moreira

O maior educador brasileiro de todos os tempos, o Mestre Paulo Freire, foi chamado de energúmeno. Fui, imediatamente, ao dicionário. Segundo o Houaiss, a palavra energúmeno tem três significados:

(a) Pode se referir, como no Cristianismo primitivo, ao indivíduo possuído pelo demônio; um possesso, endemoniado;

(b) Serve também para designar uma pessoa que age com violência, de forma irracional, brutal; um desequilibrado, desatinado;

(c) Utiliza-se para se dizer que alguém é um indivíduo ignorante, um boçal, imbecil. Esta terceira acepção, certamente, é a mais utilizada por aqui, inclusive pelos próprios (e alguns) energúmenos.

Seja qual tenha sido o sentido que se queira ter dado à palavra “energúmeno”, o seu uso para adjetivar um brasileiro como Paulo Freire foi indevido, despropositado e injusto, para se dizer o mínimo!

Paulo Freire é, sem quaisquer dúvidas (e o mundo sabe disso e o reverencia há décadas), uma das três maiores referências no estudo e no desenvolvimento da Educação no Brasil, ao lado de Anísio Teixeira e Darci Ribeiro.

Aliás, “a influência de Paulo Freire na Alemanha é muito grande. Ele é visto como um dos grandes nomes da pedagogia, ao lado de Immanuel Kant, Jean-Jacques Rousseau, Rudolf Steiner e Maria Montessori. Ainda hoje os livros dele são muito usados em universidades, há inúmeros trabalhos universitários que utilizam as obras dele“, segundo afirma o Professor Heinz-Peter Gerhardt, Doutor em Educação pela Universidade de Frankfurt e Professor visitante da Universidade Católica de Macao, na China.[1]

Dentre as suas inúmeras obras, destaco as minhas preferidas: “Pedagogia da Autonomia”, “Pedagogia do Oprimido” e “À sombra desta Mangueira”, além de um “livro falado” – “O Caminho se faz Caminhando: Conversas sobre Educação e Mudança Social”, transcrição de um longo e proveitoso diálogo entre Paulo Freire e Myles Horton, educador americano, co-fundador, em 1932, da Highlander Folk School e militante no Movimento de Direitos Civis, figura que influenciou, dentre outros, Martin Luther King.

O segundo referido, a “Pedagogia do Oprimido”, é o único livro brasileiro a aparecer na lista dos 100 títulos mais pedidos pelas universidades de língua inglesa, consideradas pelo projeto Open Syllabus.[2]

Ao falar sobre Educação, Paulo Freire partia de um pressuposto segundo o qual “não há docência sem discência”, pois “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.” Para ele, ensinar não poderia ser uma mera transferência de conhecimento, mas, muito mais, uma criação de “possibilidades para a sua produção ou a sua construção.

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Freire não via o aluno/educando/aluna/educanda como um mero objeto do conhecimento do educador/educadora, sendo este apenas o sujeito do processo: um que é formado (e tomado por objeto), outro que forma (o sujeito). Ao contrário, esta relação não era de subordinação, mas de coordenação, devendo ficar claro “que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado.

Logo, docente e discente são, ambos, sujeitos do mesmo processo de conhecimento, não sendo um objeto do outro: “ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, homens e mulheres descobriram que era possível ensinar.” Paulo condenava o que ele chamava de “ensino bancário” em que “o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber.

O ensino bancário, burocratizado, autoritário, insensível, acrítico, é típico de uma “ideologia da opressão”, em que o (a) educador (a) “será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem”, negando, por conseguinte, “a educação e o conhecimento como processos de busca.” Algo muito parecido com a tal ideia da “escola sem partido”, inconcebível com o fato de que “ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra.”

Portanto, trata-se de uma estupidez!, pensar em um espaço pedagógico neutro, “como se a maneira humana de estar no mundo fosse ou pudesse ser uma maneira neutra.” A concepção da chamada escola sem partido, desde um ponto de vista “dos interesses dominantes”, exige “uma prática imobilizadora e ocultadora de verdades.” Freire falava na “politicidade da educação, ou seja, a qualidade de ser política, inerente à sua natureza.

