Que país temos após a crise?

Que país temos após a crise?

por Maister F. da Silva, Anderson Barreto Moreira e Rodrigo Giovanaz

Fazer qualquer balanço definitivo neste momento é simplesmente impossível. A crise ainda não está encerrada, mesmo que a tendência já seja de retorno a “normalização”, ou o que signifique “normal” nesse país em transe.

Porque o governo golpista sobreviveu?

– Desde o início da crise – que teve como centro as políticas neoliberais e a entrega da Petrobras para o capital financeiro – o governo deixou claro que, tanto o atual presidente da Petrobrás Pedro Parente, quanto a política de reajustes, que atende somente os “acionistas” internacionais, seriam mantidos. Ao que tudo indica, caso a crise de fato colocasse em xeque a existência do governo, muito mais provável seria a saída de Temer do que a de Pedro Parente.

– Tratou-se de uma disputa pelo espólio econômico do Estado e, em segundo lugar, de uma disputa pela direção política do projeto golpista vigente.

– Nenhuma das forças desafiantes ao governo apresentou um projeto alternativo. Mesmo os pedidos de intervenção militar e seu pseudo patriotismo, que se alastraram e ganharam base social, não tocaram em nada central da política econômica atual. As frações burguesas do golpe em sua maioria, aparentemente, ainda apostam no processo eleitoral que legitime seu projeto. A proximidade das eleições torna mais proveitoso o desgaste a médio prazo

Quais os problemas que permanecem?

– O motivo da greve/locaute. A política de preços não pode ser alterada sem que mude o governo. Ela é parte do projeto antinacional.

– Ficou clara a contradição do projeto neoliberal liderado por Temer. Num contexto de crise econômica não é possível manter uma política de austeridade e, ao mesmo tempo, manter base de apoio da burguesia interna. O capital financeiro deixou claro em que margens a burguesia interna pode atuar, demonstrou de modo cristalino que este é o SEU governo.

– Outras questões que atingem mais diretamente a vida cotidiana, como gás e gasolina, simplesmente permanecem como estão, com aumentos permanentes. Continua em aberto o espaço que pode ser ocupado pelos setores progressistas. Quem vai pagar a conta desse acordo em que o governo se comprometeu, de modo escandaloso, a continuar drenando riqueza nacional para o capital financeiro?  E os impactos das perdas bilionárias oriundas da paralisação? As contradições já existentes se acentuaram e outras surgem como consequência da crise.

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Como fica a direita?

– Os setores fascistas saíram mais uma vez com sua tática de desestabilização. Ainda não está claro se desde o início possuíam a força que demonstraram a partir do dia 24/05 (quando arrastaram a paralisação e setores da sociedade para a pauta da intervenção militar) ou se de fato foram crescendo ao longo dos dias. O fato é que saíram vitoriosos. Vão permanecer ativos no próximo período e tendem a ser ativos não só até as eleições, mas também no próximo governo.

– A simbologia nacionalista da ultra direita não encontra correspondência na política econômica entreguista que ela defende. A esquerda pode tirar grande proveito desta contradição: como defendem a pátria e ao mesmo tempo permitem a entrega das riquezas nacionais, a privatização da Petrobrás, entre outras coisas? Como defendem os trabalhadores e ao mesmo tempo negam pautas que melhorem a vida destes? Não é um debate novo, porém, cada vez mais se mostra urgente.

– Se de início a postura de setores como a mídia,  da direita, inclusive o próprio governo, foi de apoio, no final foram praticamente obrigados a  denunciar a escalada intervencionista e saíram em defesa das eleições. Por mais que saibamos que estes setores golpistas não respeitam nem democracia e nem eleições, não se pode negar que, neste momento, tal defesa se faz importante.

Como fica a esquerda?

– Ficou presa no debate entre locaute ou greve. A princípio não compreendeu que seu papel era disputar na sociedade, e não a paralisação em si (como não houve uma tentativa real de apoio ou disputa é impossível afirmar se havia ou não espaço para os setores progressistas). Alguns setores agora dizem “eu avisei”, outros lamentam a falta de disputa. O fato é que houve poucas iniciativas que não foram suficientes para a disputa que se apresentava. É fato que o conservadorismo era presente na paralisação, assim como é em tantas outras categorias, mas até onde se sabe é exatamente a tarefa da esquerda politizar e conquistar tais setores.

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– Mostrou que tem dificuldade em agir fora de contextos e situações já conhecidas. Além disso, tem base social organizada limitada e encontra limitações para agir em conjunturas onde horas e dias são decisivos. Teme se arriscar nas águas turvas da luta de classes, como se esperasse sempre uma categoria organizada e com horizonte de esquerda para daí poder apoiar.

E os militares e setores de segurança?

– Estes claramente fizeram jogo duplo. Apesar dos anúncios bombásticos do uso da força pelo governo, em muitos lugares foi visível, literalmente, o apoio das forças de segurança. A demora do alto comando das Forças Armadas em negar de modo firme os pedidos de intervenção militar também ficou visível. Entretanto, não se consegue definir se há um apoio amplo em toda a hierarquia ou se é difuso e com mais peso nos setores de patente baixa. Ainda que componham com o governo, também flertaram com o golpismo, fizeram seu teste de até onde possuem apoio popular

– As forças militares se consolidaram como força política e com potencial para se tornar um “poder moderador” dos demais poderes da República. Não fazem questão de esconder sua falta de apreço com este governo. Porém, também parece que não querem se arriscar numa aventura golpista.

Para onde vamos?

Sem dúvida a conjuntura foi alterada, forças sociais entraram em cena. A eleições de outubro ainda permanecem uma incógnita, o ponto central segue sendo Lula e a falta de opções dos setores golpistas. O governo se mantém, mas já não existe. Não cai porque um novo arranjo neste momento é inviável. Os setores fascistas saíram à luz do dia e ganharam seu espaço. A esquerda ficou atordoada. A inquietação social, o desespero de um país que se esfacela, são combustíveis para novas explosões sociais. Devemos estar preparados!

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Lula Livre!

Fora Temer e Pedro Parente!

Por eleições livres e Democráticas!

 

Maister F. da Silva – Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores

Anderson Barreto Moreira – Militante do Levante Popular da Juventude

Rodrigo Giovanaz – Dirigente do Cepers Sindicato/Núcleo de Pelotas

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15 comentários

  1. Um Pais sem rumo

    Desde o primeiro momento da greve vi ali a possibilidade das esquerdas e movimentos sociais levarem até a população todas as questões que temos debatido ao logo do processo do golpe até a prisão de Lula. Era o momento de se tentar esclarecer aos caminhoneiros e à população sobre a reais intenções dos golpistas, incluindo a imprensa brasileira, com a Petrobras e tudo o mais. Mas é isso: o bonde passou e o PT não pegou. Preferiu ficar com suas poucas certezas.

  2. O que ficou da greve

     Coisas que ficaram bem claras:

    A CUT é especialista em passeatas na Av. Paulista.

    O país de Boulos se resume às causas do MTST.

    Stédile pensa com a barriga. Sem comida dá boa necas de protestos.

    O PT um partido zumbi à procura de um líder. Sem Lula cada vez mais se caracteriza pelo partido da lambança. 

    A esquerda só pensa em CPI.

    Temer e a direita cada vez mais fortes.

    O povo cada vez mais alienado e analfabeto politicamente.

    Ciro Gomes patina de 4.

    PSDB se correr o bicho pega e vice-versa.

  3. Novamente a esquerda ficou

    Novamente a esquerda ficou paralisada, como em 2013 e demonstrou que não tem capacidade de agir fora da caixinha. As centrais sindicais, notadamente a CUT e a CGT, também seguiram petrificadas. Aos questionamentos recebíamos de militantes a desculpa esfarrapada de que não se tratava de greve e sim de locaute. E o cavalo encilhado da oportunidade passou enquanto a esquerda olhava pela janela. Seu objetivo único é eleitoral. Quanta saudade de Leonel de Moura Brizola.

  4. Pós crise

    A crise é e será permanente.

    De inação em inação o golpe da banca dos vagabundos do mundo avança a passos firmes.

  5. só culpo o PT por uma coisa…

    por ele estar impedindo, com a falta do corpo a corpo, que os indivíduos ou grupos sociais possam exercer influência uns sobre os outros

    estão mantendo o PT preso na rede, com Lula e com tudo, e ele nem se toca

    rede a que me refiro é apenas um podendo influênciar milhares e milhares sem influênciar nenhum, ninguém

    em tese, melhor arma da direita ou dos estados unidos

  6. Aqui está o cerne da questão.

    A “ultra direita nacional” é inimiga do grande capital internacional.

    A EQUAÇÃO entre os grandes interesses internacionais (que o PSDB e parte do PMDB, entre outros representam) e os interesses da “burguesia nacional” NÃO FECHA.

    Não por acaso o governo militar se sustentou com forte crescimento, alavancado por um Estado indutor.

    “- A simbologia nacionalista da ultra direita não encontra correspondência na política econômica entreguista que ela defende. A esquerda pode tirar grande proveito desta contradição: como defendem a pátria e ao mesmo tempo permitem a entrega das riquezas nacionais, a privatização da Petrobrás, entre outras coisas?”

  7. constatação….

     ·  

    … não existe mais nenhuma ligação entre os golpistas do governo ( inclusive o funcionalismo corrupto do judiciário e de todas as áreas) e o povo…
    as eleições, caso aconteçam, vão deixar um líder do povo nas mãos de uma máquina podre e corrupta em todos os níveis…
    Não precisamos de uma eleição, … precisamos de uma revolução francesa…

     

  8. Engenharia de Crises

    A pergunta-título… A engenharia de crises encurta o alcance de análises, previsões e projetos para populações inteiras.

    [video:https://youtu.be/qd0Q4EnFN04%5D

    A engenharia de crises faz uso intenso de operações psicológicas e tem uma dramaturgia própria, com atores próprios e capazes de encenar em situações de comoção real, em ambientes de tragédia e até de guerra ou em sua preparação. Será difícil acreditar, mas há notícia de aluguel de cadáver para false flag (a  partir de ~7m):

    [video:https://youtu.be/aKffDI0SrdY%5D

    Imprensa é coisa do século passado, a modernidade é da “comunicação estratégica”, que explora qualquer tema.

    [video:https://youtu.be/8YLw4lSmmI8%5D

  9. Após a crise? Esta não acabou!

    Pela direita uma grande parcela dos golpistas se afasta do Temer. Pela esquerda, trata-se de um tipo de greve muito distante do que se acostuma, até por que em diversos outros países o movimento de caminhoneiros é acionado pela direita e, em muitos casos, com apoio da CIA (EUA). Em compensação, as bancadas e dirigentes de esquerda lutaram para informar ao povo do verdadeiro culpado nesta greve: a política de preços neoliberal. Com apoio do PIG, o comando golpista vendeu a ideia de que os culpados são os impostos. O sistema financeiro provou estar no comando deste processo golpista. Temer apenas defendeu o seu grupo político da Lava Jato. O responsável real pelo golpe são os tucanos e tudo o que representam.

  10. acho que não é bem assim..

    Minha visão sobre essa questão difere um pouco da visão dos militantes, que me pareceu presa em conceitos que eu chamaria (nesse momento, especificamente) de “esquerdo-burocráticos”..

    A pauta do movimento dos caminhoneiros era baixar preço do diesel (ninguém falou em gasolina ou gás), baixar o pedágio, melhorar estradas e coisas do gênero PARA OS CAMINHONEIROS, não tem NADA A VER com políticas neoliberais e a entrega da Petrobras..

    .. os caminhoneiros não estão nem aí para isso.

    Os fascistas instrumentalizaram o movimento com o objetivo de impedir as eleições e aprofundar o golpe com uma intervenção militar ou uma eleição indireta.

    Claro que eles não tem projeto alternativo, o fascismo “só” quer que pobres e esquerdistas deixem de existir, trata-se de uma parcela da população que assumiu sua condição racista e quer impedir a outra parte de votar.

    E eles NÃO saíram fortalecidos, a luta foi um fiasco.

    Sim, causou enorme dano, mas não teve a adesão que esperavam.

    Na verdade, as pessoas começaram a aderir, quando viram que se tratava de um movimento fascista contra elas próprias (pedir ditadura militar significa negar o direito das pessoas votarem), desistiram..

    .. por outro lado, o fato do governo ter atendido todos os pedidos dos caminhoneiros contribuiu decisivamente para o fim do movimento.

    Não há fim da crise.

    A crise é o golpe que se iniciou em 2013.

    O que nós vemos de lá prá cá são capítulos dessa crise.

    E essa crise revela uma parcela da população que está trabalhando com estrangeiros para que a outra parte NÃO tenha plena cidadania.

    São escravistas que assumiram sua condição e dizem em alto e bom som, queremos ditadura.

    Por outro lado, o que realmente fica patente nesse último movimento é que A POPULAÇÃO está SEDENTA por alguma coisa que mude o seu destino.

    Infelizmente, nossas esquerdas não tem resposta para essa necessidade.

    Nós temos tudo: estamos do lado certo da justiça, temos o povo conosco, a opinião pública mundial, temos história, temos quadros, mas por alguma razão, que eu acho que está lá em curitiba, não saímos do lugar.

    Em termos de organização para luta, os fascistas se mostram infinitamente mais competentes.

    Escrevi um pouco mais sobre esse movimento aqui: https://jornalggn.com.br/usuario/jruiz

  11. + comentários

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