Políbio e a agonia facebookiana da democracia brasileira, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por mais que eu me recuse a compartilhar conteúdos de direita ou de extrema direita posso ser exposto à qualquer tipo de propaganda que interesse ao Facebook ou que aquela rede social seja paga para me enviar.

Políbio e a agonia facebookiana da democracia brasileira

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem o jornalista Kennedy Alencar publicou o seguinte Twitter:

“Neste momento, o Facebook está sugerindo grupos bolsonaristas para internautas. Essas empresas, Twitter e Google incluídos, estão minando a democracia no mundo. É preciso reagir, pois estimulam a mentira e a radicalização ignorante do debate público.”

Momentos depois notei a inserção na minha “time line” do seguinte convite para participar da criação do partido de Jair Bolsonaro na minha cidade:

“Precisamos do apoio de todos vocês, você que está na região Oeste de São Paulo ou em todo Brasil, dirija-se ao cartório de notas mais próximo. Veja o vídeo como é fácil e rapido!!!
Aqui em Osasco o cartório fica na “ Rua Dona Primitiva Vianco 886, centro de OSASCO”

A página nem seu deu ao trabalho de disfarçar as ligações perigosas entre a nova política partidária e os velhos donos de cartórios da cidade.

Não pedi para receber essa mensagem do Facebook. O website do Zuckerberg poderia perfeitamente filtrar minhas experiências “on line” evitando o envio desse tipo de propaganda para a minha “time line”. O problema é justamente esse. A “time line” não é minha e sim do Facebook. Por mais que eu me recuse a compartilhar conteúdos de direita ou de extrema direita posso ser exposto à qualquer tipo de propaganda que interesse ao Facebook ou que aquela rede social seja paga para me enviar.

O algoritmo do Facebook pode tanto criar o “efeito bolha”, confinando o usuário nas comunidades de sua preferência. Mas ele também pode romper os limites das escolhas pessoais feitas pelo usuário expondo-o à propaganda indesejada ignorando qualquer padrão de afinidade. O critério utilizado por Zuckerberg para fazer uma coisa ou outra é obviamente a lucratividade. Nesse momento ele escolheu lucrar com a expansão da extrema direita brasileira e não há nada que os usuários de esquerda possam fazer no Facebook.

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As escolhas do Facebook confirmam inteiramente as palavras de Jonathan Crary:

“Um dos objetivos de empresas como o Google, o Facebook e outras (daqui a cinco anos, os nomes podem ser outros) é normalizar e tornar indispensável, como esboçou Deleuze, a ideia de uma interface contínua – não literalmente sem costuras, mas uma ocupação relativamente ininterrupta com telas iluminadas de diversos tipos, que exigem constante interesse ou resposta. É claro que há interrupções, mas não são intervalos nos quais seja possível alimentar e apoiar qualquer tipo de contraprojeto ou linha de pensamento. Na medida em que a oportunidade de transações eletrônicas de todo tipo se torna onipresente, desaparecem os vestígios que costumava ser a vida cotidiana livre de intrusões corporativas.” (24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono, Johathan Crary, UBU Editora, São Paulo, 2017, p. 85)

Os Cartórios de Osasco e o Facebook estão se intrometendo na política. E não há nada que os partidos de oposição à tirania possam fazer. Primeiro, porque o CNJ se recusou a proibir o abuso de poder econômico pelos oficiais de cartório bolsonaristas. Segundo, porque Zuckerberg já demonstrou que é capaz de fazer qualquer coisa para garantir a hegemonia dos interesses norte-americanos desde que passou a fornecer informações de seus “clientes” à NSA.

No parágrafo anterior utilizei o vocábulo “clientes” em vez de “usuários” por razões obvias. No princípio de sua existência, a internet era povoada por usuários cujos movimentos não podiam ser espionados e condicionados por empresas de tecnologia. Isso obviamente deixou de existir no exato momento em que os gigantes como o Google e o Facebook começaram a explorar os metadados dos seus clientes para obter lucro, realizar experiências de engenharia social e, é claro, garantir a vitória eleitoral dos políticos com capacidade econômica de pagar sofisticadas análises dos dados coletados por essas empresas.

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O clientelismo garantia a coesão social de Roma preservando a hierarquia social entre patrícios e plebeus, romanos e não romanos, homens livres e escravos, civilizados e bárbaros. O clientelismo virtual também garante a hierarquia entre Zuckerberg e seus usuários, norte-americanos e outros povos, homens livres e viciados em internet, donos de empresas de tecnologia da informação e “clientes” que produzem metadados gratuitamente.

Em Roma, a coesão social não significava nem distribuição de renda nem igualdade jurídica entre as pessoas. Os romanos adoravam ordem e hierarquia. Eles detestavam qualquer tipo de igualdade e destruíram todos os regimes democráticos com os quais entraram em contato. O mesmo pode ser dito dos EUA e dos seus patrícios digitais.

Essa analogia entre os romanos e os donos de empresas de tecnologia parece arbitrária. Mas ela deixa de ser se levarmos em conta as palavras de Fustel de Colanges:

“… o gênio romano, embora as tradições municipais o impedissem de elaborar leis para os vencidos, não podia, entretanto, permitir que a sociedade se dissolvesse. Em princípio, eram colocados fora do direito, mas de fato viviam como se o tivessem. Mas exceto isso, e salvo a tolerância do vencedor, deixaram-se cancelar todas as instituições dos vencidos e desaparecerem todas as suas leis.

O imperium romanum apresentou, principalmente sob o regime republicano e senatorial, esse espetáculo singular: uma única cidade permanecia de pé e conservava instituições e um direito; todo o resto, isto é, oitenta milhões de almas, ou já não tinham mais nenhuma espécie de lei ou pelo menos não as havia reconhecido pela cidade soberana. O mundo então não era exatamente um caos, mas a força, o arbítrio e a convenção,. Embora sem leis e princípios, sustentavam sozinhos a sociedade.” (A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 2011, p. 501/5020

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Nossas instituições começaram a ser destruídas pela Lava Jato. O processo de destruição se acelerou com o golpe de 2016. A subsequente eleição de Jair Bolsonaro consolidou um fenômeno no centro do qual o Facebook ocupa uma posição de destaque desde que Sérgio Moro e Deltan Dellagnol foram transformados em celebridades virtuais na rede social de Mark Zuckerberg.

Sempre que aparece em público o dono do Facebook diz que está profundamente comprometido com uma “missão civilizatória”. Me parece evidente que essa missão é semelhante àquela que o geógrafo e historiador Políbio (203 a.C. — 120 a.C) atribuiu a Roma. Zucerberg rejeita qualquer compromisso específico com a preservação das nossas leis e com a higidez da democracia brasileira. Nesse sentido, podemos dizer que Kennedy Alencar acertou na mosca. As empresas de tecnologia realmente “…estão minando a democracia no mundo.” Elas fazem isso obtendo lucro e desdenhando da cidadania dos seus “clientes”.

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