24 de junho de 2026

Bolívia entre a ascensão da direita e o retorno das ruas, por Rasem Bisharat

Como a direita conseguiu ascender em um país que era considerado um dos mais importantes bastiões da esquerda na América Latina?
Rodrigo Paz - Divulgação via Reuters

Bolívia enfrenta crise social e política com protestos contra o governo de direita de Rodrigo Paz e bloqueios em La Paz.
Ascensão da direita decorre de desgaste da esquerda após 20 anos, crise econômica e divisões internas no país.
Questão palestina reflete disputa ideológica maior entre direita pró-Ocidente e esquerda anti-imperialista na Bolívia.

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Bolívia entre a ascensão da direita e o retorno das ruas: o país está entrando em um novo ciclo de explosão social?

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por Rasem Bisharat

A Bolívia vive hoje uma das fases políticas e sociais mais tensas dos últimos anos, depois que os protestos de trabalhadores e camponeses contra o presidente de direita Rodrigo Paz se transformaram de uma onda de indignação social em uma crise que ameaça o equilíbrio do Estado e sua estabilidade política. As cenas que passaram a marcar as cidades bolivianas — bloqueios de estradas, cerco à capital La Paz, exibição de imagens de Che Guevara e entoação de palavras de ordem pela derrubada do governo — revelam que o que está ocorrendo vai muito além da simples contestação ao aumento dos preços ou à escassez de combustíveis. Amplos setores dos manifestantes veem o conflito atual como uma disputa em torno da própria natureza do Estado e do futuro do modelo político e econômico que governará a Bolívia após duas décadas durante as quais a esquerda dominou a vida política do país.

A atual crise adquire especial relevância porque ocorre em um momento de profunda transformação na América Latina, onde a influência de alguns governos tradicionais de esquerda está diminuindo diante da ascensão de correntes conservadoras e de direita que defendem a estabilidade econômica e a abertura aos mercados e às instituições ocidentais. Nesse contexto, a ascensão da direita na Bolívia não foi um acontecimento isolado, mas o resultado de uma longa acumulação de crises econômicas, divisões políticas e do desgaste que atingiu a experiência da esquerda após anos prolongados de governo. No entanto, uma vez no poder, o novo governo rapidamente se deparou com realidades sociais complexas que fizeram de suas políticas econômicas alvo de ampla rejeição entre os setores populares e sindicais.

Dessa forma, a questão colocada hoje não diz respeito apenas ao destino do governo de Rodrigo Paz, mas ao futuro do próprio equilíbrio político boliviano: como a direita conseguiu ascender em um país que era considerado um dos mais importantes bastiões da esquerda na América Latina? Os atuais protestos refletem o início de um retorno da esquerda ao centro da cena política? Ou o país entrou em uma nova fase que ultrapassa a divisão tradicional entre direita e esquerda? No pano de fundo de todas essas questões, a causa palestina surge como parte de um conflito ideológico mais amplo entre dois projetos distintos de Estado, de alianças internacionais e de posicionamento dentro do sistema mundial.

Como a esquerda perdeu a Bolívia após duas décadas de hegemonia?

Desde a chegada de Evo Morales ao poder em 2006, a Bolívia parecia ingressar em uma nova etapa histórica marcada pela ascensão da esquerda popular na América Latina. O país tornou-se um dos exemplos mais destacados do que ficou conhecido como a “maré rosa”, ou seja, a onda de governos de esquerda que defendiam a justiça social, a soberania nacional e o enfrentamento da hegemonia norte-americana. Morales apoiou-se em uma ampla aliança social composta por sindicatos de trabalhadores, camponeses, povos indígenas e setores da mineração e da energia, beneficiando-se do boom global dos preços das commodities para ampliar os gastos sociais, reduzir os índices de pobreza e fortalecer a presença dos grupos marginalizados nas instituições do Estado.

