Pregar abstinência ou desbunde não resolve o problema da gravidez precoce, por Carolina Maria Ruy 

Assim como a ministra não vai conseguir se impor nas relações sexuais de cada jovem brasileiro, tais nichos de evoluídos do comportamento vão se alienar cada vez mais se continuarem a debochar

Foto Bioblog Novozyme

Pregar abstinência ou desbunde não resolve o problema da gravidez precoce 

por Carolina Maria Ruy 

Em entrevista para o Estúdio CBN, dia 2 de dezembro de 2019, o infectologista Ricardo Diaz falou sobre a disseminação e a busca de soluções para o controle da AIDs. Segundo ele, nos últimos anos a epidemia teve um salto e, posteriormente, uma sensível queda, entre homens jovens. Isso se deu possivelmente como consequência do advento de um medicamento chamado PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) que previne a contração do HIV, assim como um anticoncepcional previne a gravidez.

Diaz afirmou que esses remédios estão pela primeira vez mudando a epidemia de forma efetiva e reconheceu que o Estado e agentes de saúde não foram competentes em mudar a sexualidade das pessoas só com base em campanhas alertando para o problema das DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis).

Segundo ele “a despeito das atividades das pessoas a gente tem que oferecer essa condição de ela não pegar o HIV”. E concluiu dizendo que: “É a mesma coisa que eu chegar para um paciente e falar: ‘Seu colesterol está alto, mas não vou te dar um remédio para o colesterol porque antes quero que você pare de fumar’. Isso não é ético”. Ou seja, não cabe ao Estado culpar o indivíduo por um problema que se tornou coletivo. O que o poder público precisa é buscar uma solução efetiva.

Na contramão de inovações como esta, a proposta da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de incentivar a abstinência sexual para inibir a gravidez precoce e todos os problemas que dela advém, não apresenta soluções efetivas e responsabiliza os indivíduos. No caso, os jovens, muitas vezes carentes de recursos e de informações. A ministra lida com o assunto reforçando o discurso dos segmentos mais conservadores da sociedade. Em pouco tempo, porém, a realidade mostrará da pior forma que uma proposta como esta está fadada ao fracasso.

Não vai funcionar porque, a exemplo do que já ocorreu nas tentativas de controle da epidemia da AIDs, ela não vai convencer os jovens a praticarem a abstinência sexual. Ela não vai, enfim, colocar-se, como Estado, no momento íntimo em que o jovem escolhe o que faz com seu corpo.

E, de pouco adianta o deboche de nichos dos setores ditos progressistas, que gostam de exibir sua pretensa superioridade comportamental. Assim como a ministra não vai conseguir se impor nas relações sexuais de cada jovem brasileiro, tais nichos de evoluídos do comportamento vão se alienar cada vez mais se continuarem a debochar da mentalidade conservadora de muitos cidadãs e cidadãos brasileiros.

Mais do que isso, esta resposta debochada e exibicionista à ministra Damares tem um lado perverso e nocivo. Pregar o incentivo a uma sexualização exacerbadamente liberal é o outro lado da moeda da pregação da abstinência e castidade, igualmente patrulhador pois sinaliza ao jovem que se ele não for liberal e permissivo sexualmente ele pode ser visto como careta, esquisito e fora de moda. É como se de um lado o sexo fosse proibido e do outro, obrigatório.

A solução está no acesso a informações confiáveis e ao conhecimento atualizado e, principalmente, no incentivo ao senso crítico para que os jovens possam compreender as questões psicológicas, sociais e de saúde envolvidas na iniciação e desenvolvimento da vida sexual.

Está também no acesso à contraceptivos, para homens e mulheres, e na oferta de meios legais e que respeitem a saúde da mulher de evitar uma maternidade ou paternidade inoportuna, considerando que isso pode também decorrer da violência sexual.

Tais soluções estão nas mãos do Estado, mas também das famílias, das escolas e de entidades de classe que podem também exercer esse papel de fomentar o debate e a busca de informações entre os trabalhadores.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical  

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3 comentários

  1. O partido do deus-diabo de Jair Bolsonaro e Damares Alves, essa versão evanjegue do Hezbollah, não está preocupado com as meninas e sim com a criação de polêmicas que desviem a atenção do debate público em torno de questões econômicas. O problema: moralidade não enche barriga. Quando essa porra de país explodir por causa da fome nem os pastores conseguirão segurar a manada esfomeada.

  2. Abstinência sexual não resolve problema nenhum, que dirá a gravidez. Infelizmente a autora acusa uma simetria inexistente. O tal desbunde, que ela atribui a uma ala progressista, nunca foi política pública, enquanto abstinência sexual acaba de debutar como tal. Não dá para fazer a critica diretamente ao fato sem ter que dar uma leve chicotada do outro lado?
    O discurso da abstinência vai pegar porque a sociedade é hipócrita, especialmente seu ramo evangélico. Mas vai pegar apenas como discurso porque como prática é impossível. A suposta abstinência sexual dos padres católicos revelou uma gigantesca rede de pedofilia. A hipocrisia está na base disso.

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