Freire pregava a educação “problematizadora e libertadora”, na qual o (a) educador (a) é, antes de tudo, um “humanista, revolucionário”, crente não em seu saber absoluto e onipotente, mas, ao contrário, crente nos homens e “no seu poder criador”, sendo um verdadeiro “companheiro dos educandos, em suas relações com estes.” Na Educação bancária revela-se a natureza opressora do ensino e do ensinar, obstaculizando “a atuação dos homens como sujeitos de sua ação, como seres de opção, frustrando-os.

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Já na Educação problematizadora, respeita-se, sobretudo, a autonomia e a dignidade do (a) educando (a), privilegiando a crítica e o diálogo. Este respeito erige-se como um “verdadeiro imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros.” O espaço da escola, portanto, é, especialmente, um espaço de crítica e de diálogo permanente e dinâmico, “prática fundamental à natureza humana e à democracia”, uma verdadeira “exigência epistemológica.

Aqui, e não lá, incentiva-se durante todo o processo educador a criatividade, a rebeldia, a insubmissão e a curiosidade (não a “curiosidade ingênua – que caracteriza o senso comum”, mas a “epistemológica”). A (o) educanda (o) deve ser estimulada (o) constantemente a exercer a “sua capacidade de arriscar-se, de aventurar-se”, imunizando-a (o), assim, “contra o poder apassivador do ´bancarismo`.

O aprender e o ensinar são tarefas que exigem este dinamismo decorrente do aprender e do ensinar com uma visão crítica e sempre reflexiva. Não há espaço para meros “depositantes” de conhecimentos e, consequentemente, de “depositários” de saberes. O espaço onde alguém ensina (aprendendo) e outro aprende (ensinando) deve ser libertador, não alienante, mas uma libertação autêntica: “não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo.” Não se trata de uma liberdade sem limite, óbvio que não!, pois “não é possível autoridade sem liberdade e esta sem aquela.”

Na Educação problematizadora educadores e educandos devem, todos!, ser “instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes.” “Um aventureiro responsável”! Aqui, a professora ou o professor não confunde autoridade com autoritarismo, liberdade com licenciosidade. A autoridade mostra-se na “segurança que se expressa na firmeza com que atua, com que decide, com que respeita as liberdades, com que discute suas próprias posições, com que aceita rever-se.

No diálogo com Myles, transcrito para o livro acima referido, o educador americano afirma que usava as “perguntas mais do que qualquer outra coisa”, pois “a razão pela qual você fez a pergunta é porque você sabe algo.” Assim, o ativista americano “redescobriu o que sabia há muito tempo, ou seja, que uma das melhores maneiras de educar é fazer perguntas”, o que “não é praticado muito extensivamente na vida acadêmica.”

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Uma outra grande e valiosa lição de Freire é a que afirma tratar-se o ser humano de um sujeito inacabado e inconcluso. Aliás, “o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida há inacabamento.” O ser humano, enquanto ser inacabado, rejeita a “inexorabilidade do futuro” e o determinismo fatalista típico do discurso neoliberal: “pragmático e reacionário.”

Também a esperança não foi omitida dos textos de Paulo Freire, para quem aquela “faz parte da natureza humana”, razão pela qual devemos sempre lutar para “diminuir as razões objetivas para a desesperança que nos imobiliza.” Ele não concebia, e achava mesmo uma contradição, “que uma pessoa progressista, que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações, que se bate pela decência, que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante, não seja criticamente esperançosa.”