Contudo, esse modelo, que em seus primeiros anos parecia bem-sucedido e capaz de remodelar a sociedade boliviana, começou gradualmente a enfrentar profundas contradições internas. O crescimento econômico sobre o qual os governos de esquerda se apoiavam não era resultado de uma verdadeira transformação estrutural da economia, mas sim dos elevados rendimentos provenientes das exportações de gás e de matérias-primas. Com a queda dos preços internacionais da energia e a redução das reservas de moeda estrangeira, tornou-se evidente a fragilidade do modelo econômico boliviano, uma vez que os governos sucessivos foram incapazes de diversificar a economia ou construir uma base produtiva estável capaz de resistir às crises internacionais. Assim, o país passou de uma fase de relativa prosperidade para uma crise estrutural que revelou os limites do projeto econômico da esquerda.

Ao mesmo tempo, a imagem da esquerda começou a se desgastar política e moralmente após longos anos no poder. O Movimento ao Socialismo (MAS), que originalmente surgiu como um movimento de protesto representando os pobres e os povos indígenas, transformou-se gradualmente em uma estrutura de poder burocrática e enfraquecida, perseguida por acusações de corrupção, clientelismo e burocratização. Com o passar do tempo, parte da classe média urbana passou a sentir que a esquerda já não representava o projeto de mudança que havia prometido, mas havia se tornado parte do sistema tradicional que controla o Estado e protege seus próprios interesses. Essa transformação privou a esquerda de uma parcela da legitimidade simbólica que anteriormente derivava de sua imagem como movimento de resistência às antigas elites.

A crise tornou-se ainda mais complexa devido às divisões internas dentro do próprio campo da esquerda, especialmente após a intensificação das divergências entre Evo Morales e o presidente subsequente, Luis Arce. O conflito entre ambos levou à fragmentação da unidade da esquerda e enfraqueceu sua capacidade de administrar a crise econômica e política, enquanto para a opinião pública parecia que a elite governante estava mais preocupada com disputas de poder do que com soluções reais para os problemas sociais. Essa divisão ofereceu à direita uma oportunidade histórica de retornar, num momento em que a esquerda aparecia desprovida de coesão e de capacidade de renovação.

Nesse contexto, Rodrigo Paz ascendeu aproveitando um amplo sentimento de desgaste popular após anos de polarização e crises econômicas. Apresentou-se como o candidato da estabilidade e da recuperação econômica, apoiado pelos setores empresariais e pela direita conservadora, promovendo um discurso baseado na restauração da confiança dos mercados, na atração de investimentos estrangeiros e no combate à inflação. Também conseguiu explorar um sentimento crescente, presente em diversos setores da sociedade, de que o país precisava romper com a fase anterior, ainda que essa ruptura viesse por meio de políticas liberais rigorosas. Contribuiu para isso o apoio recebido por seu governo de instituições financeiras ocidentais e de círculos de influência norte-americanos, que viram em sua ascensão uma oportunidade para redirecionar a Bolívia para longe do legado de esquerda que dominou o país por quase duas décadas.

Assim, a queda da esquerda na Bolívia não foi resultado de um único fator, mas da acumulação prolongada de crises econômicas, desgaste político e divisões internas, além da capacidade da direita de apresentar-se como uma alternativa apta a restaurar a estabilidade em um momento em que parte da sociedade havia perdido a confiança no modelo tradicional da esquerda.

Por que a crise explodiu tão rapidamente?

O paradoxo do cenário boliviano é que o governo de Rodrigo Paz não entrou em sua atual crise devido à sua identidade de direita em si mesma, mas por causa da forma rápida e abrupta com que tentou aplicar políticas neoliberais em uma sociedade na qual milhões de pessoas pobres dependem do apoio estatal e dos serviços públicos para manter um nível mínimo de estabilidade de vida. O governo chegou ao poder sob a bandeira de salvar a economia, mas rapidamente se deparou com a realidade de que qualquer reforma econômica profunda na Bolívia implica necessariamente um enorme custo social e político, especialmente em um país com uma longa história de levantes populares contra políticas de austeridade e privatização.

