Por que perdemos nossa historicidade?, por Henrique Matthiesen

Aliás, quanto mais alienado e bestificado, melhor inserido no mercado, no consumo e na “sociedade”; afinal compreender o seu tempo e espaço como o sentido histórico o faz exceção e o torna “desconectado” da contemporaneidade.

Salvador Dali

Por que perdemos nossa historicidade?

por Henrique Matthiesen

O genial Paulo Freire definiu de forma categórica: “O homem, como um ser histórico, inserido num permanente movimento de procura, faz e refaz o seu saber”.

Afinal, o que vem a ser sujeito (homem) histórico? A percepção da realidade somada à capacidade de transformação de inovação e o estabelecimento de consciência, inclusive, de finitude, faz do homem um ser histórico, a partir de seu processo de humanização.

A reflexão, atributo exclusivo da espécie “homem” como senhor e autor de suas próprias vontades, traz a historicidade ao ser humano. A realidade, a perspectiva temporal e espacial, as ações humanas que compõem sua história.

Mais do que uma reflexão filosófica do homem como ser histórico, pondero a sua perda perceptiva de sua própria historicidade, afinal, vivenciamos uma involução do processo civilizatório e a grande decadência da humanização do próprio homem.

Ensejo este que nas ponderações do pensamento de Paulo Freire traz a incômoda meditação da oposição entre humanização e desumanização, que segundo sua lógica, só é possível humanizar o homem por meio da edificação da consciência crítica de uma educação libertadora, que se contrapõe à opressão da ordem vigente desumanizadora.

Lógica perversa, excludente e bestial que nos faz perder o sentido de nossa própria historicidade, uma vez que transforma o homem – sujeito histórico pelo seu protagonismo da própria existência – em meros consumidores e competidores de uma lógica mercadológica e acrítica.

O embutimento da negação do atributo da reflexão, da análise e da percepção crítica por meio do aculturamento têm decomposto o processo humanizatório e o processo histórico, fruto da inflexão de a sua própria evolução.

A perda do sentido histórico, na rendição e no atrofiamento conceitual de compressão de si próprio, coloca o homem refém da lógica do aqui e agora, desconsiderando e alienando o sentido construtivo e evolutivo da própria existência.

Aliás, quanto mais alienado e bestificado, melhor inserido no mercado, no consumo e na “sociedade”; afinal compreender o seu tempo e espaço como o sentido histórico o faz exceção e o torna “desconectado” da contemporaneidade.

Neste sentido, tudo se transforma em instantâneo, numa corrida insana, pois a existência só tem sentidos se consumida, e de preferência, o mais rápido possível para consumir mais e mais.

Qual o sentido histórico disso?

Como construir nossa historicidade neste perverso e inculto sistema? Como evoluir enquanto homem, sociedade, na instantaneidade irrefletida e imponderada da rapidez da bestialidade consumista?

Sim, transformamos nossa historicidade em consumo. Tudo é consumo, nada é história. E assim perdemos nosso sentido de homem, um ser histórico.

Henrique Matthiesen – Bacharel em Direito. Pós-graduado em Sociologia.

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