Enfim…, muita coisa ainda haveria para se dizer sobre a genialidade de Paulo Freire, um educador que se negava, tal como Simone de Beauvoir, a “arrastar consigo, para a morte, a humanidade inteira.” Não se tratava de um educador burguês que profetizava “o naufrágio universal.” Seu pensamento não era, portanto, como se referia Beauvoir, “catastrófico e vazio.”[3]

Eis, certamente, o porquê de alguém tê-lo chamado de energúmeno. Paulo Freire era um democrata, na acepção mais clara da palavra. Um homem que pregava o diálogo, inclusive, e principalmente, na sala de aula. Um sujeito que se indignava com a miséria e com a pobreza; era solidário, empático e afável, e detestava o autoritarismo, razão pela qual foi perseguido e preso pela ditadura militar. Abominava a tortura e os torturadores.

Definitivamente, Paulo Freire não se trata de um energúmeno, ele não!

Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS

[1]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2019/04/26/metodo-paulo-freire-e-utilizado-para-integracao-de-refugiados-na-alemanha.htm, acessado em 06 de agosto de 2019.

[2]http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/02/so-um-livro-brasileiro-entra-no-top-100-de-universidades-de-lingua-inglesa.html, acessado em 17 de fevereiro de 2016.

[3] O Pensamento de Direita, Hoje, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, página112.

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6 comentários

  1. A fala do inominável é caso clássico de projeção (projeção é um mecanismo de defesa psicológica no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo são atribuídos a outra(s) pessoa(s).)

  2. Na verdade, o mal maior não foram as ofensas em si, pois conhecemos o padrão do ofensor. Deprimente foi a reação da platéia que o rodeava, aplaudindo aquela bisonha expressão de barbarismo intelectual.

  3. Para o presidente bozo-miliciano Paulo Freire é um energumeno e seu ministro da Educação deve ser para ele um gênio. Esta tudo certo. Nos é que ficamos, todos os dias, desnorteados com essa gente.

  4. Zapeando, vejo na TV Cultura um trecho de entrevista por Marcelo Tas de Danilo Gentili, onde este é perguntado por que crítica Paulo Freire. Gentili gagueja e diz que não sabe porque…Tas começa a dissertar sobre Freire, seu reconhecimento internacional, etc. quando o líder de audiência do “De Noite”, de olhos arregalados, a pensar como sair do mico, interrompe e declara:
    “Não é que eu não gosto dele, nem o conheço direito…eu não gosto é de quem gosta dele!…”
    Então, após esta “pausa”, continuei zapeando.

    Deve estar na Web, confiram se quiserem.

  5. Sobre o assunto já comentei que nada vindo deste individuo hoje aboletado no poder tem valor.
    Atualmente, quando se trata de opiniões do executivo, e algumas do judiciario, nada de relevante é produzido. Mas o mundo não se recusa a enxergar o valor de nossos cientistas e, confirmando a tendência, de qualquer outra pessoa que tem sua luta pela humanidade. Interessante é que o chefe de governo brasileiro tenta desqualificar grandes historias de vida pois só reconhece como “do bem” assassinos e torturadores do naipe de um Ulstra.
    https://www.jb.com.br/ciencia_e_tec/2019/12/1020973-ricardo-galvao–ex-inpe–e-greta-estao-em-lista-de-destaques-da-nature.html
    Parabéns ao grande Fisico Galvão e tambem a imensa “pirralha” Greta. Ambos gigantes, cuja produção para o bem da humanidade jamais um anão intelectual conseguirá sequer arranhar.

  6. Como sempre, péssima escolha de adjetivo! O Sr. Presidente da República tem o péssimo hábito de falar demais, e assim, perde a oportunidade de ficar calado!
    De três significados para tal adjetivo, comparar o Mestre Paulo Freire com um imbecil, idiota e até mesmo um burro, embora não ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, o Mestre Paulo Freire, certamente, não condiz com a verdade.
    Entretanto um segundo significado para o termo usado, aparentemente, cabe como uma luva ao que tenho visto e ouvido falar sobre o Senhor Presidente, que fala sem pensar ou aquele indivíduo que fala pelos cotovelos.
    Muito embora, também não o conheça pessoalmente.

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