Nesse contexto, o novo governo decidiu reduzir os subsídios aos combustíveis e implementar severas medidas de austeridade sob o argumento de combater o déficit fiscal e restaurar a confiança dos mercados e dos investidores. No entanto, essas medidas tiveram impacto direto na vida cotidiana das classes populares, uma vez que os custos de transporte e dos bens essenciais aumentaram rapidamente, enquanto a inflação se agravava e o poder de compra dos grupos mais vulneráveis diminuía. Como resultado, a base social mais pobre — composta por camponeses, mineiros, professores e trabalhadores do transporte — sentiu que estava arcando sozinha com o custo dessa reforma econômica, enquanto as elites financeiras e as grandes empresas permaneciam protegidas das mesmas pressões.

A crise tornou-se ainda mais grave com o agravamento da escassez de combustível e de dólares, bem como com o aumento dos preços dos alimentos, criando uma percepção generalizada entre a população boliviana de que o governo não estava administrando a crise, mas transferindo seu peso para os mais pobres. À medida que as filas nos postos de combustível aumentavam e a indignação popular diante da alta dos preços se intensificava, amplos setores da sociedade passaram a considerar as novas políticas como uma reedição das antigas receitas neoliberais historicamente associadas à intervenção das instituições financeiras internacionais e ao aprofundamento das desigualdades sociais na América Latina. Por isso, os protestos deixaram de ser uma contestação econômica limitada e transformaram-se em uma expressão de um temor social mais profundo diante da possibilidade de perda das conquistas alcançadas pelas classes populares durante os anos de governo da esquerda.

Contudo, o fator mais sensível foi a dimensão simbólica e soberana da crise, especialmente no que diz respeito à Lei Agrária 1720, que provocou a indignação dos camponeses e dos povos indígenas. A lei não foi vista como uma reforma técnica destinada a regular a propriedade agrícola ou melhorar os investimentos, mas como um passo em direção à privatização da terra e à sua transformação em um ativo financeiro sujeito ao controle dos bancos e das grandes empresas agroindustriais. Em um país onde o conceito de terra está ligado a uma longa história de luta contra o colonialismo, a marginalização e o domínio das corporações transnacionais, os protestos adquiriram um caráter que ultrapassava as reivindicações materiais imediatas, tornando-se uma defesa da soberania nacional e da identidade social dos camponeses e dos povos indígenas.

Dessa forma, a explosão da crise não foi resultado de uma única decisão econômica, mas da acumulação de um sentimento generalizado de que o governo estava tentando reorganizar a economia e o Estado de acordo com a lógica do livre mercado em detrimento das classes populares. Por isso, os protestos rapidamente assumiram um caráter político e ideológico, no qual as demandas sociais passaram a se misturar com palavras de ordem contra a dominação imperialista e contra o retorno das elites econômicas tradicionais ao controle do país.

A esquerda realmente voltou?

Os atuais protestos na Bolívia revelam que a esquerda, apesar de ter perdido o poder, não perdeu sua capacidade de influenciar as ruas bolivianas. Os sindicatos de trabalhadores, as organizações camponesas e os povos indígenas, que durante décadas constituíram a espinha dorsal do projeto de esquerda, continuam possuindo grande capacidade de mobilização e organização. Isso ficou claramente evidente na rapidez com que os protestos se expandiram e se transformaram em um movimento nacional de pressão capaz de paralisar setores vitais do país. Além disso, os métodos de confronto adotados pelo movimento de protesto, como os bloqueios de estradas e o cerco popular às grandes cidades, refletem a continuidade da cultura política consolidada durante os anos de ascensão da esquerda, na qual o controle das ruas e os instrumentos de desobediência popular eram considerados elementos fundamentais da correlação de forças na vida política boliviana.

Os acontecimentos recentes demonstraram que essas forças continuam sendo capazes de ameaçar a própria estabilidade do Estado, após os manifestantes conseguirem interromper rotas de abastecimento e isolar cidades estratégicas como La Paz e El Alto, provocando crises de combustível, alimentos e suprimentos médicos. Isso significa que a esquerda, mesmo após deixar o poder, ainda preserva uma estrutura social e organizacional que lhe confere a capacidade de se impor como um ator central em qualquer futura equação política.

Ainda assim, falar de um retorno da esquerda em sua forma tradicional exige grande cautela, pois a crise atual não significa necessariamente a volta do modelo que governou o país durante as últimas duas décadas. O que se observa hoje é a recuperação da capacidade da esquerda de mobilizar as ruas e exercer pressão social, mas isso não significa que ela tenha recuperado seu projeto político nem sua capacidade de governar o Estado. Os protestos, apesar de sua força, ainda não produziram uma liderança unificada nem um programa econômico claro que possa constituir uma alternativa real às políticas atuais. Por isso, a esquerda parece mais capaz de dificultar a ação do governo do que, ao menos por enquanto, de apresentar uma nova visão de governo.

Além disso, a própria figura de Evo Morales tornou-se parte da crise tanto quanto anteriormente havia sido parte da solução. Embora continue exercendo ampla influência entre os setores populares e sindicais, Morales já não desfruta do consenso que possuía durante o auge de sua ascensão política, especialmente após os conflitos internos e as divisões que atingiram o Movimento ao Socialismo (MAS), além das acusações judiciais e das controvérsias relacionadas às suas repetidas tentativas de retornar ao centro da vida política. Por essa razão, muitos participantes dos protestos são movidos mais pela indignação social e econômica do que pela lealdade pessoal a Morales ou pelo desejo de reproduzir a experiência anterior tal como ela existiu.

Mais importante ainda, a atual crise boliviana parece ser mais profunda do que um simples conflito tradicional entre direita e esquerda. O Estado enfrenta uma crise estrutural relacionada ao declínio dos recursos naturais, à fragilidade da produção nacional e à histórica dependência da exportação de matérias-primas — problemas que os governos anteriores de esquerda não conseguiram resolver e que os governos de direita também parecem incapazes de superar apenas por meio de receitas neoliberais. Por isso, qualquer governo futuro, independentemente de sua orientação ideológica, enfrentará as mesmas contradições econômicas e sociais se não apresentar um novo modelo de desenvolvimento capaz de superar a dependência crônica das rendas extrativas e das matérias-primas.

Dessa forma, o que ocorre hoje pode não representar simplesmente um retorno da esquerda, mas sim o retorno da crise histórica que tem marcado a Bolívia durante décadas: a crise de um Estado que busca um equilíbrio estável entre justiça social, estabilidade econômica e soberania nacional.

Onde se situa a questão palestina nesse conflito?

Na América Latina, a questão palestina normalmente não é tratada como um tema de política externa separado da política interna, mas está estreitamente vinculada à divisão ideológica entre direita e esquerda. As posições em relação à Palestina tornaram-se, em muitos países do continente, parte da identidade política de cada campo e refletem a natureza de sua relação com os Estados Unidos, com a ideia de hegemonia ocidental e com os discursos de libertação nacional que marcaram a história da região ao longo de décadas.

Nesse contexto, a direita boliviana, incluindo o governo de Rodrigo Paz, é vista como mais próxima do bloco conservador ocidental aliado a Washington e às instituições financeiras internacionais. A ascensão da direita na Bolívia faz parte de uma onda mais ampla observada em diversos países da América Latina, onde governos conservadores adotaram um discurso centrado no liberalismo econômico, na estabilidade financeira e no fortalecimento das relações com os Estados Unidos como parceiro político e econômico fundamental. Esse posicionamento costuma refletir-se também na política externa, uma vez que tais governos tendem a adotar posições mais próximas da visão norte-americana sobre o Oriente Médio, incluindo a moderação do discurso de apoio à Palestina ou sua reformulação em uma linguagem diplomática menos confrontadora em relação a Israel e ao Ocidente.

Por outro lado, a esquerda boliviana, especialmente a corrente ligada a Evo Morales, esteve associada a um discurso de solidariedade internacionalista e de oposição ao imperialismo, uma visão que considera a causa palestina como uma extensão das lutas dos povos contra o colonialismo e a dominação externa. Durante os anos de governo de Morales, a Palestina transformou-se em um símbolo político dentro do discurso da esquerda boliviana, não apenas como uma questão humanitária, mas como parte de uma luta global contra a influência norte-americana e ocidental. Por isso, a Bolívia adotou naquela fase posições firmes em relação a Israel, chegando em mais de uma ocasião a romper relações diplomáticas em protesto contra as guerras em Gaza, em uma iniciativa que buscava apresentar a Bolívia como parte de um eixo internacional de apoio aos movimentos de libertação nacional.

Dessa forma, qualquer retorno forte da esquerda boliviana ao poder ou ao centro da influência política provavelmente significará também o retorno desse discurso favorável à Palestina nos fóruns internacionais, juntamente com o fortalecimento da aproximação com governos de esquerda da América Latina, como os do Brasil, da Colômbia e da Venezuela, que igualmente adotam posições mais críticas em relação às políticas israelenses e norte-americanas. Por isso, a questão palestina aparece, no contexto boliviano, como parte de uma disputa mais ampla sobre a identidade do Estado e suas alianças internacionais, mais do que como um simples tema diplomático de política externa.

Para onde caminha a Bolívia?

Os acontecimentos atuais indicam que a Bolívia entrou em uma fase que pode ser descrita como de polarização aberta, na qual a crise deixou de ser uma simples divergência política entre governo e oposição para se transformar em um conflito profundo sobre a natureza do Estado, o modelo econômico e a própria identidade do poder. Cada lado passou a enxergar o outro como uma ameaça existencial, o que aumenta a dificuldade de alcançar uma solução estável no curto prazo.

O governo, por sua vez, considera que o que está acontecendo não se enquadra apenas em protestos sociais normais, mas representa uma tentativa organizada de derrubar uma autoridade democraticamente eleita por meio da pressão popular e da paralisação das instituições estatais. Por isso, acusa as redes ligadas a Evo Morales e os sindicatos de utilizarem a crise econômica como instrumento para devolver a esquerda ao poder por meio das ruas após sua derrota política. Na perspectiva do governo, a atual escalada não ameaça apenas a administração em exercício, mas também a estabilidade do sistema político e corre o risco de reconduzir o país ao ciclo de caos e divisões que a Bolívia conheceu em etapas anteriores de sua história.

Em contrapartida, a oposição de esquerda e os movimentos sociais veem o governo como representante dos interesses das elites financeiras, das empresas estrangeiras e das instituições ocidentais, considerando que as novas políticas econômicas reproduzem um antigo padrão de dependência econômica contra o qual amplos setores da sociedade boliviana vêm lutando há décadas. Por essa razão, o conflito não é apresentado no discurso oposicionista apenas como um enfrentamento contra medidas de austeridade, mas como uma batalha contra uma tentativa de reestruturar o Estado segundo a lógica do livre mercado em detrimento das classes populares e dos povos indígenas.

A própria sociedade boliviana vive uma situação de profundo desgaste econômico e social que torna o cenário ainda mais frágil e suscetível a explosões. O aumento dos preços, a escassez de combustíveis e a perda de poder aquisitivo criaram um acúmulo de insatisfação que pode tornar qualquer acordo temporário ou concessão limitada incapaz de enfrentar as causas profundas da crise. Isso explica a rapidez com que os protestos retornam e se ampliam, apesar das tentativas governamentais de contenção, uma vez que a confiança entre o Estado e amplos setores da sociedade parece ter sofrido uma erosão significativa nos últimos tempos.

Caso o governo fracasse em conter a crise por meio de soluções políticas e econômicas capazes de acalmar as tensões sociais, ou caso opte por recorrer a uma repressão ampla dos protestos, a Bolívia poderá entrar em uma fase mais perigosa, que ultrapasse as manifestações tradicionais e conduza a uma reconfiguração completa do mapa político. A história boliviana demonstra que grandes crises sociais frequentemente se transformaram em momentos decisivos que redistribuíram o poder e alteraram os equilíbrios de força dentro do Estado. Por isso, a atual mobilização pode tornar-se um ponto de inflexão histórico capaz de determinar não apenas o futuro do governo de Rodrigo Paz, mas também o futuro da relação entre direita e esquerda e a natureza do sistema político boliviano nos próximos anos.

Conclusão

O que a Bolívia vive atualmente ultrapassa os limites dos protestos relacionados ao aumento dos preços ou à escassez de combustíveis e reflete uma crise mais profunda que afeta toda a América Latina; uma crise ligada, por um lado, ao retorno do modelo neoliberal com tudo o que ele implica em termos de austeridade e privatização e, por outro, à própria crise da esquerda após longos anos no poder. A ascensão da direita não foi resultado de uma superioridade ideológica pura, mas da acumulação da frustração popular diante do desgaste do projeto de esquerda e de sua incapacidade de corrigir os desequilíbrios estruturais da economia e do Estado. No entanto, uma vez no governo, a direita rapidamente se deparou com realidades sociais complexas que tornaram a aplicação de suas receitas econômicas muito mais difícil do que imaginava, especialmente em uma sociedade onde milhões de pessoas pobres dependem do apoio estatal e da proteção social.

Por outro lado, embora a esquerda tenha perdido o poder, não perdeu sua presença nas ruas nem sua capacidade de mobilização e organização. Os sindicatos de trabalhadores, os movimentos camponeses e os povos indígenas continuam constituindo uma força social capaz de dificultar a ação do governo e impor novas dinâmicas à vida política. Contudo, a verdadeira crise enfrentada pela esquerda atualmente não diz respeito apenas à possibilidade de retornar ao poder, mas à sua capacidade de apresentar um projeto diferente que supere os erros da experiência anterior. A questão colocada hoje na Bolívia já não é simplesmente: a esquerda voltará ou a direita permanecerá? A pergunta passou a ser: qual modelo econômico e político pode realmente retirar o país de suas crises acumuladas sem reproduzir os mesmos fracassos sob novas formas?

No pano de fundo desse conflito interno, a questão palestina permanece presente como parte da divisão simbólica e ideológica mais ampla existente na América Latina. As posições em relação à Palestina deixaram de ser apenas uma expressão de política externa e passaram a estar ligadas a visões contraditórias sobre a própria natureza da ordem mundial. Existe um campo que vê a solução na integração ao mercado global e na aliança com o Ocidente e com as instituições financeiras internacionais, e outro que associa as causas da justiça social e da libertação nacional na América Latina à luta contra a hegemonia global e o colonialismo. Por isso, a Palestina aparece, na consciência política de amplos setores da esquerda latino-americana, como uma extensão de uma batalha maior relacionada à soberania, à identidade e à resistência contra a influência externa, da mesma forma que a direita conservadora considera a aproximação com o Ocidente o caminho para a estabilidade econômica e política.

Dessa forma, o que acontece hoje na Bolívia não diz respeito apenas ao futuro de um governo ou de um partido político, mas reflete uma disputa aberta sobre o futuro de todo o continente, os limites do neoliberalismo, o futuro da esquerda e o formato das relações entre a América Latina e o sistema internacional nos próximos anos.

Rasem Bisharat – Doutor em Estudos da Ásia Ocidental, pesquisador e analista, especialista em questões palestinas e latino-americanas